Paciente com câncer de mama dribla o medo e encara a situação com fé e bom humor

No Dia Mundial do Combate ao Câncer, em 8 de abril, conheça a história de Sheila Pilan, que descobriu a doença, mas não se abalou. Ela conta o que passou em sua página no Facebook

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Sheila não se deixou abalar pelo problema

O câncer é uma das doenças que mais afeta o indivíduo. Ao receber a notícia, cada um reage da sua própria maneira, mas uma delas é unânime: abatimento, tristeza e o questionamento do que fazer dali para frente. Mas, no Dia Mundial do Combate ao Câncer, celebrado em 8 de abril, o Diário conta a história da autônoma Sheila Pilan, de 40 anos.

Sheila descobriu um câncer de mama no ano passado. Se abateu, chorou bastante e, muito religiosa, perguntou a Deus o motivo daquela situação. No entanto, não caiu. Pelo contrário, levantou, sacodiu a poeira e deu a volta por cima. Ela relatou parte de sua luta contra a doença pelo seu Facebook.

Ela conta que sempre teve a mania de fazer o autoexame da mama. E em um deles, percebeu um pequeno caroço, no formato de um feijão, no seio. “Como era uma época próxima a eu ir ao meu ginecologista, eu pensei ‘vou falar pra ele’. Marquei consulta, fiz os exames, falei do carocinho e ele me pediu um ultrassom. Fiz, levei para ele e um tempo depois o médico me disse que não era nada, que eu poderia ficar tranquila. Só que no período de um ano, esse caroço foi aumentando e estava sempre ali me incomodando. Eu me mexia e sentia ele”, relembra.

Sem comentar com ninguém, ficou matutando aquilo na cabeça. Decidiu, então, ir a um posto de saúde. De lá, foi encaminhada a Unesp, onde fizeram mamografia e ultrassom. “Passei por vários médicos. E em uma das consultas, decidiram fazer uma biópsia em mim. Voltei para saber resultado e, na consulta final, quando o médico me disse que não ia fazer mais a biópsia e que era para eu voltar em seis meses. Com as dificuldades para agendar exames, voltei oito meses depois”, diz.

E oito meses depois, em julho do ano passado, a médica que estava fazendo o ultrassom chamou outro médico. Depois, chamou outro. Algo de errado estava acontecendo. “Percebi que tinha algo estranho. Depois me encaminharam para outra parte na Unesp no mesmo momento. Lá, nesta sala, fizeram um monte de pergunta e no mesmo dia quiseram fazer a biópsia”, conta.

O que seria mais um dia de exames de rotina se tornou um susto. Naquele momento, em silêncio, se agarrou em sua fé e pediu a Deus para que Ele fizesse o melhor. Depois da biópsia, foram pedidos outros exames, com urgência, feitos com rapidez. E 21 dias depois, voltou para saber os resultados. Era câncer de mama.

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“Sentei na cadeira e ele foi falando e explicando. Só que começou a me dar uma queimação, minhas costas começaram a queimar e aquilo foi subindo. Na hora que chegou no pescoço, eu desabei. Comecei a chorar. O medico levantou, pegou um papel e falou para eu ficar tranquila, que aquela era a hora de chorar. Eu não sou uma pessoa que fica reclamando. Então eu chorei, foi um desabafo, já limpei as lágrimas em seguida e falei que estava tudo bem. Ele continuou falando e explicou os próximos passos”, afirma.

Pela demora no processo entre encontrar o pequeno caroço e a certeza da doença, ela questionou ao médico se seria mesmo necessário o início da quimioterapia, mas agora não tinha mais volta.

Quando saiu de lá, estava tremendo dos pés à cabeça. Passou na loja do esposo, Reinaldo Spago. E, ao vê-lo, desabou novamente. O marido soube na hora o que se passava. Conversaram um pouco e Sheila partiu para casa. “Eu queria ficar sozinha naquele momento. Eu precisava conversar com Deus. Eu sempre fui muito reservada. Eu entrei no quarto, ajoelhei e chorei bastante. E questionei ‘por que eu? O que eu fiz para merecer isso’. Mas ninguém merece, é tudo da vontade de Deus. E tudo no tempo Dele”, salienta.

Segundo ela, não obteve resposta naquele momento, mas sentiu um grande conforto. Junto, veio a certeza da cura. “Eu coloquei isso dentro de mim. Eu fiquei algum tempo ajoelhada e pensei que tinha muita coisa para fazer. Afinal, eu tinha ‘ganhado’ uma doença e não na mega-sena”, ri.

Levantou, lavou o rosto, se agarrou novamente em sua crença e seguiu adiante. Foi para sua lojinha e começou a fazer o que fazia no dia a dia. “Minha fé ajudou. Com isso eu ia seguir sem me abalar. Tanto emocionalmente quanto fisicamente. Claro que também fui conversando com médicos e já sabia o que ia acontecer comigo. Mas segui conectada com Ele, pedindo forças para que o melhor fosse feito”, afirma.

