“Ser goleiro é fantástico”, diz botucatuense ex-atleta da seleção João Marcos

No dia do arqueiro, ele falou sobre as diferenças do futebol das décadas passadas para o atual e comemora grandes defesas contra Pelé e Zico. “Até hoje me pergunto como consegui fazer aquilo”

Sidney Trovão
João Marcos atuou por Palmeiras e Grêmio, além da seleção brasileira. Atualmente, ministra aulas de futebol na Associação Atlética Botucatuense

Ser goleiro, no futebol, pode ser visto como uma missão um tanto quanto complicada. Afinal, na maioria dos casos, ele é sempre lembrado pela falha e não pela grande defesa. Mas há quem discorde do argumento. E no dia desse profissional da bola, torna-se difícil não lembrar um grande botucatuense que fez história debaixo das traves de times como seleção brasileira, Palmeiras e Grêmio. João Marcos Coelho da Silva, hoje com 63 anos.

O ex-arqueiro atualmente ministra aulas de futebol na Associação Atlética Botucatuense (AAB) e para o projeto Gol Solidário, programa criado por ele mesmo para ensinar o esporte aos jovens. Ele atendeu o Diário na tarde de ontem (25) na sede da AAB, enquanto orientava os meninos que jogavam bola.

Sobre a profissão goleiro, a definição que João encontrou foi uma: “fantástica”. “Cada jogo é uma história. Cada partida você sabe que sempre terá surpresas. Você não consegue coordenar, vou fazer isso, vou fazer aquilo. O goleiro precisa de uma visão de campo muito boa. Tempo de bola, reflexo, tudo para ter uma produção de razoável a boa”, afirma.

Por ter uma visão ampla do campo e da movimentação dos jogadores, o ex-goleiro acredita que ele é obrigado a ajudar sua equipe dentro de campo, pois ele vê como os zagueiros estão posicionados, como o meio de campo recompõe após o ataque, ou seja, como o time se comporta taticamente. “O goleiro tem que ser o homem que mais fala”, diz.

Questionado sobre os goleiros de hoje em dia, que muitas vezes atuam até fora da área, o ex-goleiro disse que em seu tempo a atitude não era diferente. “O goleiro tem que acompanhar a sua equipe, né. Se o time está no ataque, ele joga mais a frente, prestando atenção na perda de bola, para não ter a surpresa de tomar um gol por cobertura. Mas ele não pode ficar só debaixo das traves”, conta.

Sobre os goleiros de hoje em dia, ele não os vê como melhores ou piores, mas diferentes. Segundo João, além da mudança no esquema do jogo, as bolas também foram modificadas. “Hoje ela está plastificada e ela desvia muito com o vento. Antigamente você via o goleiro seguro, agarrando a bola, que era de couro. Hoje já complica mais. O goleiro deixou de ser um espetáculo”, lamenta.

Ainda sobre os profissionais atuais, ele elenca algumas qualidades principais que devem ser analisadas: estatura, se cair bem para os dos lados e “se ele pisca na hora que chutam”. “Hoje eles priorizam a estatura, goleiros que tenham a arcada grande, que cubra mais o gol. Ele não vai ter a agilidade que um goleiro menor tenha. E se ele piscar ou virar a cara na hora que alguém chuta, pode colocar ele em outra posição, porque ele não serve”, diz.

Sidney Trovão
João afirma que até hoje se pergunta como conseguiu defender algumas bolas de Pelé e de Zico. “Eu tinha uma grande impulsão”, diz

Depois de um lance em que seu aluno, que atuava no gol, tentou driblar e acabou errando o passe, João não deu trégua. “Pô, goleirão, já é difícil jogar no gol, ainda você tentar driblar e sair jogando é complicado, hein?!”, diz.

