A CAMPANHA MAIS BONITA QUE A CIDADE JÁ VIU.

Redação Diário | Diário Botucatu

“Acorda Botucatu (SP)!” foi o lema pregado em todos os postes das ruas e avenidas da cidade no segundo semestre de 1.994. A campanhade Milton Flávio para deputado foi feita à moda antiga, com um candidato pedindo licença pra se apresentar onde ninguém o conhecia.

Sem uma multidão de cabos eleitorais. Nove meses dentro de um carro ou à pé, gastando o gogó, suando a camisa, tendo que aliviar o hálito com um “drops” de vez em quando. E pedir uma tarde pra descansar com a família uma vez a cada 20 dias.

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Disciplinado. Chato de tão organizado que era aquele médico do HC da Unesp, que virou Secretário de Saúde da prefeitura e criou um negócio inovador, chamado Passe Saúde, que pagava a passagem para quem tinha que se deslocar de casa para uma consulta médica.

Era o seu cartão de visita como candidato.

Ele queria que o passe saúde virasse lei estadual, para que beneficiasse todos os paulistas, depois de ter sido implantado com sucesso em Botucatu durante sua gestão como secretário, que durou menos de 1 ano e meio.

Começou em janeiro de 1.993 – no início do segundo mandato do prefeito Jamil Cury – e terminou em abril de 1.994, quando ele jogou tudo pro alto e resolve aceitar o desafio de ser candidato a deputado estadual.

Dinheiro não tinha. Só para o que era fundamental. Gasolina, almoço barato e hotel bem fraquinho. E ele não era dos candidatos mais fáceis de carregar. Um homem de espinha reta, convicções muito claras sobre o que pode e o que não deve ser dito para conquistar um voto.

Fez uma campanha com mensagem política, desafiadora para um candidato e para uma cidade, que apesar de ser uma das mais desenvolvidas do interior paulista – e com em torno de 100.000 habitantes -não sabia o que era ter representante na Assembléia Legislativa de SP havia três décadas 30 anos.

E até cidades menores da mesma região, como Avaré (60.000 hab) e São Manuel (35.000), tinham um deputado para chamar de seu e tiravam sarro na cara dos eleitores de Botucatu durante aquelas festas de aniversário de cidade pequena que todo mundo vai, porque tem show de graça na praça.

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MILTON FLÁVIO E JULIO SEMEGHINI: SOBREVIVENTES, DEPOIS DA TERCEIRA GERAÇÃO DE TUCANOS.

No Governo Covas, a grande tarefa: encontrar um jeito de aprovar as vontades de um governo que feriu interesses de alguns setores, sofreu desgastes naturais, mas conseguiu reorganizar o estado de SP, depois da farra de
fim de festa dos mandatos de Quércia (1.987-1.990) e Fleury (1.991-1.994), que deixaram o estado quebrado organizacionalmente.

Julio Semeghini, de Fernandopolis (SP) é outro político do interior paulista que entrou no PSDB logo depois da fundação – e continua sendo um quadro respeitado dentro do partido. Foi deputado federal e hoje também faz parte da cúpula do Governo de João Dória Júnior.

MAS DEU CERTO. OBRA DO DESTINO, TALVEZ?

Ou apenas das circunstâncias naturais daquele momento político, carregado pela onda tucana que tomou conta do estado de São Paulo e que tinha na região de Botucatu um de seus redutos mais fortes, liderado pelo ex-prefeito Antonio Jamil Cury.

Quem vai saber?

Qual é a moral certa da história dessa trajetória que foi um dos capítulos mais bonitos e de forte sentido de cidadania e compromisso, que uniu tantos botucatuenses em busca de algo que parecia impossível. Ainda mais com Milton Flávio como candidato.

Pensa num candidato que nunca obedece a coordenação da campanha e só aceitava incluir no discurso e nos materiais de campanha, coisas nas quais ele verdadeiramente acreditava. “Você tem que prometer, candidato.
Senão o povo não vota em você, diziam os “assessores”. E ele simplesmente dizia: “Não!”.

Naquela época até parecia piada carregar nas costas um candidato assim.

Era esse “Alemão”, que até hoje ainda abre o consultório de médico urologista alguns sábados para atender aos pacientes-clientes que deixou em Botucatu. E que um dia foram seus primeiros eleitores. Os primeiros a abraçar a ideia de que Botucatu poderia eleger um deputado. E a carta. Foi ele mesmo que escreveu. De próprio punho.
Funcionou.

Comprovou inclusive uma tese muito discutida hoje no país: o barateamento do financiamento de campanha.
Milton Flávio mostrou em 1.994 que era possível fazer campanha política vitoriosa com pouco dinheiro. O importante era ter o apoio de pessoas engajadas no projeto, defendendo uma ideia.

Também provou que na política, muitas vezes basta ter um bom candidato, que não tenha dinheiro para colocar na campanha sem ter que sacrificar o sustento da família para que uma campanha também tenha um orçamento com a mesma.

Porque os que tem muito dinheiro, sempre tem onde ir buscar mais.

Tenha um bom dia.

Independente se você é ou não é mais um dos que um dia votou nesse tal de Milton Flávio e se arrependeu depois. Independente se você nem faz ideia de quem é esse cara e a história dele não significa nada pra você.

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