Uma vida dedicada à banda marcial

Conheça Bolinha, aposentado de 65 anos que se dedica há 47 anos às bandas marciais da cidade

Redação Diário | Diário Botucatu
Por Lana Salvador

Luiz Antônio Matheus Vieira, 65 anos, mais conhecido como Bolinha devido a um apelido de infância, é o principal nome quando se pensa nas fanfarras da região (já tendo realizado trabalhos em São Manuel, Pardinho, Pratânia e Barra Bonita) e fez história em Botucatu no comando da Banda Marcial do La Salle durante anos. Atualmente, comanda a Banda Marcial da AFRAPE (Associação Fraternal Pelicano de Botucatu), uma entidade assistencial. Bastante religioso, Bolinha se considera um botucatuense fanático e nunca pensou em sair da cidade. “Minha terra é aqui, meu lugarzinho no mundo é esse” e associa todas suas conquistas à natureza e a Deus.

Pai de Cássio (que atualmente estuda nos Estados Unidos) e Tais (estudante de pedagogia em Botucatu), Bolinha é casado com Maria de Lourdes Pereira Matheus Vieira há 27 anos e os dois tiveram uma grande surpresa no dia da cerimônia: a Banda Marcial do La Salle tocou para eles. “Meu tio disse que meu casamento parecia de princesa”, brinca Lourdes.

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BANDA MARCIAL DO LA SALLE

Aposentado pela Sabesp, onde trabalhou por mais de 30 anos, Bolinha também trabalhou em rádio no passado, mas foi à frente das bandas marciais que se encontrou profissionalmente e como ser humano.

Na infância, o aposentado lembra que não tinha condições de estudar no colégio La Salle, então fez de tudo para ingressar só para participar da banda marcial que era seu grande sonho, pois o pai o levava para assistir aos desfiles desde criança. Em 1970, virou integrante da banda e começou tocando bateria e percussão. Mais tarde, aprendeu instrumentos de sopro. E lá permaneceu até 1978, ano no qual a banda parou por um tempo.

Em 1982, a direção do colégio reativou o projeto e Bolinha foi chamado para organizá-lo e coordená-lo. Já em 1983, a banda voltou com tudo e continuou intensamente até 1993. Durante esse período, o botucatuense trabalhou como voluntário. A partir de 1994, começou a receber uma ajuda de custo “que não pagava nem a minha gasolina”, brinca. “Mas tudo bem, eu queria ver a banda ativa e lutar por ela”. No total, Bolinha ficou 32 anos no comando do projeto, até lhe comunicarem que a banda seria extinta. “Quando aconteceu da direção da escola acabar com sua banda marcial em 2014, ninguém se interessou em reativá-la e a história da banda ficou jogada”, lamenta.

No ano seguinte, a AFRAPE acolheu a banda de ex-integrantes. “Eu fico feliz de saber que a banda não morreu”, conta com os olhos marejados.

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BANDA MARCIAL DA AFRAPE

Bolinha trabalha na AFRAPE como voluntário desde 2015 e lá conta com a ajuda de outros ex-integrantes da banda do La Salle que foram contratados como professores. “A essência continua a mesma, mas agora levamos outra mensagem. Então algo importante de frisar é que a banda da AFRAPE não é a banda do La Salle”, apesar do colégio emprestar instrumentos (a maioria é da própria entidade assistencial) e o local para ensaios.

“Tinha outras entidades procuradas pelo colégio La Salle para dar continuidade à banda, ninguém aceitava porque os instrumentos ficaram vinculados ao colégio. Daí a AFRAPE foi a única que acolheu a banda naquele momento. E por lá ser um projeto assistencial, a banda marcial passou de escolar para musical, com direito a professores específicos para cada modalidade. Então a AFRAPE deu sequência ao projeto”.

A AFRAPE é um projeto formada por mais ou menos 30 pessoas fixas vindas da banda de ex-integrantes, 10 a 15 professores fixos do próprio projeto que são responsáveis pela parte instrumental de som e percussão. E o restante são crianças, adolescentes e adultos beneficiados pelo projeto. Assim, a banda conta hoje com mais de 70 pessoas. Lá, os professores preparam os alunos para o instrumento que eles quiserem, dando a possibilidade de participação na banda marcial posteriormente.

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7 DE SETEMBRO DE 2017

O desfile de reencontro da Banda Marcial do Colégio La Salle no Dia da Independência era uma ideia antiga que foi planejada e executada por Bolinha junto com amigos. “Se a gente tivesse 5 pessoas, desfilaríamos com 5. Se tivéssemos 500, íamos com 500. E teve gente de todas as partes do Brasil se manifestando. Foi sensacional”. Nesse desfile, o aposentado comandou as duas bandas: na frente a da AFRAPE e, logo em seguida, a banda do La Salle. “Se me perguntarem como fiz isso, sinceramente eu não sei. É muito amor, você não imagina a felicidade que isso tem, é muito gratificante. Então enquanto eu tiver forças para fazer coisas nesse sentido, eu vou fazer”, garante.

No desfile da Banda Marcial do La Salle participaram em média 200 pessoas, divididas entre a linha de frente, o corpo musical e o Pelotão (ala que não tinha instrumentos e desfilou marchando). Já no desfile da outra banda, tinha as acrobatas, as pessoas que cantam e a ala que toca. “É tudo muito organizado: tem o corpo coreógrafo, o corpo musical, os responsáveis pela coordenação do desfile”. Participaram desse desfile umas 70 pessoas da AFRAPE.

“Então eu falo que essas duas bandas são a Banda Marcial de Botucatu, uma banda de vocês direcionada à cidade”, finaliza.

 

“Durante todo esse tempo comandando Bandas Marciais, eu tirei uma lição muito boa que a gente precisa aprender a respeitar muito o outro. As pessoas que você convive, que encontra por aí.. isso é fundamental. Porque quando você respeita todo mundo, você é respeitado também. Se eu pudesse voltar no tempo e fazer tudo de novo, mesmo com todos altos e baixos que tivemos, eu voltaria porque isso me fez muito feliz sempre. Então eu acho que o respeito fala tudo. De um modo geral, a música pra mim é muito interessante porque a hora que você está envolvido naquilo lá, você é uma outra pessoa. E meu anjo da guarda é tão bom que nunca me deixou de lado. Todas as vezes que eu subi no palco, mesmo com a deficiência que eu tenho [Bolinha tem o diagnóstico de Mal de Parkinson], graças a Deus eu me dei bem. Fui feliz. O povo sempre me aplaudiu. Eu aprendi muito, muito, muito, muito. Eu sou outra pessoa quando eu estou lá comandando. Então eu só tenho a agradecer: a tudo e a todos”.

 

 

 

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