Conheça a história do primeiro explorador espacial brasileiro

Júnior Torres de Castro é botucatuense

Por Sérgio Marques

“Nunca desista dos seus sonhos”

jtorres nuncaArquivo Pessoal

Quatro anos antes da Criação Agência Espacial Brasileira (2004), em 21 de janeiro de 2000, um botucatuense lançava seu satélite particular da Base de Kouru, na Guiana Francesa. Importante saber que este foi o único satélite, até os dias de hoje, que pertenceu a uma só pessoa; os demais pertencem a organizações, universidades ou países.

Seu idealizador, projetista e construtor é o Dr. Júnior Torres de Castro, um botucatuense apaixonado pelo Radioamadorismo, filho de Gentil de Castro, diretor dos Correios e Telégrafos da Agência de Botucatu nos anos de 1950 a 1965. Júnior formou-se Engenheiro Civil, Elétrico e Eletrônico na Universidade Mackenzie de São Paulo, além disso fez cursos em Geologia, Geofísica e phd em Física no exterior.

Satélite Dove

O sonho de construir e lançar um satélite começou há 60 anos atrás, em 1957. Nesse ano era comemorado o Ano Geofísico Internacional, e foi quando as manchas solares atingiram um número muito expressivo: mais de 200. Então, os cientistas do mundo inteiro resolveram fazer coisas novas como ocupar o Pólo Sul, descobrir terras nunca antes exploradas, pesquisas no fundo do mar e os russos lançaram um artefato espacial, o Sputinik, primeiro satélite da história. Foi aí que o Júnior Torres escutou através do radioamador o Bip do satélite. O Bip era um sinal de telemetria que indicava para os russos a temperatura interna e externa do satélite, quanto tempo duraria a bateria e outros sinais vitais do equipamento.

Junior Torres, sempre ligado em fonia, se perguntou: -”Porque bip e não voz”, e resolveu dar continuidade ao seu sonho viajando pelo mundo à procura de mais informações e conhecimento na área espacial.

satelite doveArquivo Pessoal

Durante muito tempo Júnior participou de congressos internacionais à respeito de construção de satélites e acabou fazendo diversas amizades que renderam frutos quando da confecção de seu satélite DOVE – Digital Orbiting Voice Encoder, denominado também Brasil Peace Talker – Mensageiro da Paz Brasileiro.

O protótipo do Satélite DOVE – OSCAR 17 foi construído pelo próprio Júnior, inicialmente de forma experimental, um aparelho conhecido como “little brick” ou “tijolinho” e após, com peças que suportariam as condições espaciais. Mas para chegar até esse ponto final da construção do equipamento muito caminho ainda teria que ser percorrido.

O DOVE – OSCAR 17 também transmitia seus dados internos em VHF, como variação de temperatura interna e externa, a voltagem da bateria e funcionamento de seus painéis solares, além das mensagens.

Construção do satélite DOVEArquivo Pessoal

Em 1989 foi feita uma demonstração do protótipo em uma convenção científica na Universidade de Utah/USA, na cidade de Logan, para 750 cientistas internacionais, onde o funcionamento do microsatélite foi conhecida por todos. Isso tanto entusiasmou os cientistas que iniciou-se aí o projeto dos microsats, substituindo em diversos casos os satélites da época, que chegavam a pesar algumas toneladas. Mais um ponto a favor de nosso cientista Júnior Torres de Castro, brasileiro de Botucatu.

Alguns fabricantes de equipamentos espaciais, autorizados pelos seus respectivos governos, doaram ou venderam a preço simbólico, para nosso primeiro explorador espacial, as peças necessárias para o projeto DOVE – OSCAR 17, pois entenderam o significado e importância de um equipamento que transmitisse mensagens de Paz em diversas línguas, inicialmente em voz sintetizada e posteriormente em voz humana. Foram seis mil mensagens de crianças em diversas línguas; uma criança do Vietnã falou em sua língua nativa e posteriormente outra criança traduziu para o inglês:

Português: – “Eu nasci e cresci durante a guerra, jamais o ódio, jamais a guerra, sejamos felizes”.
Vietnamita: -“Tôi sinh ra và lớn lên trong chiến trah, không bao giờ ghét, không bao giờ chiến tranh, được hạnh phúc”.
Inglês: “I was born and raised during the war, never hatred, never war, let’s be happy”.

Aproveitando a ideia do microsat e sob supervisão do botucatuense Júnior Torres de Castro, mais três micro satélites foram produzidos: dois para os Estados Unidos e um para a Argentina. A montagem do microsat brasileiro, foi realizada em duas etapas; uma nos Estados Unidos e outra na Guiana Francesa, sempre acompanhada pelo seu idealizador.

O lançamento do satélite DOVE – OSCAR 17, foi realizado gratuitamente por um foguete Ariane 4, partindo da Base Espacial de Kourou na Guiana Francesa a serviço da Agência Espacial Europeia.

1 Base Espacial de Kourou - Guiana francesaArquivo Pessoal

Depois de diversas peregrinações a outros lançadores, os franceses compreenderam o propósito da missão e aceitaram lançá-lo no dia 21 de janeiro de 2000. Na época não haviam muitos satélites circundando o planeta e um lançamento desse tipo não sairia por menos de 40 milhões de dólares. O satélite DOVE – Oscar 17, caso fosse montado por uma empresa especializada não sairia por menos de 5 milhões de dólares.

O Microsat DOVE – OSCAR 17, com seus 10 kg de peso, orbita a Terra a 800 km de altura e os primeiros sinais após seu posicionamento foram os sons das válvulas do coração, mostrando que estava “vivo”.

Júnior Torres de Castro acompanhou durante 20 anos, sempre no mês de agosto, os trabalhos na Base Espacial de Kourou de forma espontânea e gratuita, maneira que ele encontrou em agradecimento pelo lançamento do seu microsat.

Em seu laboratório particular, que é também sua base de Rádio Amador, controlou seu satélite durante os oito anos em que ele esteve ativo. Seu desligamento ocorreu pela falha total das baterias, já prevista anteriormente para durar seis anos. Mas segundo relatos de rádios amadores do mundo todo, às vezes o satélite ressuscita e volta à ativa por algum tempo. Também nesse mesmo laboratório, nosso conterrâneo foi encarregado de conversar com Cosmonautas Russos servindo de apoio quando passassem pelo Brasil, três vezes por dia no tempo de oito minutos. Auxiliou também no resgate de Astronautas Americanos, quando escutou os problemas na nave americana e retransmitiu para a base nos Estados Unidos. Numa homenagem prestada a ele em Houston, Texas, haviam 84 Astronautas presentes e ao invés do Dr. Júnior pedir os autógrafos deles, foram eles que pediram autógrafos ao Dr. Júnior. Os repórteres presentes não entenderam no momento, mas em seguida matérias em grandes jornais do mundo relataram a façanha. Também controlou por muito tempo a passagem do Hubble, acessando seus computadores de bordo, quando de sua passagem por sobre o nosso território.

Uma de suas passagens mais gratificantes, segundo narrativa do próprio Dr. Júnior Torres de Castro, foi quando em Salvador, Bahia, fez uma palestra para mais de 700 pessoas. Durante três horas falou sobre a idealização, projeto e peregrinação para construir o Microsat DOVE – OSCAR 17, que transmitiu mensagens de Paz ao mundo todo e em dezenas de idiomas. Ao final teve que dar mais de 700 autógrafos.

No dia seguinte, houve um almoço de comemoração e durante esse encontro muitas crianças se aglomeraram em torno do cientista botucudo. Dr. Júnior lhes perguntou: -”Vocês querem meu autógrafo?” ao que elas responderam:-”Não, nós viemos beijar a sua mão em agradecimento ao seu gesto a favor da Paz”.

Dr. Junior Castro foi eleito por 4 vezes presidente da AMSAT por período de 2 anos cada vez, totalizando oito anos de presidência. Em telecomunicações, AMSAT é a sigla pela qual é conhecida a Radio Amateur Satellite Corporation, constituída em 1969, com finalidades educativas, não lucrativas.

Passados 27 anos dessa façanha, sonho do dr. Júnior Torres de Castro, que transmitiu pioneiramente, mensagens de Paz por voz, pelo espaço, o Pólo Astronômico Cuesta de Botucatu e a Sociedade Amigos do Lavapés, conferem ao ilustre botucatuense o título de “Honra ao mérito botucatuense” por seu feito inédito de ter sido a única pessoa no mundo inteiro a ter um satélite particular, O DOVE – OSCAR 17 e em todas as entrevistas realizadas pelas mais diversas mídias, citado a cidade de Botucatu, seu berço natal.

Veja também: