Escritor resgata tradição das rezas de cachaça em livro

Francisco Villela é o primeiro autor a falar sobre o hábito de ‘fazer declarações’ a entidades antes de ingerir aguardentes

Sidney Trovão

“Dizem que a pinga mata pouco a pouco, lentamente. Por isso, não largo dela, pra não morrer de repente!”. A “Reza filosófica” é uma das 40 rezas que compõem o livro “Ave, cachaça! Nascimento, vida, reza & glória”, cujo autor, Francisco Villela, promove hoje (9) uma noite de autógrafos.

O local escolhido para a “presença” – como gosta de chamar Villela o encontro – acontece em um bar da cidade. Nada mais emblemático para um evento sobre uma obra que reúne uma coleção de rezas, além de informações sobre a cachaça, a libação e o que é a própria reza da cachaça, hábito hoje raramente visto.

Durante uma reza, explica Villela, o que acontece é primeiro a libação – o jogar de um pouco de cachaça, antes de beber, para alguma entidade na terra – e, enquanto isso, a pessoa deve falar umas palavras a ela, sobre a bebida, que é o momento da reza.

“Essa tradição está extinta praticamente no Brasil. Na introdução eu digo que o Homero já registra a libação na ‘Ilíada’, é uma tradição milenar”, afirma o autor. “O curioso é que ninguém mais sabe sobre isso, é o único livro no Brasil de rezas”.

E, para Villela, esse resgate da cultura popular que está se perdendo é fundamental. “Nós temos uma tradição riquíssima no Brasil de tudo, e tudo está se perdendo. Medicina popular, por exemplo, você vai na farmácia comprar remédio hoje; doçaria não tem mais também, você vai no supermercado comprar, não se faz mais doce. A dança popular, a música popular, a poesia popular vai se perdendo, então é preciso que as pessoas resgatem isso, voltem esse filme”, argumenta o escritor. “Eu acho fundamental que mais pessoas, cada vez mais, se dediquem ao resgate dessas coisas, que são a nossa raiz”, completa.

 

ESCRITOR JUNTA REZAS HÁ 40 ANOS

Ainda na época de estudante em Minas Gerais, Francisco Villela foi reunindo as rezas que ouvia quando encontrava alguém fazendo a tradição. “Eu é que pesquei essas rezas, fui guardando em papel de pano, maços de cigarro, e fui colecionando, aprendendo”, conta o autor. A coleção contêm rezas ouvidas em cidades de roça dos estados de Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e também da urbana Brasília.

Editor com mais de dez livros publicados, Francisco Villela conta que foi natural reunir as rezas em um livro. “Chegou um momento em que eu falei ‘por que não pegar essas rezas e fazer um livro?’, eu estava com uma fortuna na mão, não de dinheiro, mas de raridade”.

No livro, cada reza – que foi batizada pelo próprio autor, pois nenhuma delas tem nome originalmente – vem acompanhada de trechos de textos de eruditos, viajantes estrangeiros, sociólogos, antropólogos, botânicos e folcloristas, como Alceu Maynard Araújo, que viveu em Botucatu.

O livro pode ser encontrado à venda hoje e também com o autor, por meio do e-mail chicovillela@gmail.com, mas ainda não há edição comercial da obra. Sobre essa possibilidade, Villela afirma que está em busca de empresários.

 

NOITE DE AUTÓGRAFOS COM CHICO VILLELA
Data: Quinta-feira, 9 de março
Horário: 20h
Local: Empório Stammtisch – Av. Santana, 561, Centro
Entrada franca