OS NOSSOS DEPUTADOS E O JEITINHO BRASILEIRO

Redação Diário | Diário Botucatu
As gordas “tetas” dos cofres públicos servem de aparato para oficializar uma estrutura que não leva em conta os avanços tecnológicos de comunicação e relacionamento social. E as leis, que tentam coibir os abusos, na verdade não passam de letra morta, para quem não se importa.
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Mesmo depois que a Lei do Nepotismo entrou em vigor, diversos casos continuam pipocando por todo o país, mostrando o completo proveito particular do dinheiro público para fins que não tem nada a ver com os anseios do conjunto da sociedade.
Uma estrutura cara demais, pesada demais e
ineficiente demais para custar tanto para o bolso dos contribuintes. O problema é que quem faz as leis são os mesmos que se beneficiam das “brechas” dela.

Brasil não foram poucos os deputados (estaduais e federais) que encheram seus gabinetes de parentes: do sobrinho até a sogra, preenchendo todos os cargos de seus gabinetes com a justificativa de que eram as pessoas de “sua confiança”.

Quando a imprensa denunciou, eles correram para corrigir o “equívoco”.

A contratação era feita de acordo com as brechas que a lei permitia, mas não era correto, era absolutamente imoral. Os nossos deputados sabem muito bem como aprovar leis que deixam brechas para que possam “dar um jeito” de fazer o que querem fazer, independente do que a sociedade pensa sobre isso.

A solução encontrada por muitos de nossos espertos deputados para continuar mantendo a renda de seus queridos “parentes”, as únicas pessoas nas quais confiavam para sua atividade política, foi bastante criativa: fazer troca-troca com deputados de outros estados. Dessa forma, os parentes contratados com polpudos salários não apareciam ao gabinete ao qual realmente estavam vinculados, deixando de caracterizar, segundo a lei, um caso de nepotismo.

Ficou assim: um deputado federal de São Paulo, por exemplo, contratava parentes de um deputado de Goiás ou do Rio Grande do Norte, em troca da contratação dos seus familiares pelo gabinete dos deputados parceiros.

Os deputados “espertos” conseguiam continuar transformando em renda familiar as verbas disponíveis para a contratação de assessores.

Era muito simples. O deputado A (de SP) contratava a esposa ou ao irmão do deputado B. Oficialmente, portanto, do ponto de vista legal, se caracterizava uma espécie de nepotismo cruzado, que perdurou até que casos constrangedores começaram a vir a público através de denúncias da imprensa.

Os “contratados” nessa modalidade nunca trabalharam de fato no local em que foram contratados. Na maioria dos casos, nem em lugar nenhum: não passavam de funcionários fantasmas. Serviam apenas para arrancar dinheiro dos cofres públicos em benefício do crescimento do próprio patrimônio pessoal e da elevação do padrão de vida e de renda de suas próprias famílias.

Na prática, não mudava nada. Cada “parente” ou “amigo” continuava fazendo “política” ou sendo apenas funcionário fantasma sem aparecer na folha de pagamento que a nova lei – e as denúncias da imprensa – tornavam constrangedor demais nas bases eleitorais, cada vez mais atentas em relação ao comportamento de seus representantes.

Essa situação perdurou por muito tempo. Até hoje volta e meia são denunciados alguns casos do tipo. Mas depois que diversos parlamentares foram flagrados utilizando esse “jeitinho” prático de burlar a lei em vigor, a correria foi geral.

Não dava pra um deputado explicar – e o eleitor acreditar – porque a sogra dele que morava no Sul do país – e passava o dia passeando no shopping center – era contratada como assessora parlamentar de um deputado do Nordeste, por exemplo.

O famoso batom na cueca. Por mais que explique, nada justifica.

Para tentar encontrar mais um jeito de “dar um jeito” de não deixar a família desamparada, virou coisa comum alguns parlamentares contratarem, através de seus gabinetes, com verba pública, as babás dos filhos, as empregadas, o jardineiro e o motorista da família.

Era uma forma de burlar a lei e resolver a questão que realmente interessava: manter a família protegida e segura com renda garantida sem que os nomes e o CPF dos parentes não aparecessem oficialmente na folha de pagamento do Poder Legislativo.

Na prática, funcionava assim: a Babá era contratada por R$ 2 mil mensais como remuneração verdadeira. Mas era registrada na Câmara Federal com salário de R$ 15 mil. No dia em que o salário era depositado, o trato era devolver R$ 13 mil para o patrão deputado. E tudo continuava como sempre foi. Até que a imprensa descobriu e começou a mostrar os casos nas manchetes de jornal e no horário nobre do rádio e da televisão.

A saída então, finalmente, foi fazer tudo de acordo

com uma lei.

E os deputados não tiveram dúvida: passaram a fazer a mesma coisa, mas utilizando o CPF de seus “cabos eleitorais”, aqueles que sempre sonham com uma boquinha no gabinete do deputado, um empreguinho público como recompensa depois de “dar o sangue” durante a campanha eleitoral e ajudar a garantir mais uma vitória.

O “cabo eleitoral”, que faz política 24 horas por dia para o “deputado”, é transformado em “assessor parlamentar”. O deputado negocia quanto ele quer ganhar. E repete a história que já fazia antes com a babá e o jardineiro. O assessor é contratado por um valor “X”, recebe oficialmente “5X” e devolve “4X” na mão do deputado ou do chefe de gabinete que controla essa operação contábil de caixa 2 dentro da estrutura política bancada com dinheiro público.

Tenha um bom dia.

Independente se você acha que a política é assim mesmo – ou entende que ela pode ter um padrão de ética mais elevado – por parte das pessoas que ocupam as posições que dependem do voto popular para atuar em benefício de toda a população.

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