Ordem e Progresso

Espaço Aberto

Redação Diário | Diário Botucatu

Caminhamos. Ninguém fica parado. A ordem suprema do Universo é o movimento. Se não somos ciganos ou coisa parecida, nômades que desde as origens do ser humano, partem em busca de melhores condições de vida, mesmo em nosso sedentarismo acomodado, estamos sempre caminhando. “Água parada cria bicho”, diz o ditado popular. Outro: “Velho que não anda, desanda”. E assim a sabedoria das multidões constrói toda uma filosofia de vida, baseada na necessidade que temos de mudar sempre. Um dos hábitos funestos que cultivamos sem saber é exatamente a rotina. Por isso é bom mudar de vez em quando os móveis de lugar (por causa disso é que têm esse nome) para que o ambiente em que vivemos no dia a dia nos dê, nem que seja superficialmente, a impressão de novidade. Bem, na realidade, nada se repete, tudo o que emana dessa famigerada rotina, é sempre a repetição modificada de alguma coisa. Mas quando nos deixamos cansar mentalmente sem novas motivações, temos a impressão de que não saímos do lugar, e dessa forma, retrocedemos no avanço existencial.

Férias são sempre necessárias, ainda que os lugares visitados aparentemente sejam os mesmos, ou a mesmice dos hábitos cultivados quase mecanicamente nos dê a impressão do contrário, e a desilusão da expectativa sobrevenha ao final. Estamos à mercê do tempo, e ele é implacável porque vai consumindo aos poucos nossa vitalidade.

E é então que o cinquentão acorda de repente, ao constatar que já viveu metade da vida, que, no caso da vida humana, ao menos hipoteticamente dura cem anos. Meu pai morreu com 100 anos e 6 meses. Mas já dizia assim: “O que foi que fiz de errado para ainda estar aqui?” Achava que estava cansado de viver. São raros os casos de centenários que ainda sintam o prazer de viver, porque, por uma saúde privilegiada, continuam trabalhando e produzindo. E eis aí a questão. Enquanto trabalhamos estamos nos movimentando e realizando. Mas o trabalho não se resume em atividade física. Mesmo pensando estamos trabalhando, porque se os membros não se mexem por algum motivo, o cérebro continua engendrando as idéias, que são a matriz dos resultados.

A palavra progresso é bastante interessante, porque é composta com o verbo latino “gredior”, que significa caminhar. E dependendo da preposição que lhe serve de prefixo, seu sentido muda completamente. Por isso Egresso significa saído, INgressar é entrar, REgredir é retornar, TRANSgredir é passar por cima, e PROgredir é ir além, caminhar para a frente, vencer. Nossa bandeira apresenta um lema inspirado na filosofia positivista, “ordem e progresso”. O criador dessa filosofia, Auguste Comte, sintetizou-a no seguinte lema: “Amor como princípio, ordem como base, progresso como objetivo”.  Ora, nada pode ser conseguido sem ordem, já que o próprio Universo caminha em perfeita harmonia. Mas se a ordem é a base do progresso, como resultado de atividades práticas e concretas, o Amor é o fator que impulsiona o movimento rumo ao progresso. E essa palavra, “amor”, tem mil faces, mas sempre será o instinto de equilíbrio e o sentimento de harmonia, inspirado na satisfação do bem.  Aliás, a palavra significa  “negação de morte”, porque temos o A(alfa privativo) + MORS (morte em latim).

É devido ao instinto do progresso, conferido pela Natureza, que podemos escolher ser artífices da História. Temos à nossa mão as ferramentas dos talentos e da boa vontade, para por mãos à obra da reconstrução do país e do mundo. O cantor Geraldo Vandré pertenceu à geração dos jovens que queriam mudar o país, rumo à liberdade e o progresso, na época da ditadura militar. Sua contribuição como artista se resume talvez na bela canção que diz assim, entre outras coisas: “Os amores na mente, as flores no chão/ A certeza na frente, a História na mão/ Caminhando e cantando, seguindo a canção/ Aprendendo e ensinando uma nova lição – Vem, vamos embora, que esperar não é saber, quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.  Isso foi considerado pela ditadura como incitação à uma  revolução contra o poder constituído. Mas para nós, nos dias de hoje, pode significar a necessidade urgente que temos, de despertar do marasmo do continuísmo, e caminhar em demanda do progresso evolutivo.

 

José Sebastião Pires Mendes.

Redação Diário | Diário Botucatu

Veja também: