10 PERGUNTAS PARA O PREFEITO DE BOTUCATU (SP)

Redação Diário | Diário Botucatu

1 – Pedro Manhães – Pardini, você é prefeito de Botucatu há nove meses. Qual foi a maior lição que aprendeu com essa experiência nesse período, sobre o que é ser prefeito?!

 Mário Pardini – A maior lição é…: é respeitar muito a população. Aprender a escutar mais, aprender mais ainda o valor de administrar adequadamente os recursos públicos, especialmente num momento de escassez econômica, recessão econômica, crise política. E a responsabilidade. Aprendi mais ainda sobre a responsabilidade de governar uma cidade com a expectativa que as pessoas têm em relação a essa administração, a minha administração.
Então, eu acho que foram aprendizados importantes e suficientes para que a gente possa encaminhar o governo com bastante tranquilidade, com bastante responsabilidade com relação a aplicação do recurso público e, especialmente, com bastante responsabilidade no compromisso de servir a população. O compromisso de servir melhor.
Eu estava conversando com um empresário sobre isso outro dia. Que as pessoas esperam mais hoje um gerente de um município, um executivo, que administra a cidade, a prefeitura, como se fosse uma empresa, do que os políticos tradicionais. Acho que é uma expectativa muito forte nesse momento político do nosso país, que o país vive.

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Em outubro de 2016,na Praça da Catedral, a festa de comemoração de uma vitória apoiada pela classe política e pela sociedade:
• 39 mil votos nas urnas. • 58% dos votos válidos. Depois da eleição, o mundo mudou. • A política se esfarelou. • O gestor sobrevive?!

2 – Pedro Manhães – Verdade. Você é um prefeito de primeira viagem no meio desse tiroteio político em que se transformou o país. Como é virar político num cenário como esse. Onde ser político é ter a desconfiança da sociedade como premissa?!

Mário Pardini – Primeiro, eu acho que – de verdade – é um momento que facilita pra mim a implementação das medidas que eu adotei. Eu acho que se eu adotasse essas medidas anos atrás ou décadas atrás, seriam medidas, talvez, muito mal compreendidas pela população. Esse é um momento que exige a adoção de medidas como as que a gente adotou.

Por exemplo: revisão de contratos terceirizados, primarizar algumas atividades, executar algumas obras que nunca a administração pensou em fazer, administrar com mão de obra própria, para que a gente pudesse economizar recursos públicos para reinvestir em outras frentes de obras, rever os contratos de aluguel que o município tinha, buscar ser mais eficiente na aplicação dos recursos, né, rever alguns convênios. Isso tudo, no momento anterior, da política mais tradicional, do ‘fazer favor’, seria talvez muito duro. Eu acho que esse foi um momento que facilitou a aplicação dessas medidas.

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Colocando sua assinatura na liberação de recursos para o novo viaduto: a obra disputada

3 – Pedro Manhães – E como é que faz pra separar isso? Existe um vício, um vício impregnado na política brasileira, que é o essa coisa da troca de favor, do toma lá, dá cá. Como é que um prefeito se comporta nesse momento ao receber esse tipo de assédio, que parece ser comum nesse mercado que envolve o dinheiro público?

Mário Pardini – É difícil. Muito. Aí é difícil. A gente iniciou o governo e uma das primeiras medidas foi propor uma redução importante nos quadros comissionados e de secretarias. Isso implica em redução de participação de partidos políticos, redução de participação de políticos até tradicionais. Isso sim, foi bastante difícil. Até hoje eu tenho que administrar essas questões. Houve um prejuízo e teve uma perda política? Sim. Mas eu acho que um grande apoio da sociedade. E é esse apoio que fez que eu continuasse adotando medidas como as que a gente vem adotando. E com o apoio da sociedade.

4 – Pedro Manhães – Prefeito, tem sempre um “porém”, neste momento do país, em tudo o que envolve em recurso público. Está todo mundo assustado com a operação que se montou nesse país no que diz respeito ao uso do dinheiro público. E a cidade de Botucatu recebeu inúmeras verbas públicas de parlamentares que podem estar sendo investigados pela Polícia Federal e pelo Ministério Público nos últimos anos. Muitas dessas verbas podem ter sido integralizadas (nos cofres municipais) já durante o seu governo. Como é que um prefeito de primeira viagem se protege de situações como essa, que podem acabar colocando a cidade no meio de um conjunto de repasse de recursos que podem estar: sob suspeita, pelo menos?!

Mário Pardini – Acho que são duas coisas. As emendas, elas muitas vezes são encaminhadas para o município a partir de acordos políticos. Protegem o Presidente da República, alguns grupos políticos. Mas o município não tem nada a ver com isso. O recebimento de emendas faz parte de um cardápio de receitas que não só o município de Botucatu adquire, mas outros municípios adquirem. O fato de estar recebendo emendas e continuar recebendo emendas não significa que Botucatu está na rota de qualquer escândalo. O problema é como é aplicado esses recursos, como é feito todo esse processo de licitação. E antes desse processo de licitação, como são concebidos os projetos, os editais de licitação, como que a gente estabelece os requisitos e os critérios de contratação de uma empresa, como a gente aplica o recurso público e como a gente fiscaliza a aplicação do recurso público para que ele seja utilizado em prol e em benefício da população.

O fato do recebimento de emendas não coloca Botucatu na rota de nenhum escândalo. A aplicação do recurso, a má aplicação, pode colocar.

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Pardini, com o vice André Peres, que responde a processo na Justiça por ter participado no governo João Cury (2009) do negócio envolvendo a compra de sete mil toneladas de asfalto pela Prefeitura de Botucatu, quando era apenas um funcionário de carreira
da Garagem Municipal.

5 – Pedro Manhães – Pardini: e como é que um prefeito se garante de que esse dinheiro está sendo bem aplicado, mesmo quando esse dinheiro vem com licitação pronta, como um pacote fechado para a cidade?!

Mário Pardini – A garantia é na fiscalização da aplicação dos recursos. A gente está sendo muito rigoroso na fiscalização da aplicação dos recursos. Embora a gente tenha reduzido seis secretarias – isso deu uma redução de custos em torno de R$ 1 milhão só com as seis secretarias – a gente hoje tem um serviço de controladoria e um serviço de auditoria interna eficiente, que está fiscalizando a aplicação dos recursos. Isso é a garantir que a gente tem que o recurso vai ser bem aplicado. Mais do que isso. Toda vez que a gente aplica cada centavo, seja oriundo de emendas, ou de receitas ICMS ou de FPM, cada centavo aplicado tem que gerar benefício pra população.

Se gerar benefício para a população, o objetivo da administração pública ele é concluso, o objetivo é feliz. É isso que a gente tem que garantir. A área de licitação de uma prefeitura, de uma Sabesp, ou de qualquer empresa pública, é o coração e a garantia da manutenção do CPF de um prefeito. Então essa área de licitação tem que ser muito bem gerida e hoje a gente tem profissionais que garantem o estabelecimento de critérios justos nos editais de processos licitatórios, profissionais que garantem o cumprimento da Lei 8666. Atendendo a lei 8666, que foi uma lei muito bem concebida. Embora alguns administradores falem que essa lei trava o país, eu não acho que trava. Acho que traz garantia para a aplicação do recurso público. E acho que o atendimento a essa legislação garante que o recurso vai ser bem aplicado.

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Na Câmara Municipal, num ato simples, Pardini toma posse como presidente da Junta do Serviço Militar de Botucatu

6 – Pedro Manhães – Agora mudando de assunto. Vamos para o campo político. De que forma o seu governo vê a denúncia que foi apresentada contra o ex-prefeito João Cury – seu padrinho político – e outras 10 pessoas, sobre irregularidades que teriam sido cometidas na aquisição de sete toneladas de asfalto no governo anterior?

 Mário Pardini – Eu acho… O Tribunal de Contas fez esse apontamento, me parece que foi acatado pelo Ministério Público, mas o João – e todas as pessoas citadas – vão ter garantido o direito de ampla defesa e tenho convicção de que eles vão conseguir prestar contas da aplicação desse recurso…

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Em reunião com o superintendente do HC da Unesp André Balbi: em busca de novas parcerias para a saúde pública

7 – Pedro Manhães – O que o senhor aprendeu com esse episódio? Isso deve ter pego o senhor de surpresa..

Mário Pardini – Não me pegou de surpresa porque o tribunal de contas age. E o administrador público, ele tem que responder pelas atitudes que toma, pelas decisões que adota. Eu tenho convicção – estou falando de novo – tenho convicção que o João – e todas as pessoas que foram citadas nesse processo pelo Tribunal de Contas e pelo Ministério Público – vão ter direito de ampla defesa e vão conseguir comprovar a aplicação dessas toneladas de asfalto. Eu creio piamente que esse recurso foi aplicado de maneira adequada e eles vão ter a oportunidade de responder por isso.

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No tempo em que ainda era superintendente da Sabesp (2014), já com os políticos acreditando no seu potencial eleitoral. Sem intimidade com o microfone, mas sabendo agradar as pessoas com seu jeito sóbrio e discreto.

8 – Pedro Manhães – Na sua opinião, Pardini, no que a cidade conseguiu avançar mais durante o seu governo? Nesses nove meses, quando você olha pra trás e olha pra frente o que você imagina que vai ser a grande obra do seu governo, a grande iniciativa do seu governo, que realmente pode deixar uma marca pra cidade do que foi a gestão do Pardini, daqui a quatro anos? (o mandato de Pardini termina em 2020).

Mário Pardini – A marca é a gestão, mais do que qualquer grande obra. A mudança de paradigma em relação a essas questões que a gente já discutiu. De novo: que envolvem a aplicação de recursos públicos. Eu não posso fazer favor com dinheiro que não é meu. Eu posso fazer favor com dinheiro que é meu. Daí eu posso rasgar, jogar fora, dar pra quem eu quiser. Mas recurso público não. Então eu acho que a grande marca é a gestão, o estilo de gestão. Por outro lado a gente não vai deixar a desejar, se Deus quiser a nenhum governo. Botucatu vem sendo sucedida de bons governantes. Especialmente nos últimos anos – e nos últimos oito anos que foi governada pelo João. Mas a gente não vai deixar a desejar. Nos primeiros nove meses de governo a gente já iniciou obras e obras importantes que a cidade esperava há décadas.

9 – Pedro Manhães – É fácil ser prefeito?

Mário Pardini – Não. Não… Não é… Embora seja uma posição muito honrosa – mais que honrosa – que traz um prazer. Eu confesso que tem sido um prazer governar a minha cidade, mas também é uma das posições de maior responsabilidade e de maior entrega. Eu já me entregava muito na Sabesp (Pardini era superintendente regional da empresa de água e saneamento antes de se eleger prefeito de Botucatu). Como você sabe, eram trinta e cinco municípios – e uma boa parte do estado – e que tinha que ter entrega. Porque água é um serviço continuo, como é saúde. Não fecha de sábado e domingo e não fecha a noite. Então Isso já me tatuou um pouquinho, me deixou com a pele um pouco mais grossa com relação ao serviço público. Mas o prefeito, ele é prefeito quando está com a sua filha almoçando ou jantando num restaurante. É quando você quer um pouquinho mais de privacidade. Mas você é prefeito, tem que entender isso e atender as pessoas.

Você é o prefeito quando está no campo de futebol e todo mundo sabe que eu gosto de jogar bola. Às vezes a gente é competitivo no campo e as pessoas te cobram por isso.

Você é prefeito quando está dirigindo no trânsito, você é prefeito quando está fazendo uma caminhada, é prefeito 365 dias por ano, durante quatro anos.

Então você não tem folga não tem sábado, não tem domingo. Você não pode errar. As pessoas, elas não admitem erros de um administrador público e de um prefeito: que é a maior autoridade constituída de uma cidade.

Então isso faz com que esse trabalho – porque pra mim é um trabalho – ele seja um trabalho no mínimo muito árduo, mas do mesmo jeito ele também é muito prazeroso, quando você consegue interferir num atendimento melhor na saúde, quando você consegue ampliar o horário de atendimento dos postos de saúde, pra ajudar num horário de pico nos pronto- socorros, quando você consegue aplicar recursos para contratar mais médicos num pronto socorro, quando você consegue interferir com a fiscalização de um serviço, na melhora do transporte coletivo ou tentar alterar uma condição de falta de atendimento à população em qualquer serviço público prestado.

Ou quando você consegue abrir uma vaga nova de creche ou entregar uma escola, quando você consegue galgar ou ganhar etapas num projeto tão importante como é o anel viário ou a represa do rio Pardo. Eu tenho certeza. E falo pra nossa equipe que muitos dos esforços que a gente tem feito hoje, muitos dos projetos que a gente tem estabelecido hoje, a gente vai ver de pé daqui dez, quinze ou vinte.

E são projetos que vão mudar o padrão de infraestrutura da nossa cidade e de serviço público. Isso faz com que tudo o que a gente esteja fazendo hoje, que é um trabalho bastante duro, de entrega realmente, faz com que a gente tenha prazer porque consegue enxergar os frutos desse trabalho ao longo dos anos.

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Com a filha Bruna: o desafio é ser um bom pai sendo ao mesmo tempo um bom prefeito para a cidade que o escolheu: Um prefeito também tem outros papéis na vida. Mas o peso e a visibilidade do cargo não permitem deixar de ser prefeito, mesmo naquela hora de ser apenas pai.

10 – Pedro Manhães – Qual é a maior angústia que um prefeito como você sente na hora em que deita a cabeça no travesseiro e pensa sobre a responsabilidade que está sobre as suas costas nesse momento da história?

Mário Pardini – Um dos pontos positivos de ser prefeito é que eu chego tão cansado em casa, mas tão exausto, que não dá tempo de pensar em angústia. Eu boto a cabeça no travesseiro e eu durmo. É incrível. Não consigo mais ver mais cinco minutos do meu Santos. Quero ver o jogo do Santos, eu boto a cabeça no travesseiro e começo a dormir. Então não dá tempo de ter angústia. Dá tempo de pensar em trabalhar e planejar o próximo dia. E… bola pra frente!