UMA DECISÃO QUE VAI CUSTAR CARO PARA MUITOS NEGÓCIOS

Redação Diário | Diário Botucatu
“Faz 14 anos que trabalho com o carrinho de picolé debaixo do sol quente. Nessa época de agora, tem dia que vende mais, tem dia que vende menos, tem dia que não vende nada. Mas no calorzão, o pessoal fica até mais tarde na rua passeando, aí vende bem. Eu acho que não deveria mudar. No verão, a gente sempre aumenta o que ganha vendendo picolé na rua. Ajuda bem a pagar as contas e viver com mais sossego”. José Cândido, 56 anos, vendedor ambulante de picolé

O governo, quando pensa em mudar alguma coisa se esquece dos hábitos, da cultura e da adaptação que as pessoas e as empresas são forçadas a fazer, sempre que precisam se moldar ou se ajustar ao novo jeito, que alguma norma do poder público agora aponta que é o certo. Mesmo que isso signifique que vai dar tudo errado na vida de muita gente.
Para o turista que gosta de sol e mar, será que sem horário de verão fica mais interessante ir para Balneário Camboriú (SC), que tem um mar mais frio e uma temperatura sempre alguns graus mais baixa, ou para Fortaleza (CE), onde tem sol até mais tarde o ano inteiro?!

Isso muda o planejamento de uma grande parte das empresas que englobam o setor de turismo: das operadoras aos hotéis, dos restaurantes às feirinhas de artesanato local. Da indústria de moda até as barraquinhas de praia. Dos postos de estrada até os borracheiros da esquina. E joga por terra investimentos que já foram feitos baseados na lógica e no cenário estabelecido no calendário de turismo de diversas cidades do país.

O HORÁRIO DE VERÃO É UMA CULTURA

Os tecnocratas do governo olham só para os seus números. Não fazem um esforço maior, para tentar ter uma visão mais ampla do que suas decisões podem causar nos números e na vida das pessoas que fazem parte da economia real, aquela que tem que fazer esforço pra se manter de pé, nesse país que enfrenta uma avalanche nadando como pode contra sua forte correnteza.

Quem perde e quem ganha?
Perdem, por exemplo, as fábricas de cerveja, refrigerante e água, que apostam a maior parte de sua estrutura de produção, marketing e logística em função do sol mais esticado no fim do dia no quadrimestre de maior faturamento na temporada.

Ninguém toma mais líquido para se hidratar ou se embebedar porque o sol nasceu mais cedo. Provavelmente a Ambev vai precisar de menos gente na sua estrutura. Mas desemprego, nunca foi um problema para quem mandou no governo brasileiro nas últimas décadas.

E os bares do interior, que contratam garçons extras para a temporada do happy hour antes de escurecer. Aqui pelo interior paulista as belas praças de nossas cidades, também ficam mais cheias de famílias e casais de namorados nos finais de tarde dos quatro meses com mais luz natural sobre as nossas cabeças.

Nesse mercado, atuam os nossos simpáticos pipoqueiros, sorveteiros, os nossos quiosques e trailers, sempre prontos para oferecer um bom lanche. Na temporada do Verão, a família inteira vem junto ajudar, porque o movimento é grande. Dá até para guardar um dinheirinho pra atravessar o inverno, que por aqui tem noites bem frias.

Isso é a economia real. Aquela dos microempreendedores individuais, dos microempresários, das pequenas e artesanais empresas familiares. Gente que enxerga uma oportunidade, encara o desafio e vai à luta. É pra botar comida no prato dos filhos. Pra comprar os remédios da mãe e do pai, aposentados com salário mínimo.
O negócio, serve de sustento para a família. Não tem ações na bolsa. Não tem financiamento do BNDES, não tem possibilidade de se reunir com presidente pra pedir uns incentivos fiscais, ou umas isenções tributárias para exportações.

É um tipo de empreendedor que muitas vezes não sabe nem o que significa balança comercial. Nem faz questão de saber. Nem faz ideia se o consumo da energia que paga está vindo da hidrelétrica, da termoelétrica ou de uma usina atômica. Só sabe que se não pagar em dia, a geladeira não liga, o fogão novo não funciona sem fósforos.

O problema desse tipo de brasileiro que trabalha até mais tarde com um sorriso no rosto atendendo seus clientes, é pagar a conta de luz, onde mais da metade é imposto. O problema é pagar o aluguel ou a prestação da casinha que financiou porque o governo incentivou. É garantir o botijão de gás e pelo menos três refeições por dia em cima da mesa de casa.

E OS NEGÓCIOS QUE PROSPERAM NO VERÃO? COMO É QUE FICAM?

E quem contratou financiamentos para construção de hotéis, restaurantes, ou para a aquisição de novos equipamentos nas indústrias voltadas para a temporada do sol mais comprido. O governo diz que não vale a pena porque a economia foi pequena.

Mas será que a queda de receita para empreendedores de diversos setores da economia, negócios importantes para as economias de suas cidades, não vão ser maiores com essa possível canetada?!

E quem investiu em novos equipamentos nas academias de ginástica que garantem um corpo saudável para milhões de clientes? Nos quatro meses do verão, a maioria das empresas do setor costuma faturar mais que nos oito meses restantes do ano.

Será que o governo pensa nisso na hora de colocar no meio da tempestade política uma intenção que muda a lógica da vida de tantos empreendedores?
A culpa é nossa.

No tempo da vovó, só tinha leque e ventilador e a conta de luz era muito mais barata. Quem mandou tanta gente comprar um aparelho de ar condicionado?!

Tenha um bom dia.
Independente se você é daqueles que prefere ou daqueles que detesta o tal do Horário de Verão.

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