Mulher, ciclista e mochileira

Viajando de bicicleta pela América Latina, Rebecca Ferraz passou por Botucatu e nos contou sobre sua jornada

Rebeca Selpis
Por Lana Salvador

 Morei em Portugal entre 2014/2015. Nessa época, para aproveitar a posição geográfica estratégica que o país me oferecia, me cadastrei no site Couchsurfing, plataforma online muito útil principalmente pela troca de hospedagem entre seus membros. Dia desses, recebi uma mensagem no site de uma mochileira ciclista que está desbravando a América Latina. Sem hesitar, respondi: “Conta comigo!”. Dias depois, chegava à minha casa a personagem do Em Cantos dessa semana: Rebecca Ferraz.

MOCHILÃO COM UMA BICICLETA

Rebecca Ferraz, 31 anos, nasceu no Rio de Janeiro e com 7 anos mudou-se com a família para Varginha, Minas Gerais. De lá, foi cursar Serviço Social na Universidade Federal de Juiz de Fora. Ao terminar a graduação, continuou na cidade trabalhando como operadora de telemarketing a fim de juntar recursos para realizar um sonho. Em 2013, subiu em uma bicicleta e deu início ao seu primeiro mochilão.

A ideia surgiu durante um encontro de estudantes que Rebecca participou em Juiz de Fora ainda na sua época universitária. Lá, conheceu pessoas de todo o Brasil e também de outros países (Colômbia, França, Itália, Argentina, Chile), que estavam viajando apenas com uma mochila nas costas e pouco recurso. Nesse momento, despertou na carioca o pensamento de que era possível viajar fora do padrão tradicional que nos é passado, no qual só se consegue viajar para fora do país se você tiver uma condição financeira razoavelmente boa.

Em 2013, saindo de Juiz de Fora, começou a viagem pelo Sul do Brasil. De lá, seguiu para o Uruguai, onde conheceu quase todo o país. Depois visitou uma parte da Argentina e, finalmente, chegou às Cordilheira dos Andes, no Chile, onde passou um tempo na capital Santiago trabalhando. Foi lá que recebeu notícias da avó que estava para falecer, em meados de 2015. Imediatamente, pegou o avião e voltou pra Varginha viver os últimos momentos com a avó.

Seu segundo mochilão, o atual, começou no dia 9 de maio deste ano. Saindo de Varginha, passou por Guapé, Serra da Canastra, Uberaba, Franca, Campinas, Piracicaba, São Pedro, Botucatu, entre outros. “Eu não sigo um trajeto linear, tem idas e voltas. Algumas cidades eu acrescento no meio do caminho, outras descarto e também me pauto muito pelo clima”. O objetivo dessa viagem é fazer lugares mais longes, que não era a intenção da primeira viagem devido à saúde da avó. Nesse caso, o objetivo é viajar até o México, passando por vários locais que a assistente social gostaria de conhecer no Brasil e no exterior. No Brasil, pensa em conhecer bem o Sudeste, Centro Oeste, Norte e Nordeste. Fora: quer terminar de conhecer o Chile, voltar pra Argentina que é um país que ela gosta muito, e depois fazer vários outros países da América Latina. Chegando no México, o objetivo é decidir onde ela vai morar e se fixar de vez.

“Pelos meus gostos de clima, de lugares e de cultura, eu sou muito mais ligada à América Latina. Então se eu conhecer os vários países que aqui tem, eu acredito que eu posso estar bem feliz e satisfeita para morar”. Rebecca cita também a questão dos pais, que atualmente estão relativamente bem de saúde, mas que no futuro podem precisar dela, motivo que a faria voltar imediatamente para Varginha. “Eu não abandonaria eles se precisassem de mim”. A previsão de chegar no México é daqui, no mínimo, dois anos.

FINANCIAMENTO DA VIAGEM

Rebecca explica que existem várias formas de financiamento durante um mochilão. A que ela escolheu foi trabalhar nas temporadas: sejam de praia, serra ou festivais. A ciclista explica que outros mochileiros optam por fazer malabares e artesanato para se manter. Outros, combinam com revistas ou jornais e fazem artigos durante as viagens. Há também quem encare um mochilão com o Crowdfunding, que é um fundo que a pessoa cria em um site, expõe o projeto e, a partir daí, recebe doações voluntárias ou em troca de alguns pedidos. “A questão que eu acho que deve ser pensada é até que ponto esse financiamento está te limitando no que você quer fazer durante a viagem. Até que ponto ele amplia as possibilidades ou te torna refém do financiamento”.

Rebecca conta que o seu primeiro mochilão foi com um orçamento bem reduzido gastando quase nada nos lugares. “Algo importante que as pessoas precisam ter em mente é que pode chegar um momento da viagem em que você pode estar no zero. E daí você vai precisar se adaptar nesse momento que você não tem nenhum dinheiro na mão e tem que improvisar”. Rebecca diz já ter passado por isso na Argentina, através de uma negligência bancária onde ela não conseguiu sacar o próprio dinheiro da conta por causa do “esquecimento de um procedimento” pelo seu gerente do banco de Juiz de Fora.

CIDADES MARCANTES

Rebecca diz que tem lugares que ela gostou muito de conhecer por causa da natureza e outros que gostou por causa das pessoas com as quais conviveu. No Brasil, seu destino preferido foi Matinhos, litoral do Paraná, que a encantou por causa das pessoas que lá estão e pela Universidade Federal do Paraná, onde os cursos são baseados em pedagogias alternativas, valorizando o diálogo, o questionamento do aluno em relação ao conhecimento e também a forma de realizar o Trabalho de Conclusão do Curso, que começa a ser planejado no segundo semestre da graduação. No exterior, ela gostou muito de Resistência, na Argentina, onde havia uma movimentação cultural e artística bem grande.

E por que colocar Botucatu no roteiro? Rebecca diz que Botucatu é um nome conhecido no Brasil e que remete a lugar bem arborizado. E também devido às suas origens, já que seu tataravô nasceu aqui. Pergunto se ela teve uma boa impressão da cidade. “Tive, ótima impressão. Nós fizemos milagre aqui com esse tempo chuvoso”.

PEDRAS NO CAMINHO

Apesar de ser bem cuidadosa, Rebecca tem a consciência de que poderá enfrentar dificuldades em países que são conhecidos por serem mais perigosos, como a Colômbia e a Venezuela, por exemplo. “Mas as dificuldades a gente vai lidando, não fugindo”.

Em Antoniopólis, no Uruguai, a ciclista lