O Verbo e a Palavra

#papocabeça

Redação Diário | Diário Botucatu

Nas primeiras aulas de português aprendemos que o verbo é uma palavra que define nossa ação, seja ela qual for. O verbo tem pessoa (eu, tu, ele, etc.) tempo (presente, passado, futuro, etc.) modo (indicativo, subjuntivo, condicional, etc.). Mas não vou entupir o paciente leitor (ou leitora) transformando este comentário em uma chata aula de gramática. Basta dizer que verbo é tudo o que fazemos, de material ou não. Assim, TRABALHAMOS com enxada, com mente, com arte, etc. FALAMOS isto ou aquilo, AMAMOS por isto ou por aquilo, etc. Mas você sabe o que é uma parábola? Conforme o dicionário, é “uma comparação desenvolvida em uma história curta, cujos elementos são eventos e fatos da vida cotidiana e na qual se ilustra uma verdade moral ou espiritual”. Acho isso comprido demais, e prefiro dizer que é uma pequena narrativa que usa alegorias para transmitir uma lição moral. Como as parábolas de Jesus, por exemplo. Porém, na geometria há outro significado de parábola, como sendo uma curva plana cujos pontos estão igualmente distantes de um ponto fixo chamado foco, ou de uma reta fixa chamada diretriz, blá-blá-blá. E deixa prá lá, senão o papo cabeça de hoje vira papo quebra-cabeça.

Bem, pouca gente sabe que PARÁBOLA vem do grego, e significa “semelhança”. É composta de “pará” (além de, ou fora de) e do verbo “ballw”que quer dizer “atirar, lançar”. E é essa palavra que deu origem à palavra portuguesa PALAVRA. Gozado, não é? Parábola trocou o B pelo V, e ficou parávola. Daí entra em cena um fenômeno chamado “metátese”, que é a troca de lugar de algumas letras. O R trocou de lugar com o L e ficou palávora. Caiu o O enxerido, e nasceu PALAVRA. E essa dita cuja rivaliza com o verbo, porque são uma coisa só. Explico: qualquer coisa que pensamos, sempre é o resultado de uma imagem, desejo, idéia, que acabamos expressando numa ação. É por isso que se diz em teologia ou filosofia religiosa, que Deus “pensou” o mundo, e o mundo foi feito. O verbo, portanto, é exteriorização da vontade divina. Não é a toa que VERBUM (latim) que significa “palavra”, é em grego LOGOS, que significa “pensamento”. E as palavras ou vocábulos de todas as línguas, não são mais que a exteriorização de conceitos que criamos em nossa mente. Antes de falar, isto é, emitir um som concatenado em sílabas, nós antes idealizamos esse som. Por isso a palavra (parábola) é a semelhança fora daquilo que concebemos dentro, e mandamos ou lançamos (vide acima) para além de nós mesmos.

Por aí se vê o poder da palavra. E ela, ou o verbo, está na raiz do pensamento que se transforma em ação boa, que é o pensamento positivo. Ou do pensamento mau, que é o pensamento destrutivo. Aquele negócio de dizer que “de boas intenções o inferno está cheio” é uma idiotice, porque as boas intenções escondem sempre o desejo de fazer o bem e construir. E o “inferno” é o oposto disso. É claro que não adianta muito pensar em fazer o bem, se isso não vier acompanhado da ação. Mas de forma alguma nossos pensamentos positivos não estão perdidos, e isso está no cerne da oração, mesmo que não seja feita com muita fé. Igualmente nossos pensamentos negativos, como rancor, ódio, ofensas, até maledicência, deboches e críticas maldosas, cuja força destrutiva produz um choque de retorno contra quem os proferiu.  Daí se pode aquilatar que a palavra é um instrumento poderosíssimo em todos os setores da vida humana. No começo ela foi apenas oral, depois virou escrita, impressa, auditiva (rádio) televisiva e digital. Mas antes de ser virtual, a palavra sempre foi telepática. Uma palavra verdadeira pode doer, mas nunca será tão nociva como uma palavra mentirosa. Pela palavra (Logos, Verbum) Deus criou o mundo. Pela palavra, Maria se torna mãe de Jesus e co-redentora da Humanidade. Pela palavra o poder teocrático se estabilizou na Europa, com suas funestas conseqüências. Pela palavra da fé doutrinal, um artefato de farinha se transforma no corpo do filho de Deus. Pela palavra, os mais hediondos pecados são perdoados. Pela palavra, Goebels confere a Hitler todo o substrato da propaganda nazista, transformando o povo alemão em vítima da palavra de um louco. Pela palavra, somos reféns. Não é a toa que antigamente a palavra era garantia de lealdade. A palavra, sempre a palavra. Por isso a sabedoria popular afirma que “em boca fechada não entra mosquito” e “o silêncio é de ouro”. Com a palavra podem-se fazer ruir todos os impérios da Terra. A palavra de Deus… “Passarão os Céus e a Terra, mas minhas palavras não passarão…” (Mateus, 24-35)

Dê uma olhada no texto, e veja como ficaria se suprimíssemos os verbos. Nenhuma frase teria sentido. Por mais que tentássemos, todo ele viraria uma verborragia sem razão de ser. Lá no fundo de cada um de nós surge a Consciência. Ela se concentra no Verbo, o Verbo se derrama em Palavra, e esta produz a Ação

 

Redação Diário | Diário Botucatu

José Sebastião Pires Mendes.

Membro da ABL e do CCB – Atividades: literatura, pesquisa
e artes – é colaborador do Diário às quintas-feiras