Precisamos falar sobre EMPODERAMENTO FEMININO

... e contar essas histórias não vai ser fácil.

Por Lana Salvador

 

Um aviso: essa matéria vai incomodar!

Porque quando se expõe pessoas e suas respectivas feridas, é preciso explicar todo processo. E em qualquer luta sempre há dor, há feridas abertas e há cicatrizes que vão marcar para sempre os envolvidos.

Por isso, o Em Cantos dessa semana tem uma pegada diferente, mas com a mesma essência de sempre: contar histórias – três histórias inspiradoras, aliás – e também estimular o pensamento crítico sobre a importância do empoderamento das mulheres na sociedade contemporânea. Essa reflexão, além de destacar a luta pela igualdade de gêneros (Feminismo), é também um aviso de que nós mulheres: negras, nordestinas, tatuadas, mães solteiras, mulheres fora dos padrões estabelecidos por uma cruel ditadura da beleza que só causa sofrimento no coletivo, enfim, todas nós, estamos cansadas de tanta discriminação, opressão e preconceito, e vamos continuar fazendo barulho, sim, por algo que nos deveria ser de direito: o RESPEITO.

Agressores não passarão!


MULHERES EMPODERADAS NO MEIO DO CAMINHO

Apresento-lhes as personagens dessa semana: Bel Paiva, Fernanda Ribeiro e Hilbaty Rodrigues. Três mulheres fortíssimas com as quais eu tive a sorte de cruzar o caminho um dia e que têm histórias que vão nos fazer repensar muita coisa.

BEL PAIVA, 33 anos

Rebeca Selpis
Bel Paiva, 33 anos

Conheci a Bel na sua época de aprimoranda do CEVAP através de amigos em comum. Eles a chamavam de “Gibi” por causa das suas inúmeras tatuagens. Se ela gostava do apelido? Nunca ninguém perguntou. Mas uma coisa é certa: não havia boas intenções por trás desse chamado. Desde aquela época, nunca mais a vi. Fomos nos reencontrar esse ano, por acaso, na balada. Foi quando constatei que essa nordestina arretada está mais empoderada do que nunca.

Natural de Fortaleza, Bel Paiva é formada em Medicina Veterinária pela Universidade Estadual do Ceará. Possui Aperfeiçoamento em Clínica Médica e Cirúrgica de Animais Silvestres e Exóticos pelo Instituto QUALITTAS. Veio pra Botucatu em 2010 fazer Aprimoramento no CEVAP (Centro de Estudos de Venenos e Animais Peçonhentos da UNESP). Também possui especialização em Acupuntura Veterinária pelo Instituto Bioethicus e é Mestre em Doenças Tropicais pela Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB). Atualmente, trabalha como autônoma com reabilitação animal, fisioterapia, ozonioterapia, dietoterapia e todas as terapias afins: “Eu trato o animal como um todo. Por isso minha definição é essa: veterinária holística”.

Desde criança eu já tinha uma noção que eu ia ser muito tatuada. Sempre gostei, na infância colocava tattoo de chiclete em mim. Eu já tinha certeza disso e minha mãe ficava me pentelhando não porque ela não gostasse de tattoo, mas ela tinha medo do que eu iria passar. Eu sempre tive muito bem trabalhado na minha cabeça que eu escolhi um caminho um pouco mais difícil. Que eu vou ter que passar a barreira do físico, da galera não se perder no meu visual pra levar a sério o meu trabalho e pra prestar atenção no que eu estou fazendo. Na minha vida acadêmica eu passei por maus momentos, esbarrei com pessoas que me discriminaram muito. E além da questão da tatuagem, tinha a questão de assédio sexual, de assédio moral, além de eu ser nordestina também. Então tinha tudo isso, mas eu sempre tive muito trabalhado dentro de mim que eu sei que eu sou diferente e vou me empoderar porque as pessoas vão parar de reparar no meu físico e vão reparar no meu trabalho. Hoje em dia, é isso que acontece e é muito legal. Eu trabalho numa escola de pós-graduação em que o pessoal me adora. Eles gostam do meu trabalho e me pagam muito bem por conta disso. E eles não tão nem aí que eu sou muito tatuada. Acho que fica a questão de quebrar paradigmas. Eu sou coordenadora de curso de pós-graduação. Então quando eu entro na sala de aula, os alunos me olham e acham que eu sou outra aluna. E eu falo “Boa tarde, gente. Tudo bem? Eu sou a coordenadora de curso de vocês”. E eu vejo a galera assim: “NOSSA!”. Então eles me veem como uma menina, porque a galera acha que eu sou mais nova do que eu realmente sou, graças a Deus. E daí vem com o braço todo tatuado, com a mão tatuada, falando e dando aula. Então eu me sinto honrada, na verdade, de estar numa posição em que eu me sinto muito confortável. Eu me sinto linda, me acho maravilhosa, exótica e eu tô numa posição de trabalho tão importante que as pessoas tão começando a ter esse diferencial: de olhar pra mim pelo meu trabalho, não pelo meu visual. Uma vez ou outra tem alguém que comenta: “Nossa, cara. Você é muito tatuada, né?”“. Daí eu falo: “Sou sim. Eu gosto!”. Então eu tô tranquila. Eu tô bem, me sinto bem. Acho que eu tô na minha melhor fase da vida”.

