Deflação e a taxa de juros estrutural

#espacoaberto

Redação Diário | Diário Botucatu
Paulo André de Oliveira

O Brasil deve registrar deflação após 11 anos. Deflação é redução generalizada e continua dos preços de uma economia em determinado período de tempo, ou seja, o contrário de inflação que á alta generalizada e continua dos preços e diferente de desinflação que é a redução nos aumentos de preço, isto é, os preços sobem, mas mais devagar. Neste caso, se espera deflação para o mês de junho de 2017 para o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo do IBGE) no acumulado dos últimos doze meses algo em torno de 4,0%.

As razões mais evidentes para a deflação são a queda nos preços dos alimentos com uma ótima safra agrícola, as chuvas que permitem que se utilize a energia elétrica mais barata (bandeira verde) e a redução nos preços dos combustíveis feita pela Petrobras. Pode-se fazer uma associação simples de que a inflação é ruim e a deflação é algo bom. De fato, com deflação se mantem e até mesmo se aumenta o poder de compra do dinheiro e do salário nominais. A questão é que esta deflação também está associada com a queda da atividade econômica e o desemprego que retrai o consumo e na sequencia o investimento. Como a ferramenta para conter  a inflação é a alta dos juros para se desestimular o consumo,  pode-se esperar que a taxa de juros caia ainda mais para se estimular o consumo, tendo em vista que a inflação está com diversos fatores positivos para segurá-la em níveis civilizados.

O patamar de taxa mínima de juros é chamado de taxa neutra de juros ou taxa de juros estrutural, que é aquela que não provoca pressões inflacionárias ou desinflacionarias, ou seja, é o patamar de equilíbrio da economia. Ao todo, são três componentes para esta taxa. O primeiro deles é o juro internacional, que serve como referência para o investidor estrangeiro que leva em consideração outros dois componentes em relação ao Brasil: o calote de aplicar dinheiro no Brasil e não receber pelo valor emprestado (por exemplo, comprando títulos públicos) e o risco cambial, pois a taxa de cambio pode fazer o estrangeiro entrar com um valor e sair com um valor menor. O segundo é taxa real da economia que a diferença entre a taxa de juros e a taxa de inflação. Se for muito alta desestimula a economia, se for muito baixa os preços podem subir gerando inflação.  E por fim a segurança institucional como a estabilidade dos poderes da república, o que infelizmente causa preocupação.

O Comitê de Politica Monetária do Banco Central decide a taxa de juros básica  para um período de aproximadamente 44 dias e leva em consideração não somente a inflação, a atividade econômica, mas também a taxa de juros estrutural para que o país não tenha uma fuga de capitais.  Como a inflação está sob controle e a atividade econômica retraída, a queda mais acentuada depende da taxa estrutural.

A queda da taxa de juros estrutural depende de fatores como crescimento da produtividade da economia, perspectivas para a política fiscal, qualidade do ambiente contratual e de negócios, eficiência do sistema financeiro e qualidade das políticas econômicas. Suas estimativas invariavelmente envolvem elevado grau de incerteza. Por essa razão, avaliações sobre a taxa de juros estrutural da economia necessariamente envolvem julgamento. O Comitê julga que o redirecionamento da política econômica pelo governo, com aprovação e implementação das reformas fiscais, notadamente a reforma da previdência, além de outras reformas e ajustes necessários na economia, pode produzir uma queda da taxa de juros estrutural da economia brasileira. Desta forma, mesmo com a necessidade de uma queda de juros mais significativa para se estimular a economia, pode-se manter em patamares elevados pelas incertezas quanto à aprovação das reformas e manutenção do atual governo para que se implemente medidas que melhorem a economia quanto ao seu fortalecimento a médio e longo prazo.

Veja também: