“O rap é a voz do oprimido”

Conheça Gabriel Chapolin, rapper botucatuense de 23 anos que acaba de lançar um videoclipe e divulga seu primeiro CD solo.

Redação Diário | Diário Botucatu

Por Lana Salvador

 

Nascido em Botucatu em 1993, Gabriel Victor foi morar em Tatuí ainda criança e retornou à cidade após alguns anos. Foi na infância que ele, seus dois irmãos e sua mãe viveram dias difíceis, contando muito tempo com uma renda mensal de 180 reais. Por serem muito novos, os filhos não conseguiam ajudar a colocar dinheiro em casa com frequência e, nessa época, Gabriel conta que a mãe chegou a passar fome para alimentá-los. Um ponto interessante é que em nenhum momento o rapper se coloca como vítima, optando por lembrar desse período como uma experiência de vida.

Após o preconceito inicial por sua escolha profissional, Gabriel passou a ter o apoio familiar para viver do rap e via na mãe Michelle Cristina sua fã número um. Foi ela, aliás, que convenceu a família a escutar suas músicas, sempre pedindo atenção às letras. Após perdê-la para o câncer em dezembro de 2016, Gabriel afirma que o rap tornou-se crucial para sua existência. “O rap salvou a minha vida”. Atualmente, Gabriel vive da música, que dá a ele alimento não só para o corpo como também para a alma.

O início

A escolha do nome Chapolin deve-se ao fato de Gabriel ficar corado facilmente e ser o mais baixo entre seus amigos da Cecap, bairro onde sempre morou em Botucatu. Daí, surgiu o apelido “polegar vermelho”, que mais tarde o rapper transformou em Chapolin, criando seu nome artístico Gabriel Chapolin.

Gabriel conheceu o rap aos 9 anos de idade, brincando de improviso e de freestyle com os vizinhos. Aos 11 anos, montou sua primeira banda de rock. Apesar de gostar bastante desse gênero musical, foi no rap que ele encontrou uma forma de chegar até as pessoas, conseguindo passar sua mensagem. Com 15 anos, formou o grupo O Élo – Ritmo e Poesia. Após algumas reformulações, atualmente o grupo é uma produtora que tem o objetivo de expandir o rap na cidade, acolhendo outros rappers e lançando-os no mercado.

Sobre o início da carreira, Chapolin conta que a maior dificuldade foi encaixar sua mensagem na batida do rap, pois estava acostumado com o instrumental do rock. Superado o desafio, nasceu “Tente Saber Voar”, sua primeira composição. Gabriel lembra que escreveu sete letras e jogou todas fora, ficando satisfeito só na oitava tentativa. “Nessa hora, até pensei em desistir. Mas eu sabia que era capaz”.

O artista afirma que o rap foi fundamental para seu processo de autoconhecimento e hoje é seu principal canal de comunicação, tentando fazer as pessoas se questionarem sobre sua existência, porque estamos no mundo e porque já nascemos devendo. Para Chapolin, o rap deixou de falar só da quebrada e do sistema para falar também do lado interno das pessoas e tocar o íntimo delas.

Questionado sobre a importância do rap, Gabriel diz que o gênero significa informação. “O que as pessoas não têm coragem de falar, muitos artistas têm coragem de escrever e cantar. O rap é a voz do oprimido”. O artista também defende que o rap salva vidas: “Tudo que envolve arte salva a vida das pessoas”.

Durante toda a conversa, Gabriel chama todos de “irmãos”, justificando que essa é uma forma de se conectar às pessoas e sentir-se mais próximo a elas. “Juntos somos mais fortes. Sendo individual, não se chega a lugar nenhum”. Chapolin diz que no interior há muita união entre os artistas, ao contrário de São Paulo onde os grupos se fecham. Por isso, foi criada a página no Facebook Rap do Fundão, que pretende valorizar os talentos do interior e acabar com o tabu de que só na capital existem bons rappers.

Dando a volta por cima

Gabriel Chapolin acaba de lançar o CD Intenções Profundas, seu primeiro disco solo que foi lançado virtualmente em setembro de 2016. O álbum surgiu da ideia de falar sobre os seus sentimentos mais profundos, estimulando as pessoas a serem um ser humano melhor a cada dia, resgatando assim os bons sentimentos que existem dentro de nós. “Pretendo levar esse álbum para várias cidades, pois é uma obra que foi difícil alcançar. É uma sementinha que eu quero plantar na cabeça das pessoas, através de músicas motivadoras que vão lhes fazer questionar”.

A respeito da música “Dando a Volta por Cima”, single lançado independente e que fará parte do seu segundo CD, Chapolin afirma que a letra defende a ideia de que as minorias não têm tantas oportunidades na vida. Assim, a mensagem passada é que para evitar a marginalidade é possível dar a volta por cima sem depender do sistema e sem precisar se corromper para o crime, usando como caminho a inteligência e a arte. O fato do recém lançado videoclipe ser gravado na sua própria casa tem a intenção de mostrar seu bairro de origem (Cecap) e a casa de vila, como é chamada a casa das famílias mais humildes. O grafitti que aparece na produção audiovisual foi feito pelo amigo Vinicius Skyze, que usou formas espirais nos desenhos para representar o desenvolvimento da humanidade.

Além disso, o rapper participa de um projeto com shows acústicos junto à  gravadora. Sobre os futuros planos, Chapolin pretende lançar em novembro seu segundo álbum solo “Deixando o Mundo Sapiens” e pretende expandir a carreira, inclusive através de parcerias com rappers amigos que o inspira.

Sobre as dificuldades que o rap encontra em Botucatu, Gabriel cita a falta de espaço físico, muitas vezes sendo necessário transferir shows e projetos sociais para outras cidades da região. Por fim, Chapolin reflete sobre o que é viver da arte: “Viver de rap para mim é a maior satisfação de todas. Deixei de ser um fantoche e o que o sistema quer que eu seja. Com a música, sou o que eu sou”.

 

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