Não importa o que você tem! Importa o que você é. E de onde você vem.

Redação Diário | Diário Botucatu

E pra começar a conversa, se você for brasileiro, é visto como um cidadão lá da América do Sul, perto da Argentina. Estar nessa situação, normalmente é ser tratado com o respeito e a consideração que um ser humano que veio do 3º mundo merece.

Um mero visitante, um turista, de quem se espera um comportamento adequado enquanto estiver usufruindo boas experiências com aquela cultura. Como a gente espera deles, quando vem passear por aqui. Mas a gente não trata diferente quem vem da Inglaterra.

Normalmente só quem vem do Paraguai, do Paquistão ou de Angola?!

Essa é a diferença fundamental entre “alguns de nós”, brasileiros – e “alguns deles”, estrangeiros.

 

RESUMO DA CONVERSA.
O QUE SURPREENDEU GUILHERME DE FORMA NEGATIVA NO EXTERIOR:

“Uma certa frieza (por parte das pessoas). A falta daquela camaradagem comum entre os brasileiros quando recebem hóspedes ou visitantes de outros lugares. Aqui no Brasil a gente recebe de braços abertos, mas é recebido lá de maneira bem formal. Somos estrangeiros. Somos estranhos. Somos considerados seres humanos diferentes – em desenvolvimento – pelos nativos de algumas culturas milenares. É claro que – embutido nessa postura – ainda existem marcas de antigos preconceitos nos países de cultura descobridora em relação aos habitantes de suas velhas colônias além mar…”

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Na 1ª imagem: Place Darcy, a porta de entrada de Dijon; 2ª imagem, Rue de Libertè; 3ª imagem, Catedral de Notre Dame. Lugares por onde Guilherme passou que serviram para mostrar que o que é de todos é responsabilidade de todos. E vira cartão postal…

PERGUNTAR NÃO OFENDE! EM TERRA DE NINGUÉM, O ‘BEM PÚBLICO’ É DE QUEM?!

Guilherme Frolini de Moraes, 24, é um jovem de Botucatu (SP), formado em Relações Internacionais pela PUC-BH. Atualmente, busca seu segundo diploma universitário, cursando Economia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). O perfil e as condições de sua família permitiram que tivesse duas oportunidades de passar temporadas no exterior, vivendo como brasileiro em uma terrar estranha.

Ele participou de seu primeiro programa de intercâmbio (Estados Unidos) quando era adolescente (2009-2010). Viveu como um ‘nativo’ na Terra do Tio Sam. O segundo, para a França, foi mais recentemente (2014- 2015), quando sentiu mais de perto o estilo de vida e a cultura de algumas cidades europeias antes de voltar pra casa.

Um jovem de vinte e poucos anos criado no interior paulista como milhares da sua geração. Que construiu sua ainda curta história de vida em uma cidade universitária importante e com IDH e estrutura de serviços públicos e acesso a bons serviços educacionais, de saúde e de lazer que garantem a qualquer estudante uma qualidade de vida bem acima da média brasileira.

Hoje ele é um profissional em busca de conhecimento nas universidades brasileiras. Olhando para o país em que vive e para as cidades em que mora como endereço fixo (Botucatu) e como população flutuante (a capital paulista), com a esperança de que realmente tenham força e capacidade de se transformar em lugares possíveis.

Lugares como alguns que ele conheceu nas duas oportunidades que teve, de ver por dentro e viver durante um tempo, culturas de sociedades que já amadureceram bem mais do que a do maior país da América Latina. Mas isso não serve de justificativa para conformismo barato. Se não aprendeu, copia, imita. Mas cuida direito do que é um Bem Público, do que é Patrimônio Público, do que é dinheiro público.

Qualquer sociedade responsável faz isso. Botucatu (SP) também pode. O Brasil também pode. É só decidir querer. Zelar pelo que é ‘Bem Público’ é um dever de qualquer pessoa que se assuma como cidadão, alguém que faz parte de uma comunidade.

E o papel de qualquer comunidade que acredite em si mesma, em sua trajetória como história, em sua cultura acumulada sabedoria única, em seu futuro como aglomerado urbano ou rural, é preservar o que tem, para poder buscar o que não possui.

Somos, em cada lugar espalhado no mapa, uma comunidade brasileira capaz de produzir a reeducação cidadã, que é a nossa parte na mudança que tanto queremos. O Guilherme já viu, nos lugares por onde passou na vida, que funciona. Dá certo. Não custa tentar.

Quando muitas pessoas agem em conjunto como cidadãos, damos o nome de comunidade, de sociedade. O resto é cidade, é estado, é país. E pode até ser terra de ninguém, como muitas e muitos que a gente vê por aí esparramados no mapa.

