O que acontece com a bolsa de sangue que você doa?

Diário visitou o setor de processamento de bolsas para mostrar como sua doação vai para quem precisa

Você doou seu sangue e viu os enfermeiros do Hemocentro pegarem a sua bolsinha e colocar uma caixa em cima do balcão. Aí surge a dúvida: o que acontece depois disso? O sangue vai direto para quem está internado? A resposta é NÃO! O processamento é super delicado e demora dois dias. As exigências de higiene são altíssima e cada procedimento segue regras extremamente rígidas impostas por órgãos de saúde.

Mas como estamos na semana do Doador de Sangue, o Diário foi até o Hemocentro para conhecer os bastidores deste trabalho e mostrar o que acontece com o sangue que você doa. O local tem acesso restrito e para entrar, tanto eu como o fotografo Sidney Trovão, tivemos que vestir jalecos e toucas esterilizados e não tocar em nada. Também fomos acompanhados do diretor do Hemocentro, Silvio Naves, e da biomédica, Gislene de Oliveira, que explicaram cada um dos procedimentos.

Para começar a entender o processamento do sangue é preciso entender os padrões exigidos pelo Ministério da Saúde e Vigilância Sanitária em Saúde. Antes que um sangue esteja apto para transfusão, ele passa por máquinas e testes que dão detalhes de todos os componentes existentes e mostram se naquela bolsa, o sangue segue uma série de requisitos. São feitos exames para averiguar se sangue não está contaminado com os vírus da sífilis, chagas, hepatite B e C, além do HIV. Os testes são demorados e caso alguns dos itens não esteja de acordo com os padrões estabelecidos, o sangue precisa ser descartado.

Descanso é a primeira etapa para o processamento de sangueSidney Trovão
Descanso é a primeira etapa para o processamento de sangue

A primeira etapa para todo esse processamento é o descanso da bolsa. Quando o doador ainda está na fase de coleta, o seu sangue já é misturado dentro da bolsa com anticoagulante para não estragar. Por isso ele precisa ficar em repouso de uma a duas horas e ser manuseado com muito cuidado pela equipe do Hemocentro. “Costumamos dizer que a bolsa é como um recém nascido que precisa de delicadeza e cuidado em seu manuseio. Qualquer movimento brusco pode estragar essa primeira etapa do processo”, explica Silvio.

Bolsas são colocadas nesta centrífugaSidney Trovão
Bolsas são colocadas nesta centrífuga

Depois do descanso vem a etapa da separação dos hemocomponentes. As bolsas são colocadas em caçapas e levadas a uma grande centrifuga. Ali a temperatura é controlada de acordo com a quantidade de hemocomponentes que serão retirados de cada bolsa, sendo que é possível dividir o sangue em 4 componentes. “Em média, de uma bolsa de 400 ml, conseguimos 250 ml de hemácias, 150 de plasma e de 40 a 60 de plaquetas, fora o crio. Depois que o sangue é centrifugado, esses componentes ficam todos separados e conseguimos desmembrar em bolsas diferentes”, conta Gislene.

Terminado esse processo, cada um dos componentes vai passar por um tratamento singular antes de ser armazenado. “Ainda fazemos uma série de testes, usamos outros equipamentos para verificar a segurança do sangue. Tudo para assegurar que não haverá contaminação”, completa a biomédica.

Gislene mostra bolsas de plasma congeladasSidney Trovão
Gislene mostra bolsas de plasma congeladas

As bolsas de hemácias e de plaquetas ficam armazenada em geladeiras com temperaturas controladas até serem liberadas para uso. Mas existe uma particularidade entre elas. As hemácias ficam em gavetas fixas, enquanto as plaquetas precisam estar sempre em movimento para não “estragarem”. Já o plasma é congelado e só é descongelado em banho maria pouco antes do uso. O CRIO também fica em geladeiras com temperaturas congeladas.

O que mais chama a atenção no processamento do sangue é a rigorosidade em manter os padrões. A Organização Mundial da Saúde, assim como o Ministério da Saúde, exigem que os ambientes, geladeiras e freezeres tenham temperatura rigorosamente controladas. “Temos sensores que monitoram essas temperaturas e caso algo esteja errado um alarme soa. Fazemos isso para garantir a qualidade do procedimento. Outra exigência é que todo o procedimento seja feito por dois profissionais. Um tem que checar o trabalho do outro, assim o risco de cometer erros é muito pequeno”, explica Gislene.

Outra curiosidade é sobre o prazo de validade das bolsas. As hemácias e o plasma podem ficar armazenados por até 30 dias, e a plaqueta deve ser usada em 5 dias. “A rotatividade do estoque é muito grande e por isso precisamos tanto de uma constância nas doações. Hoje estamos trabalhando com estoques em níveis críticos, e isso significa que se não controlarmos a saída de bolsas, em 3 dias acaba todo nosso estoque”, salienta Silvio.