Presente x futuro

#Falaprofessor!

Redação Diário | Diário Botucatu

Um dia desses, um amigo se aproximou de mim com cara de preocupado. Parecia estar carregando um peso muito grande, muito além de suas forças. E me perguntou: Que mundo nós vamos entregar para nossos filhos e netos? Em que mundo eles viverão no futuro? Não precisei pensar muito tempo para lhe responder. Foi simples. Não estou preocupado com isso – disse-lhe. Notei a cara de espanto e decepção que ele me fez. Acho que teve vontade de desferir um murro em meu rosto. Mas não o fez. Simplesmente me disse: Como? São seus filhos e netos. Não está preocupado com eles?

Claro que estou preocupado com meus filhos e netos. Mas também estou preocupado comigo. Estou preocupado com o meu presente e com o presente deles. O que houver no presente refletirá no futuro, independente de minha preocupação. Disse-lhe que, ao invés de ficar preocupado com o futuro deles, deverei agir de alguma maneira para que eles e eu tenhamos um bom presente. Não é construindo felicidades futuras que se vive. Vive-se construindo felicidades presentes. Pensar na construção do futuro sem pensar em construir o presente é o mesmo que construir uma bela casa sem alicerces. Por mais bonita e frondosa que seja, em pouco tempo ela desmoronará.  E a situação dos que vivem nela ficará pior do que estava quando ainda não existia a casa.

Realmente, eu estou preocupado com o presente. O futuro deixarei que as pessoas do futuro, inclusive meus filhos e netos, se preocupem com ele.  Por exemplo, estou muito preocupado com a política brasileira do presente. Sinto-me numa areia movediça. Não tenho segurança nenhuma e ainda não sei direito como farei para me sair ileso dela. Alguém que esteja numa areia movediça, sem um plano seguro de saída, pode estar preocupado com o futuro? Se nem o presente a pessoa está conseguindo resolver, como é que poderá preocupar-se com o futuro? É algo totalmente inútil. Ou você, caro leitor, não concorda? Ache uma maneira de se livrar dessa areia movediça e crie condições para se safar de outras areias movediças que, por certo, surgirão.

Por outro lado, enquanto você está criando meios de se safar das areias movediças de agora, tem que oferecer os meios para que seus filhos e netos possam fazer o mesmo. A sua função, como pai e avô, é mostrar-lhes que os meios devem ser criados por eles. Você não é eterno para se responsabilizar permanentemente pelas vidas deles. Não existe aquela história antiga segundo a qual  muito mais importante do que dar um peixe a alguém é ensiná-lo a pescar? Pois é. É o que estou dizendo. O futuro deles pertencerá a eles, não a mim. Mas se eles não souberem se virar bem com os problemas do presente, não haverá nenhum futuro para eles.

Portanto, não tenho nenhuma preocupação com o futuro de meus filhos e netos. O que eu preciso fazer é criar um mundo presente mais habitável, tanto para eles como para mim. E é aí que está minha preocupação, pois muitas de minhas estratégias se mostraram ineficientes ou insuficientes. Um dia me perguntaram o que eu tinha feito, como educador, para melhorar o mundo. Respondi que não sabia direito. Disse que a única coisa que sabia é que o mundo de hoje tem a minha presença e responsabilidade. Não sei em que proporção. Gosto de pensar que sem mim como educador o mundo seria um pouco pior. Gosto de acreditar nisso. Se não acreditasse, meu trabalho teria sido inútil. Sei que não foi. Sinto que não foi. No último dia de aula do semestre, um aluno chegou sorridente até mim e me disse: Viemos à escola para assistir à sua aula, professor. Tenho que acreditar na utilidade de meu trabalho.

 

*Bahige Fadel
é professor e colaborador do Diário.

Redação Diário | Diário Botucatu

Redação Diário | Diário Botucatu