Mal de Parkinson pede tratamento e não preconceito

Mais do que tremores, a doença merece atenção para ser diagnosticada precocemente. No Dia do Parkinsoniano, o Diário conta como é a vida de quem tem a doença e mostra quais os sintomas e tratamentos

Sidney Trovão
Dona Araci pinta flores e pássaros para melhorar a coordenação motora e não se deixa abater por causa do Parkinson

Os primeiros sintomas da doença aparecerem há alguns anos, mas a professora aposentada Araci Brégula Nunes, de 76 anos, não imaginava que a dificuldade em falar e engolir e a tosse seca frequente fossem sintomas do Mal de Parkinson.

O diagnóstico só veio após muitas idas ao médico, muitos exames como a endoscopia. “Quando fui a uma consulta com o geriatra e minha filha contou que eu estava cada dia com mais dificuldade em engolir e em um exame, ele viu que a campainha da minha garganta e também a minha língua tremiam. Foi então que fui diagnosticada com Parkinson e encaminhada ao neurologista para fazer o tratamento”, contou dona Araci.

Durante o dia a dia surgiram outras dificuldades. O caminhar ficou mais lento, as tremedeiras um pouco mais frequentes e não só na boca. Também surgiu a falta de memória. “Eu faço tudo em minha casa, limpo e cozinho, mas desde então eu aviso o meu marido Fernando qual a atividade que estou fazendo no momento. Porque se eu esquecer, ele me lembra. Acontece com frequência de eu sair da cozinha para buscar uma coisa no quarto e quando chego lá, não lembro o que estou buscando. Aí volto a cozinha e então me lembro do que tinha que pegar”, explica a aposentada.

Mesmo com tantos sintomas, Araci não se deixa abater. Com um sorriso e muito bom humor ela enfrenta o Parkinson com muita naturalidade. “Não me entrego porque sei que vai ser pior. Eu me mantenho ativa e enfrentando a doença. Faço trabalhos manuais, artesanato e pinto livros que minha filha compra pra mim. Isso ajuda a minha coordenação e eu adoro”, afirma.

O modo como o Parkinson se manifestou em dona Araci não é tão comum, segundo o médico neurologista do Hospital das Clínicas de Botucatu, Oscar Schelp. O Parkinson se manifesta de várias formas e as tremedeiras, que todo mundo acha comum, só acomete uma pequena parcela dos pacientes. “A depressão é um dos sintomas mais fortes, assim como disfunções intestinais e a dificuldade em executar movimentos. O tremor é o sintoma que mais chama a atenção, mas nem sempre acontece primeiro. Eles surgem com o tempo e não em todos os pacientes com Parkinson”, explicou o doutor.

O Parkinson é uma doença degenerativa que atinge o sistema nervoso central e afeta mais de 4 milhões de pessoas no Brasil, segundo a Associação Brasil Parkinson. A doença acontece porque o paciente para de produzir dopamina, uma substância que afeta principalmente a parte motora do cérebro e por isso surgem as dificuldades em se locomover e também as tremedeiras. Geralmente ela aparece entre os 65 e 75 anos, mas podem existir pessoas que tenham Parkinson aos 50 anos. “Essa é uma doença que não é hereditária e não tem como prevenir. Ela também não tem cura, apenas tratamentos que melhoram a qualidade de vida dos pacientes”, afirmou o neurologista.

A questão é que o tratamento também não é igual para todos, dependendo dos sintomas, a idade e o histórico de saúde de cada paciente, os médicos destinam um tipo de tratamento diferente. “O que vale deixar bem claro é que ninguém morre de Parkinson e que mesmo que o paciente for bastante idoso, o tratamento é indicado porque dará qualidade e condições de vida mais confortáveis a ele. As pessoas ainda têm preconceito com o Parkinson, e isso não pode acontecer. Quem tem Parkinson não é incapaz, pelo contrário. Com tratamento adequado, ele pode levar uma vida muito tranquila”, destacou o doutor Schelp.

 

Como identificar o Parkinson

Assim como a maioria das doenças, o Mal de Parkinson deve ser diagnosticado ainda no início para que o paciente tenha um tratamento adequado. Mas nem sempre é fácil identificar que a pessoa está doente. Como a maioria associa o Parkinson aos tremores nas mãos e braços, o diagnóstico precoce é algo raro na família.

“Os tremores nem são os sintomas mais importantes, existem outros que nos fazem identificar o Parkinson. Como não é uma doença hereditária, fica difícil prevenir e também não é possível fazer um exame laboratorial. Só um exame clínico feito por geriatras, clínicos gerais ou neurologistas pode dizer que o paciente tem a doença”, afirmou doutor Schelp.

Os principais sintomas que devem ser levados em consideração são:

  • Falar baixo
  • Engasgar com a comida
  • Ter dificuldade para caminhar e acompanhar a velocidade das demais pessoas
  • E ter dificuldade de se alimentar por causa dos tremores e da lentidão dos movimentos em geral.

Geralmente é algum familiar quem percebe os primeiros sintomas e eles devem ser levados ao médico do paciente em suas consultas de rotina. “Quanto antes começar um tratamento, melhor será a vida e a rotina da pessoa”, completa o médico.