Diretora da Apae comenta dificuldades de alunos com Síndrome de Down em inserção no mercado de trabalho

Das 308 pessoas atendidas na Apae, 38 possuem a síndrome, mas nenhuma possui emprego. Receio da família contribui para o número negativo

O dia internacional da Síndrome de Down é comemorado hoje (21). E embora muitos avanços já tenham sido conquistados pelas pessoas que possuem esta condição, ainda há muitos avanços a serem alcançados, como por exemplo, o acesso ao mercado de trabalho. A diretora da Apae (Associação de Pais e Amigos dos Especiais) de Botucatu, Tania Spadin fala sobre alguns dos aspectos que fazem com que esta inserção seja baixa na cidade.

A Apae conta hoje com 38 pessoas com Síndrome de Down, que estão distribuídas em diferentes faixas etárias, dos 6 aos 63 anos. Dentre elas, algumas pessoas que já possuem idade e aptidão necessárias, podem fazer estágios não remunerados dentro da própria instituição, justamente como forma de treinamento para o mercado de trabalho.

Sidney Trovão
Tania Spadin e Maria Centrone Santini comentam que das 308 pessoas atendidas pela Apae, 38 possuem Síndrome de Down

Mesmo com essa iniciativa, a diretora geral da Apae, Tania Spadin comenta que o mercado ainda não está preparado para receber as pessoas que possuem Síndrome de Down ou alguma outra deficiência intelectual, já que as limitações variam de uma pessoa para outra. “Se a pessoa trabalhar e tiver deficiência intelectual, ela não vai saber, por exemplo, ver quando começa ou acaba seu horário de almoço, porque ela não sabe ver hora. Se não tiver uma pessoa acompanhando e explicando, ou talvez alguém que coloque um relógio com adaptação, vai ser difícil. O mercado de trabalho não está preparado para receber essas pessoas”.

Outro fator que contribui para que menos pessoas com Síndrome de Down estejam inseridas no mercado de trabalho é o recebimento do benefício BPC (Benefício de Prestação Continuada). “O BPC é como se fosse uma aposentadoria ou um salário das pessoas que possuem alguma deficiência, mas se elas começam a trabalhar este benefício é cessado. Então muitas pessoas acabam não concorrendo às vagas de emprego por medo de perderem o BPC. Porque o benefício é uma coisa certa, e o trabalho é algo duvidoso porque é possível não se adaptar”, elucida a diretora.

“O que falta no mercado é preparação, ele precisa entender que se trata de pessoas com limitações das mais variadas possíveis. Porque no espectro da Síndrome de Down, de 100 pessoas, nenhuma terá as mesmas características, e é em cima disso que nós precisamos intervir para fazer a adaptação”, completa.

Em nível local, Tania Spadin comenta que a dificuldade de inserção tem sido grande. “As empresas de Botucatu estão bem restritas a essa aceitação de pessoas com deficiência. Até porque os pré-requisitos são tão específicos, que nem eu conseguiria me inscrever. A vaga é para deficiente, só que ele tem que saber atender o telefone com independência, usar o computador com independência e, se bobear, tem que saber até interpretar planilhas”, lamenta.

 

Coordenadora do Programa de Assistência Socioeducacional da Apae salienta importância dos estímulos precoces

“A pessoa com Síndrome de Down tem algumas características físicas diferentes, ela tem o olho puxado, o rosto mais redondo, o nariz achatado, os dedos dos pés são mais separados, a língua é maior e tem facilidade para contrair algumas doenças. As vezes também tem alguma dificuldade motora, mas o que vale é a estimulação precoce. Ela não tem dificuldade na parte de desenvolvimento cerebral, o que elas pode ter é de uma pequena a uma maior dificuldade de aprendizagem, mas o cérebro só aprende através dos estímulos. Então se ela for estimulada na parte motora, emocional, de interação social, de fala e de audição, ela vai ter um desenvolvimento muito próximo ao normal”, esclarece a coordenadora do Programa de Assistência Socioeducacional da Apae, Maria Centrone Santini.

“Se nós formos fazer um retrato da Síndrome de Down considerando um universo micro, como Botucatu, nós veremos que as crianças que possuem a síndrome e pertence a um nível socieconomico melhor, têm muito mais estímulos. Então elas vão ter, em sua maioria, condições de uma inserção social maior, mas no mercado de trabalho não, porque muitas vezes os pais não querem ver o filho exposto a uma situação vulnerável”, complementa a coordenadora.

 

Uma chef especial

Sidney Trovão
Camila Cardoso faz estágio na cozinha da Apae e almeja trabalhar na área alimentícia; “É o meu sonho”

Camila Cardoso tem 29 anos e é aluna da Apae no período da tarde, mas de manhã sua ocupação é diferente: ela trabalha como estagiária na cozinha da própria instituição. Além de ser uma preparação para uma futura colocação no mercado de trabalho, ela comenta que atuar neste ramo é o seu sonho.

“Eu estou trabalhando na cozinha, eu corto o pão e passo manteiga ou patê. Eu gosto muito dessa área e quero trabalhar nisso, é o meu sonho. E eu também quero ajudar a minha tia, porque eu sou órfã e ela é muito legal comigo”.