UM PROFESSOR FOI MORTO… E UMA REGIÃO FICOU FERIDA.

NÃO É JUSTO NOS ARRANCAR DESSA FORMA UM BOM EDUCADOR.
DO TIPO QUE VALE A PENA LEMBRAR

Arquivo pessoal
Adevaldo Colonize: um professor com a mente inquieta, sempre tentando descobrir novas formas de fazer com que o ambiente da sala de aula pudesse refletir a vibração que ele próprio tinha com cada nova etapa alcançada por seus alunos. Ontem (segunda-feira, 6) foi o primeiro dia de aula sem a presença dele nas nove unidades da rede Colégio ADV. Um dia difícil…

É um desabafo.

Na mesma semana em que os números alarmantes da violência no Brasil foram mostrados em horário nobre, aconteceu, no meio da nossa comunidade, um caso daqueles que não é notícia toda hora por aqui, nessa cidade chamada Botucatu (SP), um lugar onde cabem todos os que escolheram os bons ares daqui pra respirar suavemente na vida.

Mataram um professor. O nome dele era Adevaldo. Um educador-empreendedor. Um tipo raro do qual faz parte um seleto grupo de homens e mulheres que mostram seu talento em uma sala de aula e descobrem que ter “uma” faz muito mais sentido, permite que se aplique teorias e práticas que já foram experimentadas com sucesso, por isso o reconhecimento é carimbo de nascença.

Assim foi a história de Adevaldo Colonize.

Um professor que virou dono de escola porque seus alunos – que conseguiam aprender nas deliciosas aulas que ele dava – pediram que montasse um cursinho pré-vestibular. E garantiram que esparramariam a notícia entre seus amigos que também eram aspirantes a uma vaga nas boas universidades que existem por aí.

É como se um conjunto de leitores pedisse para um jornalista montar um jornal, afirmando que seriam assinantes desde a primeira edição. Ou mesmo, admiradores do trabalho de um educador físico, estimulando para que montasse uma academia e garantindo que seriam seus primeiros clientes.

É um “negócio” que nasceu porque os clientes exigiram, pediram, estimularam. Não foi uma ideia ou um desejo pessoal. Foi uma vontade coletiva. Talvez por isso, o significado do que aconteceu com este professor “diferente” tenha causado comoção em tanta gente.

Nunca tratei de “negócios” com ele, apesar da empresa dele (o Colégio ADV) ser cliente do velho “big” e do nosso atual pocket jornal. Não sei porque, mas nunca fomos próximos. Acho que até por isso os negócios entre nossas empresas andaram melhor. Talvez até um não desse muita bola para o outro, nos pequenos encontros ocasionais que tivemos na vida.

Eu gostava do estilo dele. Sempre atento, ligado, motivado, apaixonado pela escola que criou. As vezes com cara de “louco” e “alucinado”, de tanto que falava com entusiasmo sobre o jeito que criou para a arte de ensinar outras pessoas.

Talvez fôssemos muito parecidos, às vezes dá choque, a gente não entende. É duro encarar em outras pessoas os defeitos que mais irritam a nós mesmos.

Uau!

E nessa conclusão não precisei nem da ajuda do psicólogo de plantão. Vale o humor até no que causa revolta, pra gente respirar melhor depois de algumas notícias que invadem as nossas vidas de repente.

Mas vamos falar do professor que morreu. Do empreendedor que saiu de uma cidade pequena com seu negócio rumo às cidades grandes da sua região. Foi assassinado não apenas um professor, mas também um empreendedor vitorioso, com todos os percalços que isso traz junto na vida de quem escolhe viver do próprio talento.

Um homem que já estava em busca de um lugar para abrir a sua décima escola.

Um show, para um negócio do setor com menos de 10 anos com marca posicionada no mercado. A nossa região perdeu, talvez, uma de suas principais referências no setor educacional privado.

Morte prematura.

Aos 51 anos de idade dava pra chegar muito longe com sua “bandeira” que sustentava em letras maiúsculas as três primeiras letras do seu nome, que tem cara de erro de grafia em cartório do interior, como um monte de gente que nasceu mais de 50 anos para trás.

Adevaldo Colozine poderia ser uma referência empreendedora em qualquer atividade, um concorrente dos nossos negócios em qualquer outro setor da economia.

Pensa assim.

Se o negócio dele fosse construção civil, foi de 1 a 9 rapidinho, teria sido um concorrente forte de algumas das boas construtoras da nossa região. E sem medo de ousar, partindo com a cara limpa para apresentar seus produtos e serviços para novos mercados, construir uma marca com alcance macrorregional: um sonho de muitos dos empreendedores que conheço e admiro.

Imagina o tamanho da estradona que o professor Adevaldo teve que pegar pra vir lá da Barra Bonita (SP), depois de passar por Jaú (SP), e fazer o caminho inverso até Botucatu, com sua rede de escolas, até chegar com seu negócio no centro de Botucatu?!

Tinha valor como empreendedor este professor de matemática que sabia – como raros – se comunicar com os alunos e fazê-los compreender a lógica dos números, que tantas oportunidades abre na vida de um jovem estudante em qualquer lugar do planeta.

Se o negócio dele fosse outro qualquer, será que já teria ampliado a rede de atendimento para pelo menos nove cidades. Teria no setor hoje o mesmo tamanho, quem sabe, do que atingiu como empresário no ramo educacional?!
Talvez sim. Talvez não. E agora não dá mais para buscar certezas.

As dúvidas é que permeiam o coração de todos os que sentiram na pele cada nova informação que surgia desde as primeiras horas da manhã daquele domingo (29 de outubro), quando Adevaldo Colonize virou o personagem mais importante desse pedaço pequeno e altivo do estado de São Paulo.

Um personagem desaparecido.

O homem do sistema ADV era ousado, apostava alto em boas ideias e aproveitava com olhar de lince as oportunidades que surgiam pelo caminho. Mas talvez não tenha enxergado os riscos de uma madrugada como tantas outras a caminho de casa.

Arquivo pessoal
Arquivo pessoal
Adevaldo (no alto), no seu quadro verde com giz amarelo, exercitanto a mente e o raciocínio lógico dos alunos. E (abaixo), sempre na linha de frente, acompanhando seus alunos nos momentos dos vestibulares, os que poderiam comprovar que valeu a pena todo o esforço dos bravos jovens em busca de uma boa faculdade

 

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  • Gilvan Oliveira

    Meus parabéns Pedro.
    Quanta emoção. Nosso mestre para sempre em minha vida e em nossos corações, ou, nos corações ousados e preocupados com a educação, o único e árduo caminho para uma sociedade que por enquanto existe apenas nos sonhos mesmo.