A crise econômica conjuntural e a lógica do capitalismo.

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Redação Diário | Diário Botucatu

Ao desembarcar em Hamburgo para a reunião do G20(grupo que reúne as 20 maiores economias do mundo), o Presidente Temer disse que “a crise econômica no Brasil

não existe, vejam os dados”. De fato, existe uma evolução em diversos indicadores econômicos como a deflação de 0,23% em junho, o recorde na balança comercial e a retomada na venda de veículos. A economia  é a ciência que estuda os processos de produção, intercâmbio e consumo de bens e serviços. Uma crise, no que lhe diz respeito, é uma mudança brusca ou uma situação de escassez (desemprego, por exemplo). Os 13,9 milhões de desempregados atestam que continuamos em crise econômica e consequentemente social. A vertente mais cruel da crise econômica é o desemprego.

A economia é cíclica, ou seja, combina etapas de expansão com fases de contração. Estas flutuações sucessivas são conhecidas sob o nome de ciclo econômico.Estes princípios permitem afirmar que toda descida culmina numa subida e vice-versa. As quatro grandes fases de um ciclo econômico são oboom (onde aumenta a atividade econômica até ao seu auge), a depressão (caem os indicadores), a recessão (quando a depressão se estende por mais de dois trimestres consecutivos) e a recuperação ou estagnação (os índices voltam a subir e começa o boom, o ciclo seguinte se inicia). A crise econômica decorre em algum momento da depressão. A melhora dos indicadores pode mostrar que paramos de afundar, ou seja, batemos no fundo do poço. Neste sentido, ainda há muito que melhorar, pois um indicador que representa 60% da demanda do PIB (Produto Interno Bruto) que ainda não reagiu é o consumo das famílias. Os indicadores de produção estão melhorando com as exportações, o que é positivo, mas o mercado interno continua estagnado contribuindo de forma definitiva para o controle da inflação.

As crises econômicas conjunturais que ocorrem em curto espaço de tempo são as relacionadas aos ciclos econômicos. As crises estruturais são aquelas que não estão apenas relacionadas com os momentos de expansão e contração da economia, mas com situações que não se resolvem tão rapidamente e envolvem um relacionamento efetivo como investimento (gastos em máquinas, equipamentos e edificações para se aumentar a produção). O capitalismo, desde o início do século 19, tem passado por inúmeras crises periódicas, as quais deixaram exposta sua incapacidade de solucionar de forma duradoura o desequilíbrio entre produção e consumo, uma vez que este modo de produção tende a produzir muito mais do que pode realizar na esfera do consumo, isto é, se produz mais do que será consumido.As razões para esse desequilíbrio variam conforme a fase do capitalismo em que as crises ocorrem, mas tem como dado comum caracterizar-se como uma crise de abundância e não de escassez, como ocorria em períodos históricos anteriores, em razão de catástrofes naturais, de quebras de safras, de epidemias ou de guerras. Portanto, existe uma produção superior ao consumo esperado e para que o consumo ocorra se oferecem alternativas, como os financiamentos. Como o que motiva a produção capitalista é a acumulação de capital, cuja medida de eficiência e acerto estratégico é o lucro crescente, as necessidades sociais transformam-se em mera mediação para a realização da acumulação (por isso se produz em excesso), deixando de ser a finalidade orientadora do uso dos recursos naturais que é satisfazer as necessidades humanas.

A crise que o presidente se refere é a conjuntural. As reformas trabalhista, tributária e previdenciária são ajustes de conjuntura. Do ponto de vista estrutural a lógica do lucro capitalista e do interesse próprio precisaria ser mudada o que me parece improvável. Enquanto a lógica for esta, teremos os ciclos econômicos cada vez mais profundos agravados pelas diferenças sociais e pela produção e consumo de massa.

Paulo André de Oliveira

Professor da FATEC

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