O espetáculo de Fernando Vasques

Saiba mais sobre os encontros desse artista cheio de ímpetos criativos

Rebeca Selpis
Por Lana Salvador

 Ano de 2012. Eu cursava Comunicação Social na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e, devido à distância, voltava para Botucatu apenas nas férias. Por algum motivo, naquele ano eu passei a Páscoa em casa. Meu pai veio me visitar, conversamos sobre várias coisas e finalizamos o papo falando sobre a minha inquietação em ter trocado o curso de Computação – que me garantiria estabilidade financeira depois de formada – pela Comunicação e sua total instabilidade. Lembro bem do conselho que recebi: “Você está fazendo o que ama, a Comunicação é um curso lúdico. O dinheiro é só uma consequência. Quando bater a insegurança, lembra do Artista!” (era assim que meu pai Celso Camacho chamava o entrevistado de hoje). Nos despedimos, voltei pra Vitória e um mês depois recebi uma ligação com a notícia da sua morte.

O Em Cantos de hoje é sobre uma das minhas grandes referências em Botucatu: Fernando Vasques e a sua verdade.

Redação Diário | Diário Botucatu

O Artista

Fernando Vasques, 29 anos, é um sujeito nada óbvio que se adapta às diferentes linguagens artísticas. Seus primeiros passos nesse ofício foram na adolescência, quando se encantou pela música nas cantorias de família e pediu ao tio seu violão para aprender a tocar. Logo, começou a fazer aulas e foi encontrando mestres que o guiaram na rota que ele mais se identificava. A partir daí, descobriu outros instrumentos. Foi também nessa época que começou a fazer oficina de teatro com Robert Coelho e assim surgiram várias relações dentro desse universo, inclusive o circo: com o malabarismo, a acrobacia e a palhaçaria. Tempos depois, Fernando fundou uma das primeiras trupes de circo de Botucatu e desde então continuou sempre buscando formação e informação. O botucatuense também escreve e acredita que, de certa forma, a poesia está atrelada à canção. “Mas às vezes eu arrisco de poeta só na escrita. E da escrita para a cena. Eu costumo colocar tudo no circo, porque ele abarca várias artes e acolhe uma multiplicidade de linguagens”. E completa: “Me sinto começando ainda, estou começando a construir uma carreira artística”.

Relutante na questão de terminar o colégio e fazer faculdade, Fernando considera sua temporada em São Paulo um grande divisor de águas. Formado na SP Escola de Teatro – que tem como proposta artistas que formam artistas – foi lá que o botucatuense encontrou grandes inspirações que o apoiaram no ofício e viraram referências. “Mas SP já não estava me fazendo bem, não é meu perfil. Tem gente que dá conta de entrar numa companhia, se agenciar com algo que já está funcionando, mas que ao mesmo tempo é sofrido”. Na capital, o Artista chegou a ter um grupo com pessoas que também eram de fora e considera esse encontro muito potente. Aliás, até hoje eles mantêm contato e debatem possibilidades criativas imersivas.

“Eu não escolhi ser cantor, ser músico, ser malabarista, ser poeta… Eu sou essa coisa, esse fuçador que gosta de tudo isso e fica tentando organizar em possibilidades de encontros. Essa é a grande verdade. Nos processos recentes de vida e de autoconhecimento, eu descobri que tudo que eu faço é para viabilizar um encontro. E a grande vontade é que o encontro seja potente onde haja comunhão, onde a gente se encante e eu possa transmitir algo bom para as pessoas. Que elas saiam do espetáculo melhores do que chegaram. Essa é sempre a minha vontade”.

Fernando também é produtor cultural e adora inventar coisas. Uma delas é o projeto Café das Cinco criado com os amigos Sérgio Viana e João Raphael Paixão, cuja idealização é um encontro mensal de compositores onde as pessoas vão para mostrar suas canções autorais e outras apenas assistem. “É tão difícil hoje em dia você parar para ouvir algo”, reflete. O Artista também já produziu na cidade Encontros de Malabaristas e o Festival de Circo, além de outros encontros que valorizavam a livre expressão artística.

 

 

Há pouco tempo, Fernando começou a se aventurar pelos caminhos pedagógicos da arte e tem gostado muito. Antes, teve experiências dando pequenas oficinas. Em 2016, iniciou algumas práticas e aulas de teatro e circo. Atualmente, o Artista comanda uma oficina cultural de teatro por meio de um projeto da Secretaria de Cultura de Botucatu. “Tem sido uma experiência muito boa porque é uma turma bastante dedicada e a gente está imerso num processo de investigação teatral voltado a essa linha que eu gosto, que é do cômico e do humor. É um grande privilégio”.

Além disso, mantém uma rotina de treinamentos e ensaios constantes, segue com a Companhia Beira Serra de Circo e Teatro e também se dedica à construção de um número circense com o parceiro artístico Guilherme Gasperine, através de um projeto contemplado recentemente pelo ProAC – iniciativa da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. “A proposta é plantar poesia, afeto e tudo mais. Nesse espetáculo, a gente quer trazer uma dramaturgia mais ácida, falando sobre o Agronegócio e sobre as mazelas tanto do trabalhador do campo quanto da nossa própria ocupação humana na Terra e a maneira como nos relacionamos com isso. Estamos construindo aos poucos esse trabalho de humor mais reflexivo e que traz uma crítica”, revela.

