Quando as pedras são preciosas

Conhecida por juntar diferentes materiais no mesmo trabalho, a artista plástica Elisete Alvarenga está em exposição na Galeria Fórum das Artes até 20 de agosto.

Rebeca Selpis

Nascida na pequena cidade de Osvaldo Cruz, interior de São Paulo, Elisete Alvarenga mudou-se para Botucatu em 1975 para cursar Agronomia, na UNESP. Aqui, conheceu seu marido, teve filhos e nunca mais pensou em ir embora. A artista nunca exerceu a profissão de agrônoma, optando por dedicar-se ao lar e à criação dos filhos, mas concorda que sua formação acadêmica lhe deu uma visão importante para compreender mais o mundo e como as coisas funcionam, principalmente em relação ao movimento das plantas e da terra. Foi só com os filhos já crescidos que Elisete começou a desenhar e ter um trabalho artístico.

Suas primeiras aulas de desenho foram com os artistas botucatuenses Olavo Pupo e, posteriormente, com Marinês.Bassetto. Então ela foi à São Paulo descobrir o que se fazia lá em termos de arte e também conhecer museus e galerias. Foi quando Elisete começou a fazer cursos e frequentar o ateliê de gravura do Museu Lasar Segall e do Sesc Pompeia, e também ter aulas no Centro Universitário Maria Antonia. Já no Rio de Janeiro, foi aluna de Charles Watson, que ela considera o melhor professor que já teve. Assim, apesar de não ter uma formação acadêmica em Artes, a artista procura sempre estudar e visitar exposições, porque ela acredita que às vezes se encontram respostas para o seu trabalho no trabalho do outro. “Ou um estímulo também, quando você encontra alguma coisa próxima, você sabe que está indo para um caminho bom e interessante”.

Atualmente, a artista trabalha com muitos assuntos e muitos materiais, como pinturas, bordados, fotografias pintadas, desenhos, palavras, vídeos e gravuras, sendo inclusive coordenadora do Ateliê Municipal de Xilogravura há 5 anos, um ateliê público e aberto à comunidade que funciona na Casa da Juventude toda quarta-feira, das 17h às 21h. Elisete também diz que trabalha sem parar e sempre encontra coisas novas, assim o trabalho vai crescendo. “Às vezes eu pego alguma coisa que eu fiz há muitos anos atrás e eu vejo que tem alguma relação com o que eu estou trabalhando hoje. Ele vai se modificando, eu vou acrescentando coisas novas, mas tem alguns assuntos que estão sempre presentes nesse período que eu trabalho”.

Sobre o que a arte significa na sua vida, a artista afirma não separá-la das outras coisas. Elisete defende que a arte é a maneira como você se coloca no mundo e como você quer viver a sua vida. “Eu acho que a arte está presente em todas as coisas, em todos os lugares. Eu não coloco a arte em outro patamar, outro plano. Está tudo no mesmo lugar”.

A exposição “pedras são preciosas”

Resultado de um projeto selecionado pelo ProAC Editais, Programa de Ação Cultural da Secretaria do Estado de São Paulo, a exposição “pedras são preciosas” de Elisete Alvarenga pode ser conferida na Galeria Fórum das Artes até o dia 20 de agosto, com curadoria de Celia Barros. A exposição também conta com o apoio da Prefeitura de Botucatu, que cedeu o espaço para receber a exposição e disponibilizou educadores que acompanham o público durante a visitação.

Sobre o processo de criação, a artista conta que reuniu o que ela chama de “trabalho miúdo”, um trabalho bem experimental onde a artista brinca com os materiais, associando uns aos outros. “O contraste dos materiais me interessa muito. Acho que dá uma conversa boa”. Tem trabalhos antigos e também recentes. “É algo feito de uma maneira muito despretensiosa, sem a intenção de que aquilo se torne uma obra. Por isso que no final ele se torna precioso, porque parece que é um trabalho mais honesto, mais íntimo”. Assim, a mensagem que a exposição quer passar é apreciar o cotidiano, apreciar o comum.

O nome da exposição foi baseado em um antigo trabalho de Elisete impresso no tecido onde está escrito ‘pedras são preciosas’. Por ser um assunto que a artista trabalha já há bastante tempo através do bordado, da gravura e do desenho, o tema pedra é algo que ela gosta muito, tanto como objeto como desenho. Por isso, certa vez lhe ocorreu que as pedras eram preciosas, não só as tidas como preciosas que estão nas joias, mas qualquer pedra e também de qualquer material banal: como a embalagem Tetra Prak ou como a terra, que você encontra por aí facilmente. “Na verdade, eu estou dando um valor. Quando eu falo ‘pedras são preciosas’, eu estou apreciando o banal, o comum”.

Na exposição, encontramos alguns torrões coloridos de terra, de onde a artista extrai os pigmentos. Esses materiais são da região de Botucatu, Pardinho, Anhembi e a maioria é conseguido em barranco de estrada. Ao lado, estão as pedras, cada uma com uma cor, um formato, uma dureza. Há também bordados de pedras, com desenhos feitos em linhas trabalhando o vazio. Em seguida, nos deparamos com fotos que são projetadas por mais de uma hora alternando com dois vídeos. Nas fotos, está um pouco do processo de Elisete, com assuntos que lhe interessa e fotografias feitas por ela. “Não é intencional, eu não saio procurando nada. Onde o olho para, eu vou registrando. Então eu tenho material para pintura, gravura, bordado, desenho, que eu faço sempre a partir desse material que eu vou juntando”.

Por serem obras pequenas, Elisete e a curadoria resolveram não colocá-las em molduras para evitar um ambiente muito poluído. Assim, muitos trabalhos estão expostos dentro de gaveteiros onde é possível abrir duas gavetas juntas, fazendo relação de um trabalho com outro. Nelas, tem trabalhos do cotidiano da artista divididos em “aqui dentro” e “lá fora”, sendo o primeiro grupo de imagens registradas na casa da artista e no entorno e “lá fora” as imagens captadas nas caminhadas de Elisete pela cidade. Há também bordados de frases ou palavras, que surgem dos eternos questionamentos da artista.

A exposição tem também muito bordado, que são feitos com linhas de carretel. Outro material que a artista gosta muito de trabalhar são os tacos e há também trabalhos sobre a natureza morta, onde a artista fotografou coisas na rua como um cobertor de cachorro, um relógio, um açougue, um lixo. Também é possível encontrar arenitos trabalhados em formatos pequenos e organizados em grupinhos como se fosse uma construção, e também cadeirinhas feitas com fios de cobre. Por fim, há quadrados pintados com vários pigmentos de terra.

“Meu trabalho, apesar de não aparecer a figura humana, sempre remete a ela de alguma maneira. Estou falando de cadeiras, mas também de gente. Se eu faço o desenho da roupa, estou falando de gente também. Se eu mostro a carga do caminhão, alguém montou aquela carga. A pilha de tijolo, alguém organizou aquilo daquela maneira. Sempre tem o gesto humano atrás daquele acontecimento”

E qual é a marca que Elisete quer deixar como artista? “Minha intenção é perceber onde o olho de cada um para. Porque você olha algumas coisas e não olha outras. Eu acho que esse é até um processo de conhecimento da gente. Então minha mensagem é essa: apreciar o simples. Apreciar as coisas que estão aí”.

PEDRAS SÃO PRECIOSAS
de Elisete Alvarenga
curadoria Celia Barros

Visitação:
terça a sexta: 9h às 17h
sábado: 11h às 17h
na Galeria Fórum Das Artes

 

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