 Nunca imaginei escrever sobre a Bel, que apesar da distância de uns tempos pra cá (a vida tem dessas, né? Mas o pensamento e o amor estão sempre presentes) tenho um carinho enorme pela pessoa fantástica que é. Uma profissional excelente, uma veterinária, acupunturista da qual sinto muito orgulho em ter participado dessa trajetória e de cada conquista que ela obteve nesses anos que nos conhecemos. A Bel é a garota com o sorriso e a risada mais gostosa que existe, sempre brincalhona, piadista, conselheira, amiga e inúmeras qualidades que poderia passar horas citando. Companheira de choros e risadas, de cerveja e baladas, de perrengues, mas também de muita alegria e aprendizado. Eu adoro demais você, Belzinha!

 Por Patrícia Rocha Mendes
Companheira de pós-graduação da Bel, UNESP/Botucatu

 

 

FERNANDA RIBEIRO, 32 anos

Rebeca Selpis
Fernanda Ribeiro, 32 anos

Já a Fernanda foi descoberta nas redes sociais. Achei a imagem dela marcante e pensei: “Por que não adicioná-la? Deve ter algo interessante aí”.  Adicionei, ela aceitou, não nos conhecíamos. Mais tarde, depois de vê-la no palco, fiz questão de elogiá-la pessoalmente tanto pelo desempenho musical como também pela sua envolvente expressão corporal nas apresentações.

Fernanda nasceu em Botucatu e se considera multidisciplinar. Técnica Florestal, ETE, está para concluir o curso de Pedagogia pela Anhembi Morumbi. Trabalhou muitos anos com Agroecologia, plantas medicinais e Feminismo. Atualmente, exerce a função de técnica florestal e também trabalha como massoterapeuta, cantora e com música na noite de Botucatu e região. Como artista, Fernanda está iniciando um trabalho solo, mas também tem parcerias, inclusive o recente projeto Cafuá, banda de música instrumental. Filha de pai pernambucano e mãe mineira, a botucatuense também é empreendedora.

“Eu estou na melhor fase da minha vida em lidar com imagens. Já passei por um processo de crise: de corpo, de cabelo, de assédio, de não saber lidar com várias coisas. Hoje eu sou uma mulher empoderada. Busquei informação, busquei me empoderar, busquei me acolher com outras mulheres e estar articulada em rede. Então hoje eu me vejo bonita, inteligente, trabalhadora. Sou pobre, mas tô ralando. Eu sei qual é o meu lugar, sabe? Então vai de entender um pouco o histórico das coisas. Por que eu pensava assim? Por que eu sofria essas coisas? Historicamente, quando a gente se capacita do histórico da opressão, do patriarcado, de tudo isso, a gente começa a se entender e se aceitar melhor. Então eu tô no melhor momento da minha vida. Eu tô mais gordinha, mas mesmo assim eu não deixo de me sentir gostosa, bonita, enfim… Eu tenho lidado legal com isso e eu tento ser um exemplo, sabe? Ser uma referência pra outras mulheres no sentido do auto empoderamento, de se visualizar como mulher, como negra e tudo mais. Tenho um pouco de receio em relação à imagem como artista, por exemplo. Como as pessoas estão me vendo, mas agora um pouco menos. Mas já tive um pouco mais essa preocupação de: não posso fazer alguma coisa errada na balada. Ou não posso me portar de tal forma. Hoje em dia eu tô mais de boa, sabe? Quem é que eu sou? E aí tô lapidando as coisas que ainda faltam. Acho que a gente não é acabado, a gente vai estar sempre tentando se entender, melhorar e se empoderar. Então é isso, acho que eu tô na melhor fase da minha vida: como mulher, como negra, como gorda, como pobre”.