 

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Guilherme com a família que o recebeu no Mississipi (EUA).

(2009/2010)
ESTADOS UNIDOS: NO ‘INTERIORZÃO’ DA MAIOR POTÊNCIA DO MUNDO

“Estive em New Orleans, isso foi uns dois ou três anos depois do (furacão) Katrina. A cidade ainda estava tentando se reconstruir. A música, o Blues, é muito marcante por lá. Também visitei alguns lugares mais neutros como a Carolina do Norte, Carolina do Sul e o Tenesee. Não tinha muito o que fazer. São lugares bem parecidos com o Mississipi, são locais bastante religiosos, com igrejas, em sua maioria protestantes, muito fortes nas comunidades.
Lá eles gostavam muito de esporte: Futebol Americano, Baseball e Basquete…

Visitei Nova Yorque também. Na minha opinião, é muito parecido com o que a gente conhece nos filmes. O Central Park também é muito bonito, uma região gigantesca no centro de Nova Yorque, onde vive muito gente rica. Conheci muitos museus, a Estátua da Liberdade e o Empire State Building. Mas é uma metrópole muito grande e não consegui conhecer muita coisa. Fiquei lá no dia de São Patrício (o santo irlandês)quando se pode beber na rua. Aliás, é um dos únicos dias que se pode beber na rua. Todo mundo se veste de verde e de irlandês.

Também passei por Las Vegas (Nevada) e pelo estado da Califórnia, que foram lugares mais interessantes que eu conheci.

O Grand Canyon que é um buraco gigante, um lugar muito bonito e foi a primeira vez que vi neve na minha vida. Então foi um momento muito marcante. Estava muito frio nesse dia e eu quase não tinha blusas. Fui para Santa Mônica, na Califórnia onde minha ‘host sister’ (da família americana) fazia um curso. Passei o Dia de Ação de Graças lá. Foi muito legal porque a gente foi de carro. Cruzamos aquele país inteiro de carro para chegar lá e tivemos a oportunidade de ver o pôr do sol e o nascer do sol em diferentes estados dos EUA. É muito bonito. Em certos lugares você tem o deserto e atrás você tem montanhas com neve.

Então é (tudo) muito cinematográfico.

Las Vegas é muito peculiar porque você não tem noção de quando é dia e quando é noite, e a cidade realmente não fecha. É 24 horas.

O legal dos Estados Unidos é essa cultura da viagem.

Não é sobre sair do “Ponto A” para chegar no “Ponto B”. É realmente pegar o carro, encarar a estrada e conhecer várias cidades nesse percurso. E curtir a viagem. É uma experiência bem Americana essa de ficar 20 horas dentro de um carro com uma família. É um contato muito real. Na cidade que eu fiquei tudo era muito rico, mas ela fica no Mississipi que é um dos estados mais pobres.

Então é algo que impressiona. Até a Escola.

A escola é maravilhosa, com muita estrutura e tecnologia. Tinha a possibilidade de pegar aulas mais avançadas de acordo com os meus interesses. Era curioso que não tinha um serviço público de transporte, porque a maioria das pessoas tinha (e usa) o carro para se locomover. Lá eles não tem o costume de andar muito pela cidade porque era tudo meio longe. Então existia essa necessidade de ter um carro.

Lá existe muito incentivo ao esporte e a qualquer atividade extracurricular que você faz. Tudo é muito incentivado. As igrejas tinham muita estrutura e eram bem tecnológicas, havia computadores e até vídeo games nelas. O que era legal para os jovens porque se tornava mais interessante ir para igreja, o que costuma ser algo tedioso para alguns. Eles tratam a religião com uma cabeça aberta, para conseguir mais público. Mas, ao mesmo tempo, é um povo bastante intolerante. Acho que por serem do Sul dos EUA, todos se incomodavam demais com as opiniões contraditórias às deles.”

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Com os amigos, no Jardim de Luxemburgo, durante um dos passeios por espaços públicos que impressionam pelo nível de conservação e de preservação. Todos respeitam.

EUROPA

“Fiquei em Dijon que fica no Leste, nordeste da França, que é próximo da suíça e da Alemanha. Dijon foi a capital do ducado da Borgonha, que era uma região muito grande. Em Dijon que ficava o Palácio do Duque. É uma cidade muito bonita, tinha um palácio gigantesco onde aconteciam vários eventos. Era muito interessante porque era um palácio gigante numa cidade muito pequena.

A gente morava num subúrbio, que era uma região de imigrantes árabes. Mas totalmente estruturada. Tinha um clube do lado, supermercado, posto de gasolina, Mc’donalds, padarias. É interessante que na França (também) tem muitas igrejas, mas o lugar que eles vão rezar é nas padarias, o lugar que eles vão todos os dias para comprar pão. É como se fosse realmente um dogma. O pão esta presente em praticamente todas as refeições dos franceses.

