O precioso grafitti de Lucas Costa

Conheça o artista que tenta dar vida à periferia botucatuense através da arte urbana.

Rebeca Selpis
Por Lana Salvador

Lucas Costa, 26 anos, nasceu em Botucatu. Filho mais velho de pais separados, morou um tempo no Rio de Janeiro com o pai, mas logo voltou para a cidade. Hoje mora com a mãe, o irmão e com a cachorra Kiara, à qual fala com orgulho: “Linda, faz aniversário hoje. Um ano”. Lucas transformou a edícula da sua casa em um ateliê e lá vive, desenvolvendo atividades no campo das Artes Visuais como tie dye, desenho, modelagem; e externamente atua como fotógrafo, filmmaker, educador social, grafiteiro, muralista, pintor e produtor. Reservado e intenso, Lucas é o tipo de pessoa que vive o momento e faz arte conforme sua necessidade de expressão.

Arquivo pessoal

O artista estudou em escola pública a vida inteira. Mais tarde, fez o cursinho comunitário da UNESP com a intenção de se preparar para algum concurso público e conquistar um emprego que lhe garantisse estabilidade. Lá, teve uma aula de Fisiologia que o encantou e então decidiu prestar vestibular para Biologia. “Quando eu passei, já fui com toda sede do mundo ao pote. No primeiro ano, já estava fazendo estágio de iniciação científica, apresentando trabalho em congresso e rachando de estudar”. Após 2 anos e meio na UNESP, veio a decisão: “Eu ficava dividido, porque eu já tinha tido contato com o grafitti e tudo que era relacionado à arte me fazia pulsar de uma forma muito forte. Era essa a ferramenta que eu queria ter para promover mudanças. Então eu tranquei a faculdade e fui fazer arte”.

E será que ele se arrepende? “Em momento algum, nem de ter entrado nem de ter saído. Porque justamente a vivência que eu tive lá dentro, as experiências que eu vivi, as pessoas que eu conheci me fizeram atingir o amadurecimento que eu precisava para me encontrar. E a Biologia é a coisa mais linda do mundo, porque a gente se entende biologicamente falando como animal”.

 

GRAFITTI

O grafitti surgiu na sua vida em 2011, quando um amigo o convidou para pintar. Lucas aceitou na hora. Inicialmente, havia uma galera pintando com eles, mas o grupo se reduziu até sobrar quatro pessoas, que passaram dois meses pintando. “Foi uma delícia, meu primeiro contato com a pintura mural. E dali para frente foi amor à primeira vista, à primeira apertada de spray”. Nessa época, Lucas se preparava para entrar em uma faculdade pública, então passava o dia pintando e à noite ia ao cursinho. Tempos depois, começou a participar de eventos e ter contato com outros artistas da área de várias regiões do estado e foi assim que o grafitti foi crescendo na sua vida.

O artista diz ter se encantado com o grafitti por não ser algo que está fechado em uma galeria ou em cima de um palco onde poucas pessoas têm acesso. Está na rua, é uma arte democrática e aberta até para quem não quer. “Tanto que eu tenho dificuldades em pintar telas porque eu preciso estar onde rola uma troca de energia. No meu ateliê, dificilmente eu vou pintar alguma coisa. Lá eu faço os meus trabalhos com tecido e outros tipos de trabalho, mas a pintura em si mesmo é a mural, na rua. Ou em algum lugar mais externo”.

“Eu gosto de trazer um tom mais pesado ao meu trabalho, com algumas críticas. Teve um desenho que eu fiz aqui na cidade que era uma morte em cima de uma pilha de crânios, com umas velas, uma foice nas costas segurando um relógio infinito e encarando o pessoal da rua. Era em uma porta em frente a um bar e esse grafitti não durou um mês lá, as pessoas donas daquele lugar apagaram. Mas o que é a arte urbana senão uma expressão efêmera? Foi um trabalho muito rápido que apareceu e sumiu, mas que eu imagino que tenha tido uma repercussão bem forte no âmago de cada um. Porque até contra vontade você está ali encarando a morte”.

Lucas diz não ter um trabalho que mais o marcou: “É difícil escolher um, porque são marcas. São momentos diferentes da vida, são marcas de diferentes profundidades, diferentes sentidos. Mas o mais atual é sempre o último marco, um passo a mais que eu dei na trilha”. Aliás, o artista conta que as pessoas lhe dão feedbacks positivos e elogiam seu trabalho na rua. “Eu trabalho muito com cor, bastante cor forte e muito contraste”. O artista também reflete que apesar de ser difícil, ele já consegue viver só de arte. “Eu consigo pagar minhas contas, não passo necessidade. E tendo em vista que viver é uma arte, eu acredito que eu viva dela”.

Sobre as principais dificuldades e desafios que o grafitti encontra em Botucatu, Lucas cita três pontos: aceitação, espaço e acesso ao material. Aceitação e espaço porque ninguém quer ter um muro grafitado. Já nas quebradas ele diz ser mais fácil, porque lá a maior preocupação é se a arte terá algum custo ao morador. Diante da negativa, alguns liberam. “Mas ainda assim não são tantos, falta o pessoal conhecer, ver e aceitar”. Por fim, a dificuldade de acesso aos materiais, porque os lojistas acham que não vão lucrar por não ter uma grande demanda na cidade. Por isso, Lucas buscou fornecedores fora de Botucatu e oferece esse material a um preço muito mais acessível do que o comércio da cidade. “À princípio, eu não penso em ganhar dinheiro vendendo tinta porque não sou comerciante, mas a minha ideia é ter esse material pra quem quer e pra mim, porque é minha ferramenta de trabalho”.

No entanto, Lucas não se define como grafiteiro pois acha que apesar de fazer arte há uma questão muito maior que envolve o grafitti: “Na minha vida, eu vejo minha atuação como grafiteiro ensinando arte na ONG. Eu vejo isso mais como um grafitti do que uma pintura que eu faça por aí. O grafitti é mais subversivo, é transgressor”.

Arquivo pessoal

PROGRAMA ADOLESCER

Desde 2014, Lucas é educador social no Programa Adolescer que atende crianças e adolescentes de 6 a 15 anos em situação de vulnerabilidade social, no Jardim Monte Mor. Lá, ele leva sua experiência de vida e compartilha suas habilidades com os alunos, desenvolvendo oficinas de fotografia, grafitti, modelagem, entre outras. “Eu vejo que eles gostam bastante do trabalho, que se interessam pelas oficinas. Acredito que eu contribuo dando um exemplo diferente daquilo que eles vivem na periferia, levando outra forma deles verem a vida. E que eles possam evoluir com isso cada vez mais e quem sabe até serem artistas e viverem da arte tão bem quanto eu”.

Arquivo pessoal

ECOAR DAS CORES

O evento Ecoar das Cores surgiu da ideia de trazer a comunidade para onde acontecem as pinturas e, assim, fazê-la ver e entender o que é o grafitti. Quem nunca viu, vai conhecer. Quem já viu e gosta, vai prestigiar. E essa iniciativa também serve para disseminar essa cultura e, a partir daí, criar pontos de cores na cidade tanto para aumentar a visibilidade dos consumidores quanto dos produtores. “Tem muito lugar na cidade precisando de vida, de cor, de mensagens e é aí que entra o grafitti”.

A ideia do evento é antiga. “Ano passado, me juntei com algumas pessoas, fizemos alguns trabalhos, vimos potência nessa parceria, mas conforme o ano virou isso se desfez, mas eu continuei nessa movimentação. Um amigo me ajudou no começo, mas ele ficou meio atarefado e eu dei continuidade”. Em maio desse ano, aconteceu a primeira edição do Ecoar das Cores na pista de skate da Cohab 6, com o auxílio da Secretaria de Cultura de Botucatu. A segunda edição ocorreu em junho com um Mutirão de Grafitti no Programa Adolescer, que doou as tintas, cedeu o espaço e a estrutura e também ofereceu almoço aos pintores.

Arquivo pessoal

A propósito, Lucas já pensa na terceira edição: “O próximo eu ainda vou ver como vai rolar e tentar conseguir algum apoio. Mas esse evento vai ser sempre na periferia, eu não tenho interesse em fazer no centro da cidade pois ali já está cheio de coisa e não precisa de mais uma. É no fundão da vila que tem que ir, porque o que vai pro fundo da vila é a polícia, o crime, o que tá ali é a morte. E eu tô lá pra levar vida, pra deixar cor, pra deixar ideias de paz, de luz e de alegria”.

 

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