Como é que pode?

Mantiveram Temer, porque não existe uma solução política mais adequada que mantenha o pessoal do PT e seus aliados, fora da divisão da rapadura dos espaços de poder.

Redação Diário | Diário Botucatu
Serra, Geraldo, Tasso e Aécio: quatro ex-governadores de estado (dois de SP, um de MG e outro do Ceará): os herdeiros políticos da primeira geração de tucanos estão divididos em dois lados em franco confronto

Em 2016, o cara pegou o microfone e votou cheio de razão a favor do impeachment de Dilma Roussef (PT): por causa daquelas pedaladas fiscais, que maquiaram o caos nas contas do país e provocaram o start da grave crise econômica que atravessamos nos últimos 3 anos.

E atrás disso tudo tinha uma nuvem de corrupção, que acabou ficando na conta da pobre Dilma, que sempre foi meio bolada, como diz o personagem que faz piada com o jeitão meio atrapalhado da mulher escolhida a dedo por Lula para ser presidente do Brasil.

Um ano depois, em 2017, o mesmo deputado vota contra a abertura de investigação de corrupção contra Michel Temer (PMDB) por coisa muito pior: e parece que votou dessa forma para proteger o sistema do qual faz parte. Quer continuar levando vantagem.

Faz ser difícil defender esse tipo de postura nas ruas na campanha de 2018. Até porque já ficou claro que a nuvem de corrupção não era uma exclusividade do Lula, do Zé Dirceu e daquela turma toda que achou que podia transformar o Brasil num quintal de um conjunto de ideias que não fazem mais sentido em nenhum dos cantos do planeta.

Essa coisa meio Miss Venezuela, meio Cuba Libre, que foi o sonho maluco de uma geração inteira que ainda não acordou para a realidade. Gente que ainda não viu que o mundo hoje é muito diferente daquele dos Anos 60, quando voraz industrialização brasileira deu guarida ao discurso da luta de classes, que dividia os seres humanos entre os capitalistas selvagens e suas eternas vítimas, que batizaram de classe trabalhadora.

Esse é o perfil de grande parte dos deputados federais brasileiros, não apenas alguns bem conhecidos pelo interior paulista. Cassaram Dilma, em troca de privilégios.

Mantiveram Temer, porque não existe uma solução política mais adequada que mantenha o pessoal do PT e seus aliados, fora da divisão da rapadura dos espaços de poder.

 

O DEVER DO PSDB

  E a culpa desse cenário é do PSDB, um partido com significado forte no passado recente do país, e que hoje está claramente com os pés em duas canoas meio furadas. É aquela história, depois dessa bagunça toda, no caminho do PSDB tem sempre um PMDB no meio.

E uma letra de diferença no nome da sigla é muito pouco para quem pretende construir, a partir de São Paulo, um trampolim para voltar a comandar o Brasil.

Um grupo, com Aécio Neves e José Serra na linha de frente, fez o trato no fio do bigode e troca juras de amor e lealdade com Michel Temer. O outro grupo, quer se livrar logo do presidente peso morto e zarpar para a oposição, com Tasso Jereissati e Geraldo Alckmin puxando a corda; mas bem devagar, pra não arrebentar de vez e nem perder o apoio da turma que interessa do PMDB, nas eleições presidenciais de 2018.

 

BICUDOS DE MINAS E SP

  Só um deputado federal do PSDB de Minas Gerais votou contra Temer. Todos os outros a favor. Só um deputado federal do PSDB de São Paulo votou a favor de Temer. Todos os outros a favor. A conclusão é simples: em SP, José Serra e Aloysio Nunes só tem um deputado tucano no seu grupo político. Todos os outros são ligados ao governador Geraldo Alckmin.

Em Minas Gerais, Aécio continua mandando no PSDB. E está com mais força que Serra e Aloysio, quando senta com Temer pra ver como é que vai ser daqui pra frente. Mostrou que tem bancada, que existe em Minas Gerais um Partido do Aécio dentro do PSDB. Em São Paulo, já ficou claro que o Partido do Serra dentro do ninho tucano hoje está bem fraquinho.

Sem um líder nacional capaz de subir no muro que separa os dois lados e dizer de boca cheia – e com a autoridade que já teve no passado um Mário Covas – o que pensa e o que defende, para influenciar a base, o PSDB não vai conseguir sair da encruzilhada em que se encontra. Hoje, entre os tucanos paulistas, a discussão mais estratégica é se depois de tudo isso que aconteceu, ainda dá pra juntar os dois grupos dentro de um mesmo projeto político.

Esse racha, que até agora estava circunscrito à capital, também começa a abrir suas feridas pelo interior paulista. Como vem reforma política e janela para troca de partido por aí, o velho PMDB parece que pode gerar mais uma cria. Ou duas, se os dois lados resolverem matar a legenda e começar tudo de novo. Existem momentos em que a única forma de sobreviver é trocar de CNPJ, construir desde a base uma estrutura nova: e ver no que dá.

 Tenha um bom dia.

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