Jovem da Fundação Casa é aprovado na Fatec. “Oportunidade de sair daqui e ficar tranquilo”, afirma

Adolescente se preparou para o vestibular dentro do centro, com ajuda de pedagogos. Prestes a completar 18 anos, ele diz que pretende seguir carreira na área de Agronegócio

Sidney Trovão
Jovem afirma que havia perdido as esperanças antes do resultado. “Demorou a sair”, lembra

Um adolescente que cumpre medida socioeducativa na Fundação Casa de Botucatu passou a escrever uma nova história para sua vida. Desde o dia 8 de março, Anderson – o nome é fictício, para preservar a identidade do menor de idade –, aprovado no vestibular, passou a frequentar as aulas no curso de Agronegócio da Fatec da cidade.

O jovem começou a se preparar dentro do próprio centro, com o auxílio de pedagogos, que levaram diversos materiais de estudo. A pedagoga Sueli Aparecida de Souza foi uma das responsáveis pelo estudo. “Eu mesma separei alguns livros de história da arte e algumas questões de vestibular. A gente também colocava alguns filmes de teor pedagógico para buscar alguma reflexão. Agora que ele está estudando, ele faz algumas atividades da faculdade”, conta.

Uma outra pedagoga deu um apoio grande na parte de redação e questões de língua portuguesa. “Era uma coisa que ele pedia bastante. Ajudou, pois ele teve uma boa nota no Enem. E logo na sequência ele e um outro adolescente foram fazer a prova na Fatec, em janeiro, e o Anderson se destacou. Ficou na 57ª colocação”, afirma Sueli.

As aulas acontecem de segunda a sexta, à noite, e nos sábados, pela manhã. Serão sete semestres, no total. Formado, Anderson será tecnólogo em Agronegócio. De acordo com o jovem, haviam duas opções de vestibular. Agronegócio e produção industrial. Optou pela primeira. “Tem a ver com fazenda, que eu gosto mais. Tive convívio com cavalos e galinhas, que eu mexia na minha vila e gostei bastante. Preferi assim”, afirma.

Anderson conta que ficou ansioso pelo resultado do vestibular. Em dado momento, chegou a “perder as esperanças”, como conta. “Achei que não ia conseguir. Mas depois que a Sueli falou que eu havia passado, eu fiquei feliz. Demorou um pouco para sair o resultado. Fiquei na lista de espera e as outras chamadas demoraram a acontecer. Eu achei que já não ia mais ser chamado”, confessa.

Quando chegou, no primeiro dia, estranhou. Achou que fosse sofrer algum tipo de preconceito da parte dos alunos. Ledo engano. Foi recebido “super bem”. Conversou com os alunos e fez algumas amizades. “Em algumas matérias que eu tenho dificuldade eles me chamam, me ajudam. Faço trabalhos em grupo. Fui chamado por um rapaz e a gente fez o trabalho juntos. Me dei bem com todos. Com os professores, o coordenador do curso. Fui chamado para conversar e explicaram tudo certinho”, diz.

O jovem também afirma que se sentiu muito bem ao entrar pela primeira vez na faculdade, afinal, pensou que nunca cursaria uma. E a família apoiou sua decisão. “Minha mãe ficou bastante feliz. Conversou comigo, perguntou o que eu achei. Meu irmão também ficou bastante feliz. Eles me apoiaram e disseram que quando eu sair vão continuar me apoiando”, conta.

Sidney Trovão
Adolescente disse que optou pelo curso por gostar de mexer com animais

Prestes a completar 18 anos – faz aniversário amanhã (terça-feira, 21) –, ele disse que pretende seguir carreira na área, já que se tornar jogador de futebol, seu grande sonho, não vai mais dar certo. “Pretendo continuar sim. Quando eu sair [da Fundação Casa] vou levar a sério. É uma oportunidade de sair daqui e ficar tranquilo. Continuar assim”, afirma.

Nas aulas, o adolescente é acompanhado por um agente socioeducativo que fica próximo à sala de aula. Depois, um outro agente faz a troca de turno e o leva de volta à Fundação no fim do curso.

Cálculo é a matéria mais difícil (e não só para Anderson, mas para muitos estudantes da área de exatas). Para auxiliar o jovem, uma calculadora científica foi comprada pela empresa que administra, juntamente com o estado, a Fundação Casa Botucatu. “O coordenador disse que seria de extrema importância. Vai auxiliá-lo em cálculo”, afirma Sueli.

Apesar de entrar com duas semanas de atraso por não ter sido chamado na primeira chamada, a Fatec lhe acolheu muito bem. “Eu estive lá e o coordenador do curso me mandou cinco exercícios por e-mail. Ele está lhe dando um apoio muito grande. O pessoal está acreditando. E ele também. Está se mostrando bastante interessado. O que está um pouco dificultoso é o cálculo. Mas ele está com essa consciência de que ele está com dificuldade, então ele já pediu ajuda. A gente tem uma agente educacional que é formada em matemática e física e ela se prontificou a ajudá-lo”, afirma a pedagoga.

E nem sempre Anderson se mostrou interessado em seguir uma carreira acadêmica. Segundo a pedagoga, quando houve a troca da equipe de pedagogos, o interesse passou a aumentar. “Quando foi aberta as inscrições para o Enem e para a Fatec, eu e o Jovelino [diretor da Fundação Casa] fomos conversar com os adolescentes. E o Jovelino perguntou ‘você quer mesmo? Tem certeza? É uma responsabilidade’. Isso só para fazer a inscrição. A semente foi plantada neste ato”, salienta.

Sidney Trovão
Sueli Aparecida de Souza auxiliou o adolescente nos estudos e foi quem lhe deu a notícia da aprovação

A partir desse momento, os educadores foram passando provas antigas dos vestibulares aos internos. Anderson e mais um garoto passaram a estudar com frequência. “O outro rapaz também estava interessado, mas ele tinha mais dificuldade. O Anderson tem uma facilidade maior”, diz.

E segundo a pedagoga, o “brilho nos olhos” do rapaz apareceu depois do resultado da prova do Enem. “Eles ficaram surpresos. Pensaram ‘nossa, nós podemos’”, lembra.

Outro motivador foi um vídeo passado aos adolescentes internados. Um egresso recebeu uma bolsa na faculdade e ele gravou um vídeo agradecendo a todos e motivando os outros jovens. “Esse adolescente está estudando ainda, numa faculdade privada que lhe deu uma bolsa. No vídeo ele dizia ‘vamos estudar, esse é o caminho’. Foi uma coisa boa”, frisa.

De acordo com o diretor Jovelino Carriel, trazer pessoas de fora que passaram pela Fundação auxilia os jovens a focarem no futuro.

E o exemplo de Anderson parece espelhar outros garotos também. Um outro jovem, que está no terceiro ano, pediu auxílio para estudar, pois disse que queria prestar o vestibular como treineiro no meio do ano. “E no final do ano ele já tem uma experiência na prova pra ele se destacar com uma nota maior”, conta.

Cinthia Souza
Presença de jovens que passaram pela Fundação Casa e deram a volta por cima anima os internos

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