 

A tão temida quimioterapia

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Uma das primeiras postagens no Facebook apareceu após a primeira sessão de quimioterapia. “Foi muito assustador. Tudo que pode acontecer com a gente. E para a mulher é mais difícil. Só estando no dia a dia no hospital para ver a tristeza na cara das pessoas”, relembra.

Antes da quimio, o paciente recebe uma série de outros medicamentos, como antialérgico, por exemplo. Sem saber do procedimento, Sheila se assustava a cada nova leva de remédios, mas a enfermeira logo tratava de lhe acalmar. “Calma, ainda não é a quimio”, avisava.

Quando chegou a bolsinha com o medicamento vermelho, soube que havia chegado a hora. “Pensei que ia até cair minha cabeça a hora que isso entrar no meu corpo. Mas a hora que começou a cair as gotinhas eu fechei os olhos e pedi para Deus colocar o sangue Dele em mim. Me emociona lembrar. E tive certeza de que Ele ia fazer aquilo. Pedi para que o que tivesse que ir embora fosse e o que as células boas ficassem”, enfatiza.

Ao contrário de muitos pacientes, ela não teve ânsia e nem vômitos. Só sentiu fraqueza durante alguns dias e dor nas pernas em outros. “É muito triste ver as pessoas passando mal lá. É muito difícil. Mas às poucas crises, eu reagi bem. E sobre a queda do cabelo, todo mundo falava: ‘cabelo não é nada, ele cresce de novo’. Mas raspar a cabeça para uma mulher e ficar na frente do espelho é muito difícil. Eu falo para quem se deparar com uma mulher com câncer, sem cabelo, mesmo que seja para confortar, é melhor não falar que cabelo não é nada. Às vezes não ajuda”, diz.

O médico havia lhe dito que o cabelo cairia entre o 12o e o 14o dia. E os dias que se seguiram pareciam não passar. Perdeu noites de sono, preocupada, acordando e olhando no travesseiro para ver se já havia começado a queda. Então, Sheila combinou com seu irmão, barbeiro, de que iria fazê-lo uma visita assim que caíssem os primeiros fios.

Sheila conta que, durante o processo da queda do cabelo, ela foi à igreja e disse a si mesmo que iria ao altar, no fim do encontro, para chorar e pedir para Deus lhe ajudar para que não chorasse mais pelo cabelo. No entanto, o pastor fez algumas brincadeiras e ela começou a rir. Então ela pensou: “poxa, eu achei que ia chorar e estou dando risada?!”. Decidiu ir atrás de lenços para cobrir a cabeça.

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Na loja, a atendente perguntou se seria presente. Com a negativa de Sheila, ela afirmou, curiosa que quem chegava lá na mesma situação estava sempre para baixo, diferente da autônoma. “É difícil, mas eu sou assim. Eu não estou com vontade de chorar”, lembra. A moça ainda chegou a lhe oferecer uma peruca, mas ela recusou. Preferia o lenço.

Depois disso, não chorou mais pelo cabelo.

Quando o marido a viu de lenço pela primeira vez, em casa, chorou. Mas Sheila tratou de acalmá-lo, dizendo que não havia problema. Até brincou que os banhos seriam mais rápidos porque não teria que lavar o cabelo. “Eu levo as coisas dessa maneira, mas nem todo mundo leva. E eu sei que tenho que respeitar as outras pessoas. Eu não estou brincando com a situação. Mas eu escolho sorrir ao invés de chorar e reclamar”, ressalta.

Frequentadora da Igreja Evangélica há dez anos e muito religiosa, ela não conseguia evangelizar e conversar sobre Deus com outras pessoas. Era muito reservada, conta. No entanto, com o desenrolar do tratamento, viu que seria uma boa ideia contar para as outras pessoas através do Facebook. “Eu ia falar de Deus e alertar outras mulheres. No início eu já sabia da doença mas não tinha contado nada. Apenas falava da importância do autoexame. Mas depois decidi contar. E faz toda a diferença”, diz.

O tratamento de Sheila é dividido em três partes: quimioterapia, cirurgia e radioterapia. Ela fez seis meses de quimioterapia – terminou há duas semanas. Agora, ela vai retirar toda a parte interna da mama. Na parte externa, preserva-se tudo, pele e auréola. Depois, parte para a radioterapia. “Minha cirurgia vai ser dia 5 de maio”, conta.

 

Lição de vida

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Sheila se preparando para cortar de vez os cabelos

Uma das lições que levou da situação foi que as pessoas são o que são. “Eu se caio, levanto, sacudo a poeira, engulo o choro e depois dou risada de mim mesmo. Eu percebi que as pessoas não mudam”, afirma.

Ela também afirma que tinha muitos planos, mas que agora segue em frente. “A decisão final é de Deus. Essa é uma outra coisa que eu tenho pensando sempre”, salienta.

Por fim, ela diz que o conselho que passa a outras pessoas que passam pela mesma situação é de que a escolha é própria. “Deus comanda tudo mas a gente tem que escolher Ele. Sei que é difícil, que outras pessoas pensam de outro jeito, que não tem forças para fazer essa escolha, mas é o que eu falo. Tenha fé em Deus que fica tudo mais fácil”, finaliza.

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