As vantagens de ser velho.

Redação Diário | Diário Botucatu
José Sebastião Pires Mendes.
– Colaborador DB –

Velho, eu?! Cai fora, meu! Assim diz o velhote que não se manca. Até manca (e como manca!) mas não lhe cai a ficha. Porque ser velho não é moleza (e nem dureza, muito menos). Eu gostaria de esganar o “inteligente” que inventou a expressão “melhor idade”. Melhor idade é aos vinte anos! Hoje só se fala em maioridade penal. Mas a menoridade virtual, é que é a tal. Tá todo mundo com o aparelhinho fazendo tique-tique-tique, desde os mais pimpolhos até os mais caolhos. E a informação vem de forma galopante, você fica sabendo ontem o que ainda vai acontecer hoje. Mas o velho, além dos achaques, ainda tem que driblar muitos preconceitos. Por exemplo, a idéia de que papo de velho é muito chato. Pois em geral, o velho só fala do passado. Como se a vida do presente só existisse em função do passado. “No meu tempo, a coisa era diferente…” – e lá vêm as comparações, antigamente era tudo mais simples, mais romântico, e coisa e tal. Havia mais pureza (não sei, não…), mais respeito e delicadeza no trato com o sexo frágil, o amor era mais idealizado do que praticado. As apaixonites aconteciam com mais freqüência do que hoje, porque era tudo proibido. E por aí vai, a arenga saudosista inclui os velhos chavões, tipo cadeiras na calçada nas noites de verão, serenata ao luar nas madrugadas domingueiras, lampião de gás feito testemunha dos primeiros beijos… Opa, aí já extrapolei. Os velhotes de hoje nem tinham nascido nessa época. No tempo dos lampiões São Paulo ainda era “da garoa”, e o “trem das dez” ainda circulava. Mas da mesma forma idílica de antigamente, os velhos “modernos” também teimam em contar seus casos. Como se o tempo tivesse parado na sua juventude. Bem, o tempo urge, foge, estruge e ressurge. E não passamos de marionetes em suas mãos.

 

Os velhos de hoje se esquecem às vezes de que quando eram jovens diziam as mesmas coisas dos velhos de sua época. “No meu tempo..”. e começa tudo de novo. Há muitas maneiras de se valorizar um velho. Naquela modinha de carnaval do Silvio Santos, por exemplo, “o velho pode ser careca, baixinho e barrigudo, mas se tiver dinheiro, ele está com tudo…” Não sejamos tão maquiavélicos. As experiências de uma vida são únicas para cada indivíduo, e mesmo que similares entre si, cada pessoa as tem do seu modo. Então é riquíssimo o conhecimento individual de cada um, e o intercâmbio de experiências vai moldando a longo prazo os seres do futuro. Afinal, quando é que estamos velhos? Alguns dizem que é quando se passa dos sessenta, setenta ou…(deixa prá lá). Isso é muito relativo, porque o que envelhece realmente não é o corpo físico. Dizem os entendidos que de década em década mudamos de corpo, isto é, todas as células são substituídas. Então, se essa pluralidade corpórea é uma realidade, qual é o corpo que envelhece? O que mais dificuldade tem para se reciclar. Até que chega um ponto em que não há mais o que reciclar, e temos que aceitar outro tipo de reciclagem. E se não cuidamos do outro corpo, que é o mental, estamos fritos. Aí sim, envelhecemos. Porque enquanto estamos conscientes, e sabemos usufruir na medida certa da perene juventude do espírito, não somos velhos, apenas somos “jovens há mais tempo”. Mas ser velho tem lá suas vantagens. Na verdade, com toda a confusão típica do brasílico paradoxo deste país de contrastes, temos já uma cidadania pró-idosos: a fila nos supermercados, a gentileza na travessia de pedestres (existe sim, ouviu? Não me venha com risadinhas.), a passagem gratuita no transporte coletivo, as vagas especiais nas ruas e nos estacionamentos, etc. Mas o que ninguém gosta de ouvir é quando, depois dos cinqüenta, alguém nos chama de “tio isto, tia aquilo”. Ai, ai, dói no ouvido quando é a primeira vez que, ao atravessar a rua, alguém grita: “cuidado, vovô!” E é aí então que nos cai a ficha: “Sim, cheguei. Cheguei na tal da melhor idade. Já não sou mais nem adolescente nem madurescente, agora sou um envelhescente, impertinente e às vezes inconseqüente, e torço para não ficar doente. Para não ficar um paciente impaciente que atrapalha muita gente”. Mas não adianta. O jeito é levar tudo na brincadeira e trabalhar a mente, porque se soubermos conservar o otimismo que nos provém de muitos fatores, como a certeza de termos cumprido nossos deveres existenciais e sociais, devolvido à Natureza o que dela recebemos, como a continuação da espécie, o cultivo das forças biológicas, mentais e espirituais, fatores esses que não dependem da natural senectude, podemos estar certos de que a velhice nova da antiga juventude nos será motivo de fortalecimento e alegria de viver. Mas se não pudemos, por algum motivo, realizar nossos mais acalentados sonhos, sempre nos resta um tempo que não se mede pela quantidade, mas pela intensidade de consciência para remediar alguma coisa, aprender ainda e ensinar muito. Como diz aquela canção de Taiguara: “Range o velho barco, lamento amargo do que não fez…. mas o futuro espelha esse mesmo velho, que são vocês…” Pois a maior vantagem de ser velho de carteirinha é poder dizer aos jovens estas coisas.

 

*José Sebastião Pires Mendes ´é membro da ABL e do CCB –

Atividades: literatura, pesquisa e artes – é colaborador do Diário

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