Médicos da FMB estudam eficácia do passe espírita em tratamento contra transtorno de ansiedade generalizada

Pesquisadores querem analisar se o passe é tão ou mais eficiente que medicamento

No início deste ano, o Sistema Único de Saúde (SUS), por meio de portaria publicada no Diário Oficial da União, incorporou sete novas terapias complementares para oferecer aos pacientes.

Além das novas – como reiki, arteterapia e meditação – outras já são reconhecidas e oferecidas como opções de tratamento pelo sistema, além dos modos convencionais. Inclusive, muitas dessas terapêuticas viram objeto de estudo de pesquisadores pelo mundo.

Em Botucatu, o passe espírita como terapia complementar à ansiedade é que despertou o interesse de um grupo de pesquisadores da Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB), da Unesp, que está dando início a um estudo para avaliar se o passe possui eficácia no tratamento de pessoas que têm Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG).

O processo de recrutamento teve início na semana passada e, a partir de março, será iniciado o primeiro grupo de pacientes. A médica Vanessa Banin, uma das pesquisadoras, explica o que será feito: “Vamos, inicialmente com todas as pessoas recrutadas, dividi-las em dois grupos por sorteio, um processo de randomização, bem criterioso, haverá um grupo que irá receber medicamento prescrito pelo psiquiatra e outro grupo que irá receber semanalmente um passe espírita”.

Ela completa que esse processo deverá ocorrer durante dois meses e, a cada quatro semanas, os voluntários terão retorno para avaliar os sintomas. Por meio de questionário, os pesquisadores irão avaliar a possível melhora deles ao término desse período.

Médicos Vanessa Banin e Luiz Gustavo Modelli de Andrade viram melhoras nos pacientesSidney Trovão
Médicos Vanessa Banin e Luiz Gustavo Modelli de Andrade viram melhoras nos pacientes

Vanessa, assim como o também membro do estudo, o médico Luiz Gustavo Modelli de Andrade, destacam que o interesse em pesquisar o tema é que, primeiro, se trata de um problema comum – de acordo com eles, estima-se que 20% das pessoas do mundo inteiro sofram de algum transtorno ansioso – além disso, o passe espírita é um tratamento que não possui efeito colateral. Mais um motivo seria que, se comprovado sua eficácia, o passe será mais uma opção de tratamento ao paciente.

“Estamos falando sobre ansiedade, que é algo muito prevalente, e até hoje não existe um tratamento tão bom para ansiedade, até hoje os estudos que tratam ansiedade eles se comparam com placebo, então é medicamento versus medicamento que não funciona, e no fim desses estudos nós vemos que o medicamento é quase tão eficaz quanto placebo”, ressalta Andrade. “Então nós estamos tentando ver se existe outro tratamento que seja mais eficaz que o tratamento convencional medicamentoso”, conclui o médico.

 

PRIMEIRO ESTUDO DO GRUPO APONTOU MELHORA EM 83% DOS PACIENTES

Passe e placebo foram feitos em voluntários por dois anosDivulgação FMB
Passe e placebo foram feitos em voluntários por dois anos

Esta não é a primeira vez que o grupo da FMB se reúne para pesquisar sobre a relação entre o recebimento de passe espírita e a melhora da ansiedade. Entre os anos de 2014 e 2015, os pesquisadores analisaram 50 pessoas consideradas ansiosas, por meio de um questionário, e que não estavam recebendo tratamento nem com psiquiatra, nem com psicólogo e nem fazendo uso de medicamentos.

Desse total, 23 indivíduos receberam o passe espírita e, 27, uma imposição de mãos, durante oito semanas. Então, veio o resultado: ao longo desse período, 83% das pessoas que receberam o passe não tinham mais critério de ansiedade e, 37% dos que receberam a imposição de mãos, alcançaram níveis normais de ansiedade.

“Vimos que melhorou nos dois grupos, porém de uma maneira mais importante, com diferença estatística, no grupo que recebeu o passe”, destaca a médica Vanessa Banin. “Vimos que se sentir tratado, acolhido, já contribuiu”, completa o médico Luiz Gustavo Modelli de Andrade.

A assistente administrativa Andressa da Silva foi uma das participantes desse primeiro estudo. Apesar de nunca ter ido ao médico relatar o problema, ela se considerava ansiosa, e decidiu se voluntariar no grupo de pesquisa. “Eu também nunca tinha tomado passe, mas saía de lá me sentindo mais leve, porque criava todo um ambiente, era relaxante”.

Ela conta que, durante o estudo, ela não sabia se estava recebendo o passe ou apenas uma imposição de mãos, mas que na época, o tratamento a ajudou. “Depois que acabou, o doutor [Francisco] Habermann chamou um a um dos participantes e disse como melhorou. No meu caso foi de 27 a 30% de melhora, então me ajudou”.

O estudo, desenvolvido com recursos próprios dos pesquisadores, pode ser encontrado na internet por meio da pesquisa pelo nome “Effect of the Spiritist ‘passe’ energy therapy in reducing anxiety in volunteers: A randomized controlled trial”. Também está disponível na Plataforma Brasil, canal do Governo Federal, sob o nome “Efeito da terapia energética do passe na redução da ansiedade em voluntários”.

 

VOLUNTÁRIOS PODEM SE INSCREVER

Sem recursos públicos, o novo estudo agora será desenvolvido ao longo do ano na Faculdade de Medicina de Botucatu e, quem se sentir ansioso e quiser participar, pode entrar em contato pelo telefone (14) 3811-6547 que novos grupos serão chamados no decorrer dos meses.

Assim como o primeiro estudo, este novo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Unesp, tanto que está em andamento. Para o médico Luiz Gustavo Modelli de Andrade se, mais uma vez, for comprovada uma melhora dos pacientes por meio do recebimento do passe, isso será um ganho. “Se [os resultados] forem igualmente eficazes já é bom, porque provavelmente vai ter menos efeito colateral [o passe]”, destaca.

Terapias alternativas já são utilizadas na Faculdade de Medicina de Botucatu. Na FMB estão disponíveis aos pacientes, por exemplo, um laboratório de homeopatia e acupuntura.

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