A faculdade (que fez parte do intercâmbio cultural e educacional) era ótima. As aulas eram em auditórios, numa sala meio circular, que proporcionava maior debate entre os alunos, porque todo mundo meio que se enxerga.

Fora Dijon visitei, Paris, Lyon, Madrid, Londres, Roma, Berlim, Nottingham, Amsterdã, Polônia (Krakóvia). Todos os lugares são bonitos e tem atrações que com certeza surpreendem. A diferença entre os povos de um lugar para o outro é muito interessante, porque realmente são povos únicos, diferentes um do outro.

Na Inglaterra, Londres, por exemplo, o povo parece muito com o de São Paulo. É um ritmo muito intenso, parece que todo mundo está trabalhando o tempo inteiro ou fazendo alguma coisa.

Em Madrid, o povo parece brasileiro. Trabalha até uma certa hora, dorme tarde, fica bebendo na rua. Era engraçado, porque sempre que você marcava de fazer alguma coisa com eles a noite, tinha que ser depois das 23 horas.

Já os franceses, são meio quietos e na deles. Mas é um povo muito educado. Eles são tidos muitas vezes como grossos, mas na realidade eles são sérios, educados, muito civilizados.

Parece que o europeu se sente mais parte da sociedade que a gente. Eles levam a sério a sua cidade, o seu bairro, a sua rua e o seu país e prezam muito pelo patrimônio público. Acho que na Itália era várzea. Eles eram meio que latinos, como a gente. Estacionam no meio da calçada, no meio da rua. Mas os italianos também tem um senso de comunidade forte.”

UMA DELÍCIA… UMA VIAGEM COM GOSTO DE CULTURA.

O melhor ‘passeio’ para quem quer
descobrir outros lugares nessa vida.

– QUEM TEM BOCA…
PRECISA EXERCITAR NOVAS LÍNGUAS.

 

“Fazer intercâmbio é uma experiência incrível. Você não só vive em outro país ou aprende/aperfeiçoa uma língua estrangeira. Você prova de uma cultura totalmente diferente. Vive os costumes deles e aprende como é viver em um cenário totalmente diferente do seu. E que aquele espaço, aquelas pessoas, tudo aquilo constituem um novo tipo de universo do qual você nem tinha ideia. Mais que os prédios e construções maravilhosas, são as pessoas que deixam toda a experiência mais interessante. Quanto mais você conhece pessoas de outros locais e outras raízes, mais se interessa pela história deles e sobre como eles chegaram até aqui. São narrativas de um mundo que você apenas imaginava e agora tem a oportunidade de compartilhar as suas experiências e dividir novas descobertas.”

O VALOR DA GASTRONOMIA REGIONAL PARA UMA CULTURA.
– Sabores e Aromas que atravessam várias gerações.

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O frango frito com purê: comida típica do estado do Mississipi. Para Guilherme, o melhor sabor regional dos Estados Unidos

EUA

“Eu morei no estado do Mississipi, fica bem no sul dos Estados Unidos. E lá tem uma cultura muito forte. Meu pai (o da família americana que o recebeu no intercâmbio) era do Alabama e minha mãe do Texas. Eles tinham um sotaque muito forte do sul. A comida é a melhor dos EUA: frango frito, churrasco, costela, purê de batata, pão, peixe de rio, lagostim são alguns dos bons sabores”

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Na loja de mostardas em Dijon (França), sabores que fazem parte de uma cultura e que hoje atraem milhões de turistas do mundo inteiro

FRANÇA

“A região de Borgonha (França) tem uma culinária muito importante. É um dos polos de queijos e vinhos e também da mostarda. As vinícolas da Borgonha possuem algumas das garrafas de vinho mais caras do mundo. E das comidas francesas eu também gostava muito. Eles utilizam quase todas as partes dos animais e faziam isso com muita qualidade. Eu comia fígado e miolo de frango. Eles davam um jeito de ficar maravilhoso. Nunca imaginei que fosse comer coisas desse tipo.”

O VALOR DE SABER ‘MAIS DE 1’ IDIOMA DESTE PLANETA.

“Em todas essas capitais que eu visitei percebi que tem muito imigrante. As pessoas, de um modo geral, respeitam muito, até porque já estão acostumados com isso. Um momento onde eu me senti orgulhoso foi quando, na França, um francês, me pediu orientação pra conseguir chegar num determinado lugar. E eu, em francês, consegui orientar o cidadão”

Guilherme Frolini de Moraes, sobre seus dois intercâmbios aos EUA e Europa.

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