Cemitério, história e memória

Redação Diário | Diário Botucatu
Berenice Balsalobre
Colaboradora DB

É instigante perceber que o Portal das Cruzes, cemitério localizado na região central da cidade, “apresenta” a  Avenida  Dom Lúcio para quem adentra a cidade . A Dom Lúcio é um cartão postal, que nos dá uma dimensão inspiradora da cidade: um traçado urbanístico com larga avenida e vasto  horizonte para  a paisagem urbana. É uma  avenida agradável e convidativa para qualquer morador ou visitante. Entre atrativos comerciais há espaços culturais importantes, o Museu Histórico e Pedagógico, Fórum das Artes, Pinacoteca, a igrejas de São José, a Catedral, três praças, atualmente revitalizadas. Muitos lugares de memória, que  vão  ganhando novos resignificados. E neste sentido, espaços do cotidiano, singelos ou não, ganham suas peculiaridades.

 

O Brasil, com sua diversidade cultural grandiosa é um lugar com muitos espaços de memória. Os cemitérios de encaixam nesta resignificação de “lugares do saber”. Eles são um desses locais  de patrimônio cultural que  contribuem para nossa identidade, pois neles acontecem as  práticas ritualísticas, atividades comemorativas, práticas  cotidianas e se constituem em uma série de simbolismos que faz um jogo entre memória e história. Os cemitérios sugiram no Brasil como uma necessidade da sociedade e não como vocação história, mas podem conter uma narrativa que se agrega ao patrimônio  histórico e falam da vida e desenvolvimento do seu povo.

 

O historiador Jacques Le Goff assinala que a palavra monumento já traz consigo o sentido de memória. A sepultura, nós sabemos sempre foi vista como um monumento. Vejam as pirâmides do Egito. Neste sentido, representamos os túmulos como monumentos, pois a origem dessa palavra já nos remete a re-memorização. E, como toda memória é simbólica, entendemos que o cemitério, na sua expressão arquitetônica e na sua função de “lugares de memória”, denota significados e representações, portanto precisamos criar lugares para colocar a memória, pois os cemitérios podem contar histórias e são os espaços de memórias por excelência.

 

Quem nunca andou por algum cemitério histórico, como por exemplo, o da Consolação em São Paulo, deveria fazê-lo. Por suas alamedas e ruas existe uma infinidade de obras de arte dos mais famosos escultores e figuras destacadas da história nacional. Em tempos atrás, a Prefeitura paulistana organizou uma cartilha dedicada aos turistas e pesquisadores que quisessem apreciar as obras de  arte que ali estavam  na fora dos monumentos.  Por outro lado, em algumas cidades, principalmente européias, os cemitérios são integrados aos espaços urbanos com locais para descanso e acolhimento, como uma praça, afastando o sentido de local onde “vivem” os mortos e as assombrações.

 

É certo que no Portal das Cruzes existe, como  memória  uma parte importante da história de Botucatu,  que de alguma forma deveria ser valorizada e se transformar em conhecimento. Os cemitérios também são lugares de saber e aprender com os que nos deixaram.

 

Berenice Balsalobre, advogada,geógrafa, diretora e curadora do MuMA

 

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