 

Quem me vê de pé
Não sabe que todo dia eu desmorono
Espalho e junto escombros
Colo pedaços com durex
Quedas e cicatrizes coleciono
Cada uma delas é uma história de dor, luta e
superação
Leio, releio e me emociono
Minhas lágrimas são combustível pra completar a
missão
E sigo guerreira
De corpo fechado
Defendendo as irmãs que estão do lado
Eu vou…Por Piteco
Amigo de longa data e parceiro musical de Fernanda

 

 

HILBATY RODRIGUES, 25 anos

Rebeca Selpis
Hibalty Rodrigues, 25 anos

A Hilbaty é um caso mais recente. Quando certa noite eu a avistei de longe com aquele cabelo pomposo no meio da multidão, no mesmo minuto eu a abordei: “Gata, você tem um cabelo lindo! Nunca oprima esse cabelo”. Ela sorriu, meio sem jeito. Tempos depois, quando nos adicionamos nas redes sociais, constatei como o tal preconceito a oprimiu durante anos fazendo ela se esconder em um cabelo alisado que só negava sua verdadeira origem.

Hilbaty Rodrigues nasceu em Assu, interior do Rio Grande do Norte, mas foi criada em Ipanguaçu, uma cidade potiguar de aproximadamente 14 mil habitantes. Com 16 anos, foi cursar Engenharia Agrônoma na Universidade Federal Rural do Semi-Árido, em Mossoró. Desde o começo do ano, Hilbaty faz mestrado na UNESP Botucatu/Lageado, onde trabalha com produção orgânica, plantas medicinais, PANCS (plantas alimentícias não convencionais) e Agroecologia como um todo, que também está muito dentro do tema do Empoderamento e do Feminismo. Hilbaty afirma que em Botucatu é muito difícil ser nordestina, pobre e preta, por ser uma cidade muito conservadora e elitizada.

“Eu me sinto completamente contemplada com a fala da Fer. Porque eu considero também que eu tô na minha melhor fase diante de tudo. Já de corpo o meu problema era o contrário. Eu era muito magra e eu sempre fui taxada por isso. Tinha um amigo meu que me chamava de “pau de fogueira”. Hoje eu dou risada, mas na época era super pesado. E nessa questão que a Fer falou de ser exemplo e não poder falar algo errado e coisa do tipo, meu pai sempre falou muito isso pra mim. Porque como painho faz um trabalho social na cidade, todas as pessoas olham muito pra ele e pros filhos dele. Então como que você vai falar pro filho dos outros não fazer se seu filho faz? Mas daí você amadurece e chega numa fase da sua vida que você entende as coisas que pode fazer ou não e que isso não vai atingir o outro, isso só vai atingir você. É a sua vida. Então o que eu quero fazer eu faço, sabe? Independente. E não tem nada a ver com o outro. Então eu acho que eu também tô na melhor fase da minha vida em todos os aspectos: tô muito bem, obrigada!”.

 

Mulher guerreira
Mulher de luta
Em sua pele traz a proteção e força ancestral.
Da cor da terra, trabalha com ela por saber
que somente lá podemos trilhar um novo futuro.
É a alegria, a risada, o sotaque,
a voz de uma maioria que nunca foi ouvida.
Quantas agrônomas negras você conhece?
Linda flor potiguar você
Representa a resistência.Por Maiara Cristina Gonçalves
Parceira de Hilbaty nas caminhadas de Agroecologia em Botucatu

 

 

MATANDO VÁRIOS LEÕES POR DIA

Durante o papo, foram abordadas importantes questões sobre as dificuldades que as entrevistadas enfrentam no dia a dia.