João Marcos também considera que teve uma carreira muito feliz. Em cada clube que passou, deixou sua marca. Em Sorocaba, atuando pelo São Bento, ficou conhecido como “João do pênalti”, uma alusão a “João do pulo”, destaque do salto em distância da época. No Noroeste, de Bauru, disse ser muito respeitado. Lembra também da luta que foi deixar um time pequeno para se impor no grande Palmeiras, que o fez chegar à seleção brasileira. E no Grêmio, uma das maiores equipes em que jogou. “Ganhamos do Bayern e do Stuttgart, campeão e vice [na Alemanha]. O time jogava muito. Só perdemos a Libertadores porque jogamos na Arábia Saudita na terça e na sexta enfrentamos o Independiente depois de várias horas de avião. Chegamos um bagaço. Perdemos de 1 a 0 em Porto Alegre e na Argentina foi 0 a 0. Era para ter sido uns 3 a 0, mas a bola não entrava. Quando não é pra entrar, ela não entra”, afirma.

Apesar de não viver no passado, afirma sentir saudade dos tempos de atleta profissional. “Dormindo a gente sonha que está jogando. Faz mais de 30 anos que parei e até hoje ainda sonho. Você não esquece”, diz, frisando que não se arrepende de nada do que fez dentro de campo.

“Peguei o auge do futebol brasileiro, com Pelé, Zico, Toninho Cerezo, Falcão. Foi uma fase muito boa do nosso futebol. Quando a gente ainda comandava. Agora acabou o espetáculo do futebol brasileiro. A gente quis copiar a correria dos europeus”, diz.

Sidney Trovão
Mais de 30 anos depois de pendurar as luvas (e as chuteiras), João vestiu-as novamente

E João ainda faz uma crítica ao modo como os dirigentes tratam as categorias de base atualmente. De acordo com ele, muitos pais e empresários pagam para alguns atletas jogarem na base e o dinheiro acaba falando mais alto do que a habilidade dos jovens. “A maior parte dos jogadores de futebol vem da classe média baixa e hoje tem mais da classe alta, porque quem tem condição financeira, tem mais chance de aparecer. Gostaria de ver uma chance maior para quem tem qualidade”, pontua.

E João agradece Botucatu, sua cidade natal. “Pra mim é tudo. Nasci, tive minha infância, começo da minha juventude. Aqui tive a oportunidade de ir para o Guarani e iniciar minha carreira. Foi aqui que tive a oportunidade também de me tornar uma pessoa conhecida e poder fazer algo pelos outros. E isso me marca muito”, afirma, dizendo que luta para a juventude também conseguir algo grande, mesmo que fora do futebol.

“Ele pode ser um grande engenheiro, marceneiro. Qualquer profissão que o cara tenha dom e que seja bem feito o serviço, ele tem o reconhecimento que merece. E Deus está vendo. Ele coloca você no lugar que é seu”, salienta.

 

Dia tem que ser comemorado, afirma “goleiro de pelada”

Mário Conte, agente de saneamento de 51 anos, também é goleiro. Jogou campeonatos juvenis, varzeanos, amadores e atua até hoje em peladas e campeonatos organizados pela AAB. E para ele, o dia tem que ser comemorado, sim. “Quando você joga, joga com vontade. Não é jogar por jogar. Ninguém joga à toa. Tem o lado ruim de ser lembrado pelo frango, mas também tem o lado bom, quando você pega pênalti, faz defesas em decisão. De repente, você é o herói, ou pode ser o vilão. Tem que ter a cabeça boa para não brigar e não levar as falhas como algo que o faça pensar em parar de jogar”, afirma.

Inspirado principalmente pelo pai, Ernesto Conte, que foi campeão em diversos campeonatos da cidade, e nomes como Leão, Dito Manivela e Zé Varolli, Mário sempre gostou de jogar no gol. E segundo ele, é até difícil explicar como é gostar de atuar na posição. “Dizem que o cara tem que ser meio louco, mas não sei. Desde que eu me lembre, estou sempre jogando. Meu irmão mais velho também gostava. Então você começa a pegar gosto”, diz.

Por fim, ele afirma que se lembra de João Marcos no campo do Inca. “Lembro dele brincando em algumas partidas. Ele foi para fora. Pegava muito. Por isso foi goleiro da seleção. Não é qualquer um que consegue chegar lá”, finaliza.

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