O MEL DAS PROFUNDEZAS

 

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Na passagem do segundo para o terceiro milênio do cristianismo, sob o memorável Papa João Paulo II, a Igreja Católica lançou o mote “Mergulharemos em águas mais profundas”

“Não ipomtra em qaul odrem as lrteas de uma plravaa etãso, a única csioa iprotmatne é que a piremria e útmlia lrteas etejasm no lgaur crteo, que vcoê pdoe anida ler sem pobrlmea”. Não, isto não é erro de digitação. Os entendidos dizem que nosso cérebro é mais esperto do que se imagina e consegue até preencher lacunas ou corrigir nossa percepção visual. Em outras palavras, nosso cérebro é capaz de ver o certo no errado. Isso poderia até explicar como é que monstruosidades são perpetradas por indivíduos sem o mínimo sentimento de piedade para com suas vítimas, invertendo os conceitos de bem e mal.   Mas seria ir longe demais, pois tal deformação tem raízes muito mais complexas. Na verdade, nossa natural inclinação ao certo e verdadeiro é algo inerente à nossa natureza, e a afirmação contrária é fruto de um multimilenar condicionamento, que quer que sejamos uma espécie de erro funesto, engano desavisado da Mãe Natureza. Ou tremenda aberração que veio manchar as lindas cores do Paraíso. Ora, ora, não foi Cristo que disse, alto e bom som: “Deixai vir a mim as criancinhas, porque delas é o Reino dos Céus”(Mateus, 19-13)? Se o Reino dos Céus é delas, como já poderiam estar nele se fossem impuras? A lógica nos aponta para algo que o filósofo suíço Jean Jacques Rousseau já dizia, no século XVIII: “O Homem nasce puro, é a sociedade que o corrompe”. Mas não vem ao caso discorrer sobre o que veio primeiro, se foi o ovo ou a galinha. Acontece que os erros humanos, conscientes ou não, acabam de um jeito ou de outro, sendo absorvidos pela lei da Evolução, que os digere e os transforma para a única razão de ser do Universo: evoluir sempre, para o bem. Este heliotropismo compulsório é a marca de nossa verdadeira realidade, pois o mal não subsiste e, embora seja constantemente reeditado nas mil dobras do tecido comportamental humano, sempre acaba sobrepujado pelo bem, que até dele se utiliza para sua eterna afirmação. Querer enxergar o contrário é remar contra a corrente. As águas não mudam seu rumo, o grande manancial as espera para sutilizá-las nas nuvens que irão compor a atmosfera revitalizante.

Na passagem do segundo para o terceiro milênio do cristianismo, sob o memorável Papa João Paulo II, a Igreja Católica lançou o mote “Mergulhemos em águas mais profundas”, inspirado na passagem evangélica de Lucas 5-1,11 em que Jesus incita a Pedro que lance suas redes ao largo do mar, nas “águas mais profundas”, já que ele tinha, com seus companheiros, passado a noite toda sem nada conseguir pescar. E diz o texto que colheram tanta quantidade de peixes, que as redes ameaçaram se romper. Ora, quando nos damos ao trabalho de ver as coisas com mais profundidade, passamos a entender as sutilezas do processo evolutivo do qual não conseguimos escapar, na paradoxal escravidão da verdadeira liberdade. Pois bem. Todos os seres vivos trabalham, e não se preocupam com o resultado. A abelha colhe seu pólen na imensa variedade das flores, independentemente se elas são desta ou daquela espécie. Basta-lhes que a elas se sintam atraídas, e ali sugam a matéria prima que seu organismo necessita para a fabricação de seu respectivo mel, essencial em sua natureza tão efêmera. Esse é o seu trabalho, imposto a elas coercitivamente pela Natureza. É irrelevante o quanto de pólen elas colham, ou de que tipo, isso é apenas uma variante aparentemente aleatória. Se pudessem sentir conscientemente como os humanos, com certeza seriam as criaturinhas mais felizes do planeta, pois estão contribuindo de modo pleno com sua parcela de trabalho, necessário para o equilíbrio da flora, ao polinizar as espécies.

Não importa a que tipo de trabalho estejamos submetidos, o essencial é que façamos bem aquilo que devemos fazer. Cedo ou tarde o fruto desse trabalho se materializará, e veremos com alegria e até surpresa, a essência que conseguimos extrair de uma mais profunda e perfeita dedicação a ele. Cada um de nós tem o seu quinhão de operosidade, a que nos impele o instinto de sobrevivência. Mas assim como a abelha, que inconscientemente fertiliza as espécies, assim também nós, quase sempre sem saber, contribuímos para a construção cada vez mais aperfeiçoada da natureza humana. Basta que façamos uso de nossa visão periférica na constatação da realidade essencial, que não é outra senão a afirmação do Bem supremo.

Arquivo Diário
José Sebastião Pires
Mendes (da Academia
Botucatuense de Letras)