Peso

Pergunto à Fernanda o porquê dela ter dito “apesar de eu estar gorda” na sua apresentação e se ela encara isso como um problema. A artista esclarece que não, mas diz ter a consciência de que precisa perder peso por questão de saúde e que por ser cantora e massagista, ela precisa ter fôlego, força e agilidade.

Relacionamento abusivo

Bel revela já ter tido essa experiência: “Não foi a primeira vez, espero que seja a última”. Há pouco tempo ela teve a consciência de estar numa relação onde havia algo muito errado. Ao conhecer o Sagrado Feminino – grupo de empoderamento e fortalecimento do feminino – através de um convite de uma amiga, a cearense começou a trabalhar e entender melhor essas questões. “Eu fui pesquisar: GASLIGHTING. Como que os caras te manipulam e te deixam pensando que você é a louca. E você não é louca, na verdade você é muito consciente, muito concisa e isso incomoda”. Foi quando a cearense decidiu questionar seu companheiro e disse que não queria mais estar em um relacionamento assim. Os dois procuraram ajuda psicológica e Bel garante: “Hoje em dia eu me sinto empoderada e tenho certeza que esse tipo de relacionamento nunca mais vai acontecer comigo, porque eu não vou permitir!”.

*Assédio

Bel conta que sofre assédio desde criança e na adolescência começou a se vestir com roupa frouxa para esconder os seios grandes que tanto eram alvos de olhares. Foi nessa época que ela jurou para si mesma que ia conseguir chegar onde quisesse na profissão sem nunca precisar recorrer à parte física nenhuma. Por isso, atualmente a veterinária adota uma postura muito séria no trabalho exatamente para evitar qualquer tipo de mal entendido. “Eu nunca gostei desse tipo de relacionamento com brincadeirinha no ambiente de trabalho. Profissional é profissional e minha vida pessoal é minha vida pessoal”. Mesmo assim, já na vida adulta a cearense foi vítima de assédio dentro da própria universidade, quando lhe chamaram para fazer o teste do sofá e outra vez foi questionada publicamente porque ela não saia de casa sem roupa, já que só as tatuagens dariam conta de cobrir seu corpo.

Fernanda diz que também já foi vítima de abusos e que depois que começou a cantar, a tocar e estar em evidência nos palcos, ela chegou a sair de uma banda porque foi assediada depois de um show, onde o dono da casa noturna a trancou no camarim e a chamou para o motel enquanto sua esposa estava na portaria. Ao expor o caso pra banda, ninguém deu a mínima. O estopim para sua saída do grupo foi quando marcaram um novo show no mesmo estabelecimento. “Eu não fui acolhida pelos meus amigos músicos daquela época, porque a culpa sempre cai pra mulher. Então eu sempre vou ser a culpada pela banda ter acabado porque a gordinha, preta e pobre foi assediada e não soube lidar com o público”. A cantora revela que inclusive, tempos depois, recorreu à terapia com homeopatia para tratar o pânico de plateia, pois as pessoas a tocavam muito durante os shows.

*Fetiches sexuais e sexualização da negra

A artista botucatuense também conta que existe fetiche sexual por mulheres gordas e mulheres negras. “Porque tem aquele papo que preta tem gingado e gordinha encaixa melhor. Daí acham que a gordinha é carente e por isso ela vai fazer tudo que o cara quer”. Hilbaty completa dizendo que é vítima de muito olhar malicioso em Botucatu, tanto de desejo como de desprezo por ela ser negra. E afirma: “A questão da sexualização da negra é real”. Bel conta que também existe fetiche com as tatuadas: “É aquele negócio: onde será que ela tem tattoo? Até onde será que vai aquela tatuagem? Pros homens, nós somos só um corpo, mas eu não sou só isso”.

*Preconceitos

Fernanda: negra e gorda; Hilbaty: negra e nordestina; e Bel: tatuada e nordestina, são vítimas diariamente de preconceito e discriminação e nos contam algumas situações absurdas já vividas.

Amizade por comodismo: Fernanda diz que atualmente sente ser aceita nos lugares só porque ela é do palco. “Muitas pessoas que antes não falavam comigo viraram meus best friends quando me viram cantando e constataram meu potencial”.

Discriminação: A artista relembra quando, ao assumir a vaga em um novo emprego, uma funcionário lhe recebeu na porta e perguntou se ela queria algo. Ao responder que era a nova funcionária, ouviu: “Você é a nova empregada da limpeza? Aí eu falei: não, eu sou a técnica, e o mundo dessa pessoa caiu”.

Perseguição: Fernanda já foi perseguida em um shopping junto com outra amiga negra apenas pela sua cor. Hilbaty também já viveu essa experiência no supermercado. Já Bel confessa que direto é considerada drogada pelas pessoas, inclusive antigamente já ouvindo isso da própria mãe.

Negação das origens: Fernanda relembra que durante toda vida aplicou química no cabelo para não deixá-lo natural, inicialmente recorrendo ao alisamento e depois colocando dreads. Certo dia, ela cortou o cabelo e aplicou selante, entrando em uma crise de identidade. Há apenas quatro anos Fernanda assumiu sua identidade como negra e afrodescendente ao iniciar um processo capilar de transição para assumir de vez seus cachos e diz ter sido vítima de muito preconceito inicialmente, com pessoas a aconselhando a deixar os cabelos mais escorridos ou presos. “Isso é uma puta opressão, é como pegar a cara do negro e esfregar no chão”. Hilbaty acrescenta que a partir do momento que o negro corta o cabelo e assume sua identidade, ele descobre quem é de verdade: “Isso aí foi um divisor de águas na minha vida”.

Pergunto às três empoderadas se elas ainda se sentem afetadas com o preconceito. Bel defende que o preconceito continua, mas que hoje ela sente mais segurança e lida com ele de uma forma melhor: “Porque eu me aceito, eu me amo, me adoro, me acho linda e eu não tô nem aí se alguém se incomoda. É diferente de uns anos atrás que eu ficava insegura, então hoje em dia eu tô muito mais tranquila. O preconceito continua vindo, mas o jeito que eu lido é diferente e acaba. Pelo menos quando acontece comigo, eu corto pela raiz e durmo bem a noite”. Já Hilbaty acredita que o preconceito vai acontecer existindo, mas que atualmente também lida de outra forma porque se considera em outro patamar e, por isso, não vai mais deixar passar desapercebida qualquer coisa. Bel admite que cria estratégias mais refinadas pra deixar as pessoas pensando: você não precisa ser grosso nem abaixar o nível. Você pode simplesmente tentar educar o seu agressor e mostrar pra ele que aquilo dói em você. “E se a gente tem consciência, por que não mostrar pro outro?”. Hilbaty completa: “E daí esse papel é nosso, de resistir ao preconceito”.

Fernanda expõe seu ponto de vista: “Essa é uma luta diária. E como superar isso? Como se colocar perante essas coisas? Da onde que a gente tira forças? E eu acredito na rede, no acolhimento, no aceso à informação. Eu acredito que agindo de forma coletiva, ouvindo, pontuando coisas, a gente consegue avançar. Sozinha não, mas JUNTAS SOMOS MAIS FORTES. É isso: a luta é diária e ela vai ser por muito tempo. Em toda reunião das mulheres que eu vou, a nível nacional, das mulheres que se articulam na marcha, é isso que constato sempre: a luta é diária, ela diminui um porcentual mínimo, mas ela também evolui. E ela só evolui porque a gente não para de marchar. Por isso a gente tem que se achegar, não podemos ser inimigas, a gente tem que ser uma rede de apoio uma pra outra. E é acessando informação, participando de debates, ocupando os espaços independente da sua cor, do seu peso, do seu sexo, da sua orientação sexual. Então a gente tem que realmente entrar, senão a gente não tem espaço. Eu estou em todas as classes excluídas e sofrendo algum tipo de opressão sempre. Então acho que é o processo do trabalho em rede e de superar diariamente essas coisas que a gente vive, essas opressões, esses assédios e se aprofundar no debate, saber se colocar, como se colocar, quando se colocar e onde você consegue isso? É acessando informação, é ouvindo uma outra mina falar. Então é nisso que eu me fortaleço pra estar num ambiente tocando, empoderada, gorda e preta. E são várias as formas de violência: psicológica, verbal e física”.

E como se fortalecer nessa luta?

Através do trabalho em rede com mulheres, o Sagrado Feminino, o acesso à informação, o aprofundamento no debate pra você conseguir se colocar perante alguma situação e ouvir a diversidade e descobrir quem são essas pessoas e porque elas estão passando por isso. Entendendo o contexto histórico, você consegue não se vitimizar e é uma forma de você combater isso também, diz Fernanda. Já pra Hilbaty, o caminho é a Agroecologia: “Eu mudei a partir do momento em que eu entrei nesse mundo da Agroecologia, porque ela levanta todas essas bandeiras: da diversidade, da rede, das mulheres, preconceito, racismo. Então quando eu comecei a vivenciar esse mundo, minha vida realmente mudou, além da conscientização sobre as coisas e todas as vivências que ela me proporcionou. Bel diz recorrer ao processo de autoconhecimento e Acupuntura, que mudou sua visão do mundo. Bel também passou anos na terapia, onde entendeu porque tinha uma tendência pra ter relacionamentos abusivos. E o Sagrado Feminino foi outra coisa importante na sua vida: “Você acha que tem uma noção do mundo, mas você chega lá e fica nua. Daí descobre que tem muita coisa guardada em você”. E Fernanda completa: Não são só coisas guardadas de cura, mas também você percebe os poderes que tem quando você é uma mulher. Lá é o lugar exato para resgatar sua ancestralidade: o que é ser mulher? Desde o princípio de ser mulher a gente já nasce enfrentando. Basta você ser mulher pra você saber o que é enfrentamento. Então a sensibilidade é muito importante”.

QUEBRANDO PARADIGMAS
#juntassomosmaisfortes

Fernanda reflete o tanto que a mulher tem que se esforçar academicamente, intelectualmente, economicamente para demonstrar que é uma pessoa bacana na sociedade caso seja tatuada, preta, gorda, nordestina ou apenas por ser mulher. “A gente tem que ser doutora da PQP pra poder ser levada a sério e ser considerada alguma coisa”. Hilbaty completa: “Por isso a gente tem que dar a cara a tapa mesmo. Essa é uma tecla que eu bato todo dia: não julgue a pessoa pelo estereótipo. Porque nenhuma característica física vai tirar nosso conhecimento, sabe? Por que a gente vai pra um evento e tem que estar lá bonitinha de camisa polo? Claro que não!”. A potiguar conta ter participado recentemente de um simpósio onde foi questionada sobre estar de blusinha, quando prontamente rebateu: “Tô, claro. Tá calor”. E conclui: “Eu acho que não tem problema nenhum, até porque Agroecologia retrata isso. Então eu não vou estar lá encasacada com uma camisa fechada, porque isso não é coerente”.

Bel acredita que estamos em um período de fazer as pessoas repensarem os seus hábitos e o jeito de falar pra começarem a se conscientizar de que reproduzir os discursos da família muitas vezes ofende. A cearense diz que sua mãe é machista e quando ela a confronta a fim de fazê-la refletir, a mãe fica arrasada porque não tem outras referências, já que isso vem de geração pra geração. E completa observando que as mulheres estão cada vez mais empoderadas dentro e fora do Brasil. “A gente tá de saco cheio do cara chegar, fazer piadinha. Chega! Eu tenho que provar o que, pra quem, só por que eu sou mulher, sou tatuada, sou nordestina? O meu trabalho não conta? Então eu vou ser avaliada por ser bonita ou não, ser magra ou não, ser tatuada ou não, ser nordestina ou não? E o meu trabalho? Por que você não avalia o meu trabalho?”. Fernanda acredita que questões como feminismo, racismo e homofobia é uma militância de base.

Por isso, Bel confessa que não foi fácil chegar no raciocínio lógico objetivo de demonstrar segurança pelo que você é e, a partir daí, quebrar os paradigmas. “Eu sei o que eu sou, eu sei o que eu sei, eu vou dar aula, eu tô trabalhando com uma coisa que eu amo e as pessoas vão entender isso. De repente, a gente tá aqui justamente pra fazer a galera pensar”. E Fernanda finaliza: “O importante é respeitar a adversidade, unir as bandeiras, promover a igualdade e o acesso a tudo. A gente tem que lutar pra desfazer os privilégios”.

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