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OBSTÁCULOS

Uma dificuldade mencionada por Fernando é a questão de se apresentar em lugares adversos onde há grande dispersão. Assim, um artista contratado que deveria ser o centro das atenções acaba sendo ignorado pelo público. “Não é uma questão egocêntrica. Mas você é artista e faz um mergulho num lugar para buscar coisas. Aí você traz essas coisas e o mínimo que você espera é atenção. Você quer mostrar seu trabalho. Certa vez, um amigo disse que quando você não tem isso é venenoso. E é mesmo. Um ambiente disperso, onde você não consegue favorecer as condições do encontro, se torna venenoso”. E como será que o Artista faz para que isso não lhe afete? “Eu abstraio, na verdade. Às vezes fico abatido, às vezes não. Nem sempre os encontros vão ser lindos e maravilhosos. Mas a caminhada continua, eu quero escrever um poema, criar um espetáculo… a gente quer produzir sempre mais. Porque a vida segue acontecendo, a gente segue sendo afetado e no final traduzimos isso em poesia”.

PROCESSO CRIATIVO E MINÉRIO DE FÉ

No que diz respeito ao seu processo de criação, Fernando discorre sobre inspiração e transpiração. Hoje em dia, ele diz estar dedicado e focado cada vez mais na transpiração: através de uma vida disciplinada, hábitos saudáveis, cuidados com a mente e o corpo, meditação, prática de exercícios físicos e também através de orações tentando atrair coisas que ele quer e expelindo o que não quer que fique. Quanto à criação das canções, o Artista revela que muitas vezes elas apenas vêm e, por isso, não há necessidade de uma disciplina ou dedicação e de precisar sentar para compor. “O que eu faço hoje é praticar as canções que eu já tenho, pensar possibilidades, tentando desenhar esse caminho para eu gravar um primeiro disco”. Quanto ao circo e ao teatro, o botucatuense acredita que são processos que exigem mais transpiração, principalmente o circo que é mais treinamento. “É importante ter as técnicas na base, porque na hora que vir a inspiração, você já tem a ferramenta”.

“Uma loucura da minha vida é essa: são vários processos criativos que de um tempo pra cá eu venho tentando organizar. Como cuidar de tantas coisas? Eu quero ter um disco, quero ter um repertório de espetáculos de circo e teatro, vira e mexe penso em produções culturais doidas. É muita coisa para gerenciar. Então eu tenho tentado focar para não virar aquele circense sem nenhum espetáculo ou um compositor sem nenhum disco. Por exemplo, quanto às canções: foi um super aprendizado de dois anos pra cá gravar três canções e fazer três vídeos. Pra mim, isso é muito interessante: as parcerias feitas com esses trabalhos e perceber um avanço e esse amadurecimento”.

 

Aliás, sobre o seu mais recente trabalho, a canção Minério de Fé surgiu de uma parceria de Fernando (responsável pela letra, voz e viola) com o irmão Dael Vasques, que criou a harmonia e participa com voz e violão. “É uma letra singela, que fala de coisas que eu gosto. Aliás, o Dael tem sido um grande parceiro nessa perspectiva de colocar o trabalho no mundo. Enfim, ele tem sido fundamental para essas composições. E é também uma grande inspiração pra mim”. A música foi gravada há um ano e o videoclipe foi lançado mês passado, trabalho em que Marina Tavares e Otávio Seraphim assinam a direção, fotografia e montagem, e que conta com a produção musical de Guilherme Chiappetta, com quem Fernando tem uma parceria antiga. “O clima do lançamento do videoclipe junto com um show sucinto foi uma coisa mágica, diferente do ambiente dispersivo que eu comentei antes”, conta Fernando todo empolgado.

Minério de Fé é o terceiro trabalho autoral no campo musical do Artista. A primeira canção Para o dia atravessar foi gravada em uma linha mais intimista, só Fernando e a viola. “Foi um start”. Já a segunda composição O Velho foi uma experiência super rica por gravar com banda em estúdio, algo que o músico não estava acostumado. Já o último trabalho, Minério de Fé, além da parceria musical dos irmãos Vasques, Chiappetta mais uma vez ficou responsável pela gravação e Rafael Gandolfo assumiu o violoncelo. Já no videoclipe, Fernando deu liberdade total para Marina e Otávio criarem e identificarem referências e também escolherem as locações. O resultado é emocionante.

Por fim, Fernando conta que tem um sonho a longo prazo de ter um espaço próprio para centralizar algumas vontades, um ambiente que não precisa ser grande, um espaço pequeno, acolhedor. “Porque as ideias a gente fervilha, né?”. Lá, pretende fazer sarau, cabaret de circo, música, residências artísticas, enfim… todo tipo de arte possível. “E Botucatu é essa efervescência, eu sinto um privilégio estar aqui. É tanto artista, tanta gente maravilhosa, cada vez mais gente chegando que tem os atrativos da cidade, que vem gente de fora: gente do audiovisual, das artes visuais, do teatro mesmo, da dança, da literatura que a gente vive em troca”

E o Artista conclui: “Eu não tenho essa perspectiva de ter fama. Eu só quero ter um espaço e uma escuta atenta”.