Pintor de Botucatu cria gansos de estimação: “Melhor cão de guarda que tem”

Vanderlei Vieira, de 60 anos, adestrou os bichanos e faz sucesso no Jardim Paraíso quando passeia com eles. “Todo mundo pára para tirar foto”

Sidney Trovão
Segundo ele, o amor é a melhor forma de adestrar um animal. “Não é batendo no animal”, diz

Cachorros, gatos e pequenas aves são os animais de estimação mais comuns encontrados nos quintais de casa. Mas e quando você decide criar, por que não, um ganso? Um não, quatro! É o caso do pintor Vanderlei Vieira, de 60 anos. O botucatuense cuida, atualmente, de quatro gansos em casa. E mais do que isso, eles são domesticados e saem para passear com o dono pelas ruas do Jardim Paraíso.

Letícia e Felipe, de 4 anos, foram os primeiros a chegar à casa de Vanderlei. Charlote, de 8 meses, e Luca, de 6, são filhos do casal, que já teve, no total, seis ninhadas – um por um, os filhotes foram sendo vendidos ou doados. As caçulas, como não poderia ser diferente, seguem os passos dos pais e respeitam e obedecem ao tutor.

“Se eu paro, eles param. Se eu ando, eles continuam andando. Eles obedecem. Eles andam direto comigo na rua, por aí. Nunca atacaram ninguém. Trabalho de segunda a sábado, mas solto eles no fim da tarde. De domingo, saio pra passear pela rua”, afirma o pintor.

Os gansos, conta Vanderlei, chegaram a sua casa meio sem querer. “Eu tinha umas 40 galinhas. Aí veio um rapaz querendo. Quis fazer um rolo comigo. Ele ofereceu um casal de gansos, falando que os vizinhos estavam reclamando do barulho. Em troca, pediu quatro galinhas e um galo. Eu falei, bicho, tem problema. Vou fazer o que com um ganso? Decidi dar uma galinha com oito pintinhos pra ele”, afirma.

Depois de um tempo, sem receber nada em troca dos animais, Vanderlei foi atrás do homem, mas não o encontrou. E, para sua surpresa, alguns dias depois, os gansos já estavam dentro de seu quintal. “Acho que ele viu que não tinha ninguém em casa e jogou os gansos por cima do muro”, diz.

Quando chegou, os gansos estavam bravos e atacando suas galinhas. “Eu arranquei a cinta e falei ‘aqui quem manda sou eu’. O macho veio me atacar, ameacei dar duas cintadas nele, ele foi embora. Depois veio a fêmea, fiz a mesma coisa e ela também foi embora. Uns dez dias depois, acostumaram comigo”, conta.

Hoje, os bichos descansam no quintal da casa da sogra, ao lado da sua, no Jardim Paraíso. Lá, foi construído um cercado e um tanque, com cerca de 250 litros. Enquanto a reportagem visitava a casa de Letícia e Felipe, do lado de fora os animais bradavam para chamar a atenção do dono. “Espera aí que eu já vou”, gritou Vanderlei. No mesmo instante, os grasnados cessaram.

E segundo o pintor, nunca houve nenhuma reclamação de barulho por parte dos vizinhos.

Sidney Trovão
“Se eu der comida na mão, eles comem”, afirma o pintor – e dono dos gansos – Vanderlei Vieira

Sua alimentação é simples: couve e milho. Mas a dieta dos bichanos não se resume a isso. “Um saco de milho de 50kg dá para uns quatro, cinco meses. Porque eles comem muito mato. Se deixa eles pela rua ou no terreno ao lado, eles comem tudo”, diz. E mais, eles também comem cobras e escorpiões, segundo o dono. “E come a ração do cachorro [da sogra]”, conta. A dálmata Nina, inclusive, respeita os inquilinos. “Ela tem medo dos gansos. Ela corre deles. Eles batem nela”, ri Vanderlei.

Uma das diferenças para um cachorro, por exemplo, é o baixo gasto com alimentação. Os gansos comem pouco por dia, cerca de duas vezes. Depois, por volta das 19h, vão dormir. “Mas também, 5h já estão acordando. Se eles escutam eu tossir dentro de casa, já sabem que eu estou acordado e começam a gritar porque querem sair. Daí eu solto um pouco antes de ir trabalhar”, afirma.

Quando saem para passear, é a maior festa na rua. Todos param para ver os incomuns bichinhos de estimação. “Os carros param para eles passarem. Ônibus para. O motorista já parou e falou pra mim: eles eu deixo passar.  O pessoal para o carro para tirar foto. As mulheres passam e querem tirar foto”, conta.

Sidney Trovão
Letícia, Felipe, Charlote e Luca obedecem ao dono e saem para passear pelas ruas da cidade

Outra vantagem de se ter gansos de estimação é que eles também servem como “cães de guarda”. “Eles não atacam ninguém. Se estiverem comigo, pode entrar lá dentro [de casa]. Comigo, pode. Sozinho, ninguém entra não. O cachorro você amansa ele, o ganso, você não amansa. Melhor cão de guarda que tem”, diz. Além disso, não é preciso levar os animais ao veterinário.

E qual a melhor forma para domar um animal tão bravo? Vanderlei conta o segredo – nem tão secreto assim. “O animal é o seguinte, todos eles são bravos. Tem a lei dele ser bravo. Mas você dando amor e carinho pro bicho, qualquer animal, não tem essa não. Se der tudo isso e comida. O único animal bravo que tem é o homem. Ainda ninguém conseguiu domesticar ele”, afirma. “Não é batendo no animal, espancando [que você educa ele]. Se você faz isso, ele vai pegar aquela rixa de você. Se ele pegou bronca sua, não tem o que fazer, ele vai para cima mesmo. Dando a atenção que ele precisa, está tudo bem”, completa.

 

“SEUS FILHOS ESTÃO AQUI EM CASA”

O carinho pelos gansos – e o reconhecimento na vizinhança – é tanto que, certa vez, uma moça ligou para Vanderlei dizendo que os filhos dele estavam na porta da casa dela. “Eu pensei ‘pô, meus filhos moram em Ipoá. A senhora nem conhece meus filhos.’ E ela falou que estavam no portão. Ela estava ao telefone, mexeu com eles [gansos], que gritaram, quatro quarteirões da minha casa. Peguei o carro, fui atrás deles e falei ‘o que vocês estão fazendo aqui?’ Aí vim com o carro e eles vieram seguindo”, relembra.

 

PRESÍDIO ADOTA TÁTICA DE GANSOS DE GUARDA

Segundo conta Vanderlei, um diretor de um presídio no interior de São Paulo contava com cerca de 200 cachorros como cães de guarda. Mas ele decidiu adotar outra tática. “Não sei se ele leu a reportagem [que já havia saído na mídia anteriormente] ou alguma coisa. Só sei que ele trocou todos os cachorros por gansos. Agora ele tem 200 deles”, afirma.

 

TENTARAM APREENDER MEU GANSO E QUASE FORAM EM CANA

Certa vez, Vanderlei foi fazer compras em um supermercado do bairro, acompanhado de seus bichinhos. Quando entrou no estabelecimento, os gansos pararam na frente e esperaram. “Aí tinha um policial que disse que ia confiscá-los. Falaram para ele que o dono dos gansos estava lá dentro. Ele ficou falando que não podia e tal. Quando eu saí, perguntaram de quem era o ganso. Falei que era meu, ele falou que ia levar. Eu falei “você tem o trabalho de confiscar, levar, matar, comer e trazer de volta pra mim aqui”, diz.

“Falei que os gansos tinham os nomes do meu cunhado e da minha sobrinha. Letícia e Felipe, que inclusive é seu chefe. Aí, quando ele [meu cunhado, que atuava na polícia] estava na ativa, eu fui atrás. E depois ele [o cunhado] falou para o policial [que tentou apreender o ganso] que se ele confiscasse os gansos, iria ser preso”, conta.

 

TANQUE TEM MECANISMO QUE ALIMENTA A HORTA

Sidney Trovão
Vanderlei troca a água do tanque onde os animais descansam diariamente

O tanque onde os animais descansam – e fazem novos filhotes – fica nos fundos da casa da sogra, ao lado da sua. De acordo com o pintor, a água é trocada diariamente. E, para evitar o desperdício, Vanderlei criou um mecanismo que faz com que a água usada caia na terra e empoce ao lado da horta que cultiva, entre outras coisas, a couve, alimento dos próprios gansos. “A comida aqui serve para gente e pro bicho também”, diz.

 

PINTOR TAMBÉM JÁ TEVE CACHORRO ADESTRADO

Ele tinha um pastor alemão chamado Capeta. Muito adestrado, o cachorro sempre obedecia a Vanderlei. O pintor conta de um dia em que o chamaram de vira lata. “Vira lata? Tirei minha carteira, minha corrente de ouro e coloquei no chão. Olhei para ele e falei pra tomar conta. Atravessei a rua e falei para os caras pegarem. Os quatro vieram, o cachorro colocou duas patas em cima e ficou olhando para eles. Quando voltei, eles falavam que não iam conseguir pegar”, relembra.

Outra vez, em um bar, um moço tentou dar carne ao animal, mas ele recusava. Questionando a atitude do “Capeta”, Vanderlei lhe deu a resposta. “Ele pega. Mas só se eu mandar. Falei pro Capeta que ele podia pegar, que era meu amigo. Aí sim ele comeu a carne”, conta.

Sidney Trovão
Vanderlei Vieira também é tutor de uma calopsita

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  • Benedito de Castro

    Excelente reportagem, gostei muito. comprei um casal de gansos a pouco tempo e, estou procurando cria-los da melhor maneira possível, mesmo sem saber.

    Me inteiro de tudo a respeito e a compra dos gansinhos, foi para substituir um cão linguicinha que morreu e, deixou minha filha desolada. A alternativa achada por ele foi a de criar gansos, para substituir o cachorrinho de estimação.

    Tenho 75 anos e, espero viver para conseguir acompanhar a vida dos gansos que adquiri, pois segundo já pesquisei, eles podem viver até 50 anos.

    Parabéns pela reportagem e, também, ao Senhor VANDERLEI pelo carinho e amor que dedica aos seus gansos.