Especial Dia das Mulheres – Escola é mais um ambiente para combater o machismo

Ainda tolerada culturalmente, a violência contra a mulher precisa ser debatida em todos os espaços

“Tentando voltar para casa depois de um show, fui surpreendida por dois homens que fizeram um paredão na rua enquanto eu tentava passar. Um deles me ameaçou dizendo que quem passasse por ali levaria uma ‘gravata’ e teria que dar um beijo nele. Argumentei que isso era horrível e que ninguém precisava de uma ação violenta. Ele concordou, mas logo revidou: ‘me dá um beijo então’. Disse que não. Foi quando ele rebateu dizendo, ‘está vendo por que tem que ser forçado? Se eu faço na boa você diz que não’. E tentou segurar meu braço, mas eu saí correndo com medo por mim e por todas as mulheres”.

“Estava em uma festa e um cara chegou em mim, me tocando. Eu falei para ele sair, e ele ‘ah, se não quiser ser tocada então não vem’. Ele questionou o motivo de eu estar lá, já que eu não queria ser tocada, e ainda me insultou, e aí ele começou a vir para cima de mim, queria me bater, mas daí as pessoas seguraram. Eu fiquei chocada”.

“Teve uma vez que eu estava voltando do serviço no transporte público, à noite, e daí um cara aproveitou o tumulto para passar a mão no meu corpo, e quando eu olhei ele fingiu que não era com ele. Por medo e por estar sozinha, eu não fiz nada”.

“Quando eu tinha 14 anos, estava andando na rua, quando um cara, adulto, do nada passou a mão no meu corpo. Fiquei com muita raiva, mas na hora foi tudo tão rápido que nem tive reação”.

Os relatos acima foram feitos por diversas mulheres, a pedido da reportagem para que relatassem um episódio de violência que já tivessem sofrido por ser mulher. Infelizmente, todas elas precisaram pensar para selecionar apenas um caso de violência. “São tantos”, foi um comentário unânime entre as entrevistadas.

E atitudes como essas já aconteceram com muitas outras mulheres. “É tão natural uma mulher passar e o homem mexer, e ela se sentir constrangida, por isso a gente precisa do feminismo, porque você não consegue andar na rua sozinha sem ter medo, sem olhar para trás, não consegue passar num grupo onde tem homens e não saber se eles vão mexer com você, se você vai passar normalmente, que é o que deveria ser, e isso traz um constrangimento muito grande para a mulher”, coloca a advogada e militante feminista Cândida Magalhães.

Por conta dessa cultura patriarcal e machista, que ainda impõe que “a mulher tem que se sentir lisonjeada” – como coloca Cândida – diante de situações assim, é que, muitas vezes, a violência contra a mulher toma as caras na forma também física – e, para o agressor, nem sempre ele se considera errado. “Muitos homens agridem as mulheres e, quando vamos entrevistá-los no presídio, eles falam ‘eu não estou entendendo porque eu estou aqui, eu agredi a minha mulher’, então a posse está ali inserida, a naturalidade da violência”, expõe a advogada.

Não à toa, o Brasil hoje é o quinto país com maior índice de feminicídios do mundo, segundo levantamento da Organização das Nações Unidas. Ainda, de acordo com dados de 2011 da fundação Perseu Abramo em parceria com o Sesc, a cada dois minutos cinco mulheres são agredidas no país, “nas diversas formas de violações”, como completa Cândida. “Esse é um número que se tem conhecimento, mas imagina as mulheres que não notificam isso? Então esse número é ainda maior”.

Entre os tipos de violência, está a física, mas também tem a psicológica, a moral, a sexual, a patrimonial como explica a advogada, e todas estão abrangidas na Lei Maria da Penha. “A lei traz diversas formas de violência. Tem a violência física, que é visível, diagnosticada, está ali perceptível; a violência psicológica que vai se atrelando à violência moral, onde há xingamentos, a humilhação da mulher em público ou entre o casal, e que vai também inserindo a baixa autoestima ali. Vem a violência também patrimonial, que está prevista na lei, que é, um exemplo, rasgar os documentos dessa mulher, quebrar tudo o que ela tem, quebrar o celular dela – que vemos demais -, até em termos de dinheiro também. Além da violência sexual, que são os crimes mais subnotificados”.

Para mudar essa situação, informação e a luta por políticas públicas para fazer todas as diretrizes da lei que protege a mulher funcionar são essenciais, aponta Cândida. E essa semente pode – e precisa – ser plantada desde cedo. “O espaço de escola é extremamente produtivo. Eu ministro palestras em escolas e vejo a aceitação dos meninos com o tema, em um primeiro momento há uma distância, mas depois eles se envolvem, falam ‘ah, acontece isso na minha casa’, ‘acontece isso no meu vizinho’, ‘o que a gente pode fazer?’. Então falta um lançar de sementes ali, um tratar desse tema, desse trato com o outro humano”, argumenta a advogada.

 

ESCOLAS LEVAM TEMA À SALA DE AULA

No Brasil, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação aponta que o tema da questão e das lutas femininas deve ser abordado dentro de sala de aula. Coordenadora pedagógica dos ensinos fundamental II e médio de uma escola de Botucatu, Elen Carrega conta como o assunto é tratado onde trabalha. “Os alunos veem o tema primeiro no quarto ano, quando estudam as leis e conquistas das mulheres no Brasil, e depois no ensino médio no primeiro colegial, quando o conteúdo entra em disciplinas como filosofia abordando questões morais”.

Já em outro colégio da cidade, o assunto é abordado em disciplinas como a de atualidades, durante o ensino médio. “Um dos assuntos abordados foi uma revolução de mulheres que ocorreu em 2011 em uma cidade mexicana, onde as mulheres expulsaram traficantes de madeira da cidade, políticos e policiais corruptos, então eu falei sobre a importância da mulher ocupar o seu espaço, dei esse exemplo”, conta o professor Stéfano Cassetari. “Mas é um assunto que ao longo do ano será abordado, o papel da mulher, o ocupar de espaço na sociedade, já falamos também sobre a importância de ocupar lugar na política e lutar por direitos”.

 

ALUNOS APROVAM DISCUSSÃO DO TEMA

Os educadores destacam como o tema da mulher, quando abordado em sala de aula, desperta o interesse dos alunos. Na aula em que falou sobre a cidade mexicana de Chéran, governada por mulheres locais após uma revolução liderada por elas, o professor Stéfano Cassetari conta que, após a exposição do conteúdo, foi aberto espaço para perguntas, e os estudantes foram bastante participativos. “Os alunos se interessaram muito, ficaram muito surpresos com a união de forças e do que as mulheres são capazes de fazer. Além da surpresa, fizeram muitas perguntas”.

A coordenadora pedagógica Elen Carrega também destaca a recepção dos alunos e, ainda, a importância da escola nesse papel conscientizador. “Eles gostam quando falamos sobre o tema, porque se identificam. A escola, mais do que passar currículo, forma cidadãos, então acho que estamos no caminho certo”.

Por sua vez, os alunos também aprovam quando o assunto é abordado. “Ultimamente esse tema vem sendo muito discutido, e é um tema importante para se discutir em sala porque apesar de toda essa divulgação que vem tendo sobre temas ligados à mulher e a conquista feminina, ainda tem algumas pessoas que acham ‘desnecessária’ essa discussão”, opina a estudante Lorena Santos Gama. “Mas na maioria das vezes todo mundo concorda que a mulher merece, sim, o respeito e os direitos de trabalhar fora, receber salários iguais aos homens e tudo mais… Gera um debate legal quando surge esse tema”.

O estudante Patrick Oliveira ainda destaca que ouvir de um professor, em sala de aula, sobre o assunto contribui para a mudança de visão dos jovens. “Acho que na escola, quando certos assuntos são transmitidos através dos professores, vários alunos passam a pensar de forma diferente, e isso é ótimo, porque essa é uma ótima maneira de se diminuir o preconceito. Ao ouvir a reflexão/aula de uma pessoa mais informada e de mais experiência, como o professor, o aluno acaba sendo persuadido e também reflete de maneira diferente”.

Já a estudante Lívia Ribeiro concorda sobre a importância da discussão do tema, mas destaca que os próprios professores, às vezes, tem atitudes machistas. “Muitas vezes os professores acabam fazendo comentários machistas por piada, ou até mesmo por não perceberem”, afirma.

Ela ainda argumenta que o tema deveria ser mais abordado. “No colégio recentemente trabalhamos com um tema de redação sobre a persistência da violência contra a mulher, mas não passou da redação, e só é abordado este tema em aulas de sociologia, atualidades e redação”, conta. “Eu acho muito importante discutir isso nas salas de aula, para conscientizar os alunos e ajudar a reduzir esse tipo de violência. Abordar sobre o feminismo sendo uma coisa boa, mostrar de fato como o feminismo é, para todos se policiarem para acabar com o machismo”, conclui a estudante.

 

‘PRECISAMOS INTERVIR NOS MENINOS’

A advogada e militante Cândida Magalhães destaca que, além da sala de aula, ações de movimentos sociais e feministas, assim como a luta e cobrança do poder público por ações em prol das lutas da mulher são essenciais para caminharmos para a transformação. “São intervenções que precisamos fazer, é o meu respeito, então ele precisa ser devolvido à mulher. E toda questão cultural está inserida em brincadeiras machistas, e acabam banalizando a lei [Maria da Penha]. Embora seja a lei mais conhecida do país, ela não é conhecida na sua íntegra, ela não é interiorizada também. Precisamos fortalecer as medidas protetivas e as formas de violência também”, argumenta.

Ela ainda destaca a importância de trabalhar o tema, também, com os homens. “Esse abuso [contra a mulher] não pode ser permitido, ele também é cultural, e os movimentos sociais, o movimento feminista têm ganhado força tão grande através das redes sociais, das articulações, que têm despertado muito o ‘não é não’, o ‘psiu é uma violação’, então a forma de se educar tem mudado o pensamento de meninas e mulheres, mas ainda assim precisamos intervir nos meninos, precisamos educar os nossos meninos a respeitar as mulheres e não forçar nossas mulheres a não usar roupa curta porque vai despertar o interesse deles. A questão de roupa curta ou longa é uma questão de liberdade de expressão de cada uma, de liberdade do querer se vestir como bem entender, então cabe ao outro respeitar, precisamos ensinar os meninos e homens”, conclui a militante.

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