Orquestra Sinfônica Municipal de Botucatu abre temporada

OSMB comemora 30 anos em 2017 e se destaca como uma das únicas orquestras sinfônicas municipais de todo interior paulista

Uma festa. É assim que o maestro da Orquestra Sinfônica Municipal de Botucatu (OSMB), Fernando Ortiz de Villate, define a temporada 2017 de concertos na cidade. E a inspiração não é à toa, já que, esse ano, a OSMB completa 30 anos. “Todo concerto, em todo o ano, será uma festa celebrando os 30 anos, teremos convidados de renome nacional e internacional”, destaca Villate.

A primeira convidada é a soprano Yasmini Vargaz, que sobe ao palco do Teatro Municipal Camillo Fernandez Dinucci acompanhada do maestro e dos 36 músicos da OSMB neste domingo (5), às 19h, durante o concerto de abertura da temporada festiva, que conta com entrada franca.

Do Rio Grande do Sul, ela vem a Botucatu pela primeira vez, convidada por Fernando de Villate. “Com muita gentileza ela vem para fazer esse concerto e parabenizar a orquestra pelos 30 anos”, coloca o maestro. “Ela é considerada uma das vozes privilegiadas do Brasil, ganhou muitos prêmios, muitos concursos, estudou na Europa”, ressalta ainda Villate sobre a convidada.

Yasmini Vargaz é bacharel em canto lírico pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e acumula passagem em eventos musicais de peso, como óperas no Theatro São Pedro, em São Paulo, e o Natal Luz na cidade gaúcha de Gramado.

No concerto de abertura em comemoração ao 30° aniversário da OSMB, está programado um repertório com peças de compositores internacionais – como o italiano Gioachino Rossini, o alemão Johannes Brahms e o russo Tchaikovsky – e brasileiros, como Ary Barroso e Guerra Peixe. Mais um compositor homenageado será John Williams. “Este ano fazemos uma homenagem ao compositor mais importante do século, John Williams. Agora [no domingo] a orquestra vai tocar uma obra de ‘Star Wars’ [The Imperial March], e durante o ano tocaremos diversas peças dele, fazendo uma homenagem”, destaca o maestro Fernando Ortiz de Villate.

Para quem se surpreende com um repertório que engloba até a Marcha Imperial de Star Wars, pode se preparar porque toda a temporada da Orquestra será de muitas surpresas. “Nossa agenda desse ano está cheia de convidados, tem muitas surpresas, muita diversidade de gêneros musicais para todos os gostos, e sempre com qualidade e profissionalismo”, adianta Villate.

 

TRAJETÓRIA

Quem vê os 36 músicos da OSMB hoje, em uma orquestra profissional com maestro, montadores e arquivista, não imagina que há 30 anos a história era um pouco diferente. O timpanista Tico Villela, que fez parte da fundação do grupo, recorda como foi o início de tudo. “A iniciativa foi de alguns músicos que estudavam no Conservatório de Tatuí, eu também estudava lá, e de uns médicos que tocavam, daí comentando na época com o prefeito Jamil Cury ele se dispôs a ter uma orquestra em Botucatu”.

Villela completa que o primeiro regente da OSMB, o maestro Pereira, veio também do Conservatório de Tatuí, e que ele convidou outros alunos botucatuenses para fazer parte da Orquestra, que no início era formada por cerca de 22 músicos. “Começamos bem amadores, foi um projeto na verdade, começamos escolhendo um repertório simples, fazendo uma pesquisa de repertório”, completa o músico, que entrou como percussionista na OSMB.

Também formado pelo Conservatório de Tatuí, o clarinetista e diretor administrativo da Orquestra, Franklin Ramos, entrou sete anos depois da fundação do grupo. Antes de fazer parte da OSMB, ele recorda a primeira vez em que viu a Orquestra em cena, quando tinha 12 anos e era membro da Banda Municipal. “Um dia vi a Orquestra tocando e fiquei encantado! Era um estilo de música que eu não conhecia, que eu não tinha contato até então. Eu tinha contato com música de banda, que eram as marchas, sambas… E depois que tive esse contato com a orquestra fiquei ‘nossa!’, ia além do que eu imaginava”.

Aos 14 anos e então como estudante avançado do conservatório, Ramos passou a ser mais um membro da OSMB, época em que quando começaram algumas mudanças no grupo. “Quando eu ingressei a Orquestra era algo mais lazer, não tinha muito um caráter profissional, era mais para ter uma atividade cultural na cidade, era assim que a Orquestra era vista naquela época”, conta. “E nós [os músicos] queríamos que a Orquestra fosse mais profissional, tirasse esse caráter de amadora, porque tinha gente que não ia assistir aos nossos concertos porque achava que a nossa Orquestra era ruim. Eu convidava pessoas e elas achavam os violinos desafinados, diziam que não era uma orquestra, que era uma banda, e nós percebíamos que faltava qualidade, mas tinha muita política envolvida, daí, com o tempo, passamos a mexer nisso, porque nós víamos que a orquestra tinha que crescer”.

Sidney Trovão
Franklin Ramos recorda que primeiros concertos eram vazios

E cresceu. “Com o passar do tempo, por volta de 2000, veio o maestro Marcos Virmond com outro caráter, com uma roupagem nova com músicas diferentes, conceitos diferentes, e daí acabamos evoluindo um pouco mais tecnicamente”, recorda Ramos. Além disso, o músico destaca que nessa época eles passaram a contar com um grupo fixo.

E daí, ao longo dos anos, a OSMB foi se fortalecendo, os concertos enchendo e a visão do público sobre eles se modificando. “Hoje temos pessoas que criticavam no passado que agora dizem ‘nossa, é uma orquestra!’, e chegamos a escutar de uma pessoa que frequenta a Sala São Paulo que não precisa mais ir lá para escutar um bom concerto. Para nós essa é a gratidão, porque esse era o objetivo nosso”, comemora o clarinetista.

Além da qualidade e comprometimento dos músicos, Franklin Ramos destaca que para a Orquestra atingir o nível que está hoje também se deve muito ao atual maestro, Fernando Ortiz de Villate, que assumiu a regência da OSMB há um ano. “Sonhávamos com um maestro que tivesse essa energia que ele tem, e não só essa energia, mas os contatos que ele tem, porque não é só reger, o objetivo dele é trabalhar profissionalmente com a Orquestra, e ele tem contatos importantes nesse meio para conseguirmos fazer coisas novas”.

“A Orquestra teve vários ápices, vários momentos bons, e eu acho que agora ela está passando por um momento muito bom com a vinda desse novo maestro, acho que estamos no melhor momento da Orquestra”, completa Tico Villela.

Villate, por sua vez, ressalta o empenho dos músicos para fazer tudo acontecer. “Há um trabalho em equipe muito gostoso. Embora às vezes as pessoas achem que músicos normalmente se reúnem e tocam, não, a Orquestra Sinfônica Municipal de Botucatu não é uma orquestra jovem ou educacional, que se reúne para tocar, é um órgão de difusão cultural, mas é uma empresa, é um trabalho, existem os chefes de naipes, existe toda uma hierarquia que ajuda que aquele motor funcione e caminhe bem, respeitando os horários, as partes técnicas, e o bonito é que está funcionando”, declara o maestro.

 

OSMB QUER PARCERIA PRIVADA

Entre os planos futuros da OSMB está a parceria com entidades privadas, conta o diretor administrativo da Orquestra, Franklin Ramos. “Queremos parcerias privadas, tivemos uma conversa com o [prefeito Mário] Pardini já, e ele se pôs à disposição. Estamos com a Pinacoteca para ser inaugurada e vai haver um grupo gestor para cuidar dela, uma associação, e estamos vendo a possibilidade de jogar a Orquestra para essa associação administrar, para captarmos dinheiro”, explica. “Para a Orquestra ir além do que estamos hoje precisamos disso, precisamos aceitar essa parte administrativa que envolve algo maior”.

Atualmente, a Orquestra está ligada à secretaria da Cultura que, garante o secretário Antonio Luiz Caldas Júnior, continuará mantendo o grupo. “Não existe nenhuma orientação para sofrer embalo nenhum”, afirma.

 

ORQUESTRA É UMA DAS ÚNICAS DO INTERIOR

A Orquestra Sinfônica Municipal de Botucatu é hoje a única orquestra sinfônica municipal do centro-oeste paulista e uma das únicas do interior do estado de São Paulo. Para maestro, músicos e secretário, isso só dá motivos para comemorar.

Sidney Trovão
Maestro Fernando Ortiz

“Uma orquestra é alimento para as pessoas, é educação, então que bonito que Botucatu se preocupa com isso. Tem muitas orquestras fechando porque às vezes as pessoas não se preocupam com a cultura. Poucos municípios têm realmente essa visão, esse preparo, e mantêm sua orquestra sinfônica, e eu fico muito contente com esse apoio político que tem, e com os músicos que querem chegar a essa excelência”, destaca o maestro Fernando Ortiz.

“Botucatu está entre as únicas cidades do interior do estado de São Paulo que tem uma orquestra sinfônica, uma banda municipal e um coral municipal. Nós temos os três campos principais da parte musical em funcionamento no município, e isso faz com que a cidade se mostre mais rica em cultura, esse é o peso que tem. Se vamos para Viena, qualquer cidade histórica ao redor do mundo, são cidades que têm esses elementos funcionando, e isso fez elas se tornarem ícones da história, e Botucatu se torna um ícone por conta disso. E temos muita riqueza na nossa cidade, com a viola, o samba também, temos tudo, a grande riqueza de Botucatu é isso, temos todas as partes culturais manifestadas, desde as artes plásticas até a orquestra, e isso acontece porque tem bastante sensibilidade na nossa cidade, e incentivo”, conclui o diretor administrativo da OSMB Franklin Ramos.

“Eu acho que a nossa Orquestra, nos baseando em uma fala do ministro [da Cultura, Roberto Freire] e

no que está acontecendo no estado de São Paulo, muitos municípios estão fechando as suas orquestras lamentavelmente, e eu acho que aí é um apequenamento do pensamento às vezes imediatista. É lógico que quando o calo aperta a gente tenta responder mais rápido, mas temos que ter cuidado nesse processo, isso é o nosso patrimônio cultural, não tem valor”, argumenta o secretário da Cultura, Antonio Luiz Caldas Júnior.

 

NOVIDADES PARA O ANO

Depois de uma apresentação de sucesso no Festival de Inverno de Campos do Jordão no ano passado, quando foi selecionada para participar, a OSMB, para o evento desse ano, foi convidada para um concerto dentro do Auditório Claudio Santoro na cidade. A data da apresentação ainda não foi definida.

Já em Botucatu, a Orquestra esse ano está com sete concertos oficiais agendados, com cinco solistas. Entre as apresentações, depois da de domingo, dia 17 de abril haverá uma em comemoração ao aniversário da cidade, com o trompista da OSMB Rafael de Almeida Proença solando trompa. Já no dia 29 de maio haverá um concerto em prol do asilo, organizado com a maçonaria, com a participação de um regente italiano.

A pianista Telma Habermann também está entre as convidadas da temporada. Ela irá se apresentar durante o Festival de Inverno de Botucatu, que ocorre em julho. Telma iniciou sua carreira, hoje internacional, dentro da OSMB. “É prata nossa”, brinca o diretor administrativo da OSMB Franklin Ramos.

Veja também: