CONTINUISMO

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Quando eu era garoto tinha alguns medos bobos, como por exemplo, quando ficava sabendo de algum desastre. Naqueles tempos de pouco dinheiro e movimentos, um desastre em uma cidadezinha do interior (Avaré) era um acontecimento que marcava a comunidade. E eu ficava impressionado com aquilo por várias semanas. Principalmente se tivesse morrido alguém. Por exemplo, quando uma pobre mulher, para fugir de uma boiada a caminho do matadouro, atravessou uma cerca de arame farpado e caiu, perfurando uma aorta nas farpas da cerca. Esvaindo em sangue, acabou morrendo ali mesmo, pela demora da ambulância. Então, certa vez ouvi uma canção francesa que dizia assim: “Tout passe et la vie continue..” (Tudo passa e a vida continua). Durante muito tempo, cada vez que me amedrontava, lembrava da música e me acalmava.

A vida é assim, uma sucessão de acontecimentos que se multiplicam com o tempo e nos ensina que viver é isso: ir passando, se sucedendo e se confrontando a si mesmo, como atores num palco no qual desempenhamos um papel, e nos apresentamos a uma platéia que são simplesmente “os outros”. Quase nunca nos damos conta de que cada um dos “outros” é também um ator igual a nós, que passamos a ser a sua platéia. Na realidade, as coisas vão se repetindo, porque nada fica estático. Mas embora existam muitas coisas iguais e idênticas, sempre serão únicas, porque ser idêntico não é ser único. Cada indivíduo, em qualquer nível de realidade que esteja, sempre será indivisível, ou in+divíduo, isto é, impossível de se dividir. E toda a diferença aqui está na negação “in”. As gerações se sucedem e as coisas continuam, ou se repetem, como círculos de uma espiral ascendente, que quando se completam, se elevam para começar outro círculo. E nessas repetições ou continuísmos da História, tudo se renova, porque embora exista a ilusão da monotonia, da mesmice, da rotina, nenhum dia é igual a outro. O feijão de hoje não é igual ao de ontem. Mas estamos sempre ávidos de novidades, porque é de nossa natureza avançar sempre, retroceder nunca. Mesmo sem o saber ou querer, estamos dentro de um imenso processo evolutivo. Os miseráveis que vão se perdendo no caminho, como tantos que cometem os piores crimes, dos quais têm chegado até nós horríveis exemplos, cedo ou tarde terão sua chance de sofrer e se regenerar. E as vítimas que tombaram não se perderam, porque terão cumprido seu misterioso destino de cósmica evolução.

A própria palavra rotina é derivada de “rota”, isto é, roda. As filosofias orientais dão muito valor ao fenômeno, a que chamam roda da vida, ou roda da fortuna. Fortuna aqui não significa riqueza, mas na significação latina, apenas “acontecimento”. Estamos sempre apostando neles, que almejamos o melhor possível, quer ou não jogando nas loterias. Mas porque as notícias televisivas são sempre as piores? Você acorda e liga a TV, e lá vem ao vivo e a cores, a “desgraça nossa de cada dia”. Porque só é notícia o que não presta? Porque as notícias boas e construtivas são tão escassas e tão mesquinhamente divulgadas? Porque não existem? É claro que existem, mas estamos a-cos-tu-ma-dos doentiamente ao “quanto pior melhor”. Só nos chamam a atenção as tragédias, os escândalos, as vilanias e atos aterradores de vandalismo e odienta maldade. Talvez estivesse aí a prova de que a natureza humana se converge instintivamente para o bem, e não o contrário. Quando ouvimos uma notícia boa, “descansamos” e nos sentimos realizados. Ou exultamos de alegria, por ver que o bem venceu. Porque, felizmente, tudo muda. Se nada mudasse, seria como se vivêssemos numa perpétua estagnação, o que é impossível, já que tudo está em movimento. Aquela famosa frase bíblica “Não há nada de novo debaixo do sol” significa apenas que os comportamentos humanos se igualam na aparência, mas diferem na essência. As guerras nunca serão iguais umas às outras, as descobertas cientificas e os frutos da arte e engenharia humanas nunca serão os mesmos, embora conservem iguais padrões de utilidade e objetivo. Não há como negar: o progresso faz parte de nossa rotina como um todo. Basta olhar para o passado histórico. Nem os mais imaginativos escritores futuristas puderam prever em suas obras os avanços “milagrosos” da atual tecnologia. Não paramos para pensar, vamos tocando nossa vidinha sem nos darmos conta de quanto já avançamos. Entramos na rotina e aceitamos todas as coisas boas com a maior naturalidade. Observamos isso nitidamente nas crianças de hoje. O que para nós é espetacular, para elas é elementar, como um simples aparelhinho de celular. Elas já nascem na ROTINA de um novo tempo, e é só por elas que acordamos para a realidade. Lembro-me de um filme policial chamado “Trovão Azul”, basicamente sobre um helicóptero da polícia americana que vigiava os cidadãos em sua intimidade. Hoje temos os drones, cada vez mais diminutos, os gravadores em canetas e simples bótons. E de tal forma a tecnologia avançou, que o filme 1984 de George Orwell com o famoso “big brother”, já é coisa real e até ultrapassada. Igualmente no filme “2001 Uma Odisséia no Espaço”, o terrível computador HAL praticamente já existe, se considerarmos nossa submissão quase total ao poder da informática.

O mais rudimentar exemplo de continuísmo é o próprio tempo, cuja noção nos vem da observação da Terra ao redor do sol, e não há nada de novo nela, a não ser o fato de que o desgaste planetário ou solar há de vir, dentro de muitos bilhões de anos. E o continuísmo dará lugar ao transformismo, numa eternal cosmicidade. É então que nos vem uma singela reflexão: porque nos desgastamos tanto valorizando coisas que absolutamente não merecem tal desgaste? Estamos sempre correndo atrás de sombras e quimeras, na angústia desesperada de correr contra o tempo, como se perdêssemos as melhores chances da vida, cada vez que não alcançamos objetivos imediatos. Se tudo vem com o tempo, pois “há tempo para tudo”, como diz o Eclesiastes bíblico, nossos esforços só têm sentido e valor se corresponderem realmente ao melhor que possamos fazer. Mas se não conseguirmos transpor nossos obstáculos, sempre restará uma nova oportunidade. Porque as nossas energias, que tanto nos empenhamos por manter e aumentar, são as energias do próprio Universo, que nô-las empresta enquanto delas pudermos fazer uso. E as tira, quando chegar a hora em que deveremos transcender a nós mesmos. Nossa maior conquista está na vitória sobre nossos defeitos, e na aceitação positiva de que a vida continua sempre… para melhor.

Arquivo Diário
José Sebastião Pires
Mendes

José Sebastião Pires Mendes.

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