Parque da Cuesta e Geoconservação

Redação Diário | Diário Botucatu
 por Berenice Balsalobre
Colaboradora DB

O Sistema Aquífero Guarani ocupa uma área superior a um milhão km2. Um enorme  reservatório transnacional de águas subterrâneas ocupando grande parte das  regiões centro-sudeste-sul do Brasil, quase ¾ da área total do SAG. Abrigadas em rochas porosas e permeáveis, as águas não estão protegidas. As áreas de afloramento são particularmente vulneráveis, especialmente onde as formações geológicas areníticas Pirambóia e Botucatu são predominantes. A ação humana desordenada pode causar superexploração das reservas, poluição e contaminação. Há inúmeros pontos mapeados de erosão onde ocorre erosão acelerada de solo e impactos ambientais. Botucatu, infelizmente, contribui com alguns desses pontos.

Conciliar o aproveitamento das águas com sua geoconservação para frear as ameaças de integridade à boa qualidade das reservas, é preocupação recorrente de muitas organizações da  sociedade civil é dos governos de diversos níveis. O  governo estadual admitiu que o SAG é sua principal reserva de água subterrânea e delegou aos órgão gestores de recursos hídricos a elaboração do Plano de Desenvolvimento e Proteção Ambiental (PDPA) com a finalidade de disciplinar o processo de uso e ocupação e promover ações visando a recuperação ambiental de áreas ameaçadas.

A unidade geomorfológica da Cuesta é uma grande frente erosiva em pleno processo de desenvolvimento, controlado pelo regime de chuvas, insolação e demais fatores que determinam o clima desta parte do continente. A Cuesta é recortada por denso sistema de drenagem em franco e acelerado processo de escavação e aprofundamento, onde os transportes de sedimentos predominam sobre os de deposição sedimentar. A proteção se faz urgente.

Neste diapasão, a conservação dos atributos naturais e geológicos deveria nortear nosso olhar para o futuro, especialmente quando estamos em processo de revisão do Plano Diretor. Existe a proposta dos  Geoparques Globais da UNESCO. No Brasil temos o Geoparque do Araripe e em processo de certificação o Geoparque do Seridó, localizados no Ceará e Rio Grande do Norte respectivamente. Nesta proposta da UNESCO é requisito que exista um patrimônio geológico de valor internacional e guarde afinidades com as áreas focais de interesse, a saber,  recursos naturais, riscos geológicos,  mudanças climáticas, educação,ciência, cultura, mulheres, desenvolvimento  sustentável, conhecimento local, geoconservação.

A proteção com racionalidade é uma preocupação desta proposta. Isto significa que a população moradora destas áreas seja integrada ao projeto de Parque e não deslocadas para outras áreas. A capacitação dos habitantes contribui para o sucesso das políticas adotadas e viabiliza o parque do ponto de vista dos gastos públicos, evitando  desapropriações, por exemplo, se formos pensar na criação das unidades de conservação de forma   tradicional.A proposta da  UNESCO é apenas  referencial e não necessariamente um modelo  a ser seguido.

A criação de um Geoparque Cuesta de Botucatu além do valor de preservação e conservação do patrimônio  geológico, envolve o imaginário da Cuesta, que mantém enorme  afinidade com a cidade e seus habitantes, como patrimônio cultural e imaterial. Não sem motivo, na sala do gabinete do Prefeito Pardini, que mostrando  sensibilidade com o tema,  uma linda foto da Cuesta  a descreve como “ bela do ponto de vista paisagístico, extremamente frágil do ponto de vista ambiental, importante do ponto de vista hidrológico, contribuinte da recarga do Sistema Aquífero Guarani.”

Berenice Balsalobre, advogada,geógrafa, diretora e curadora do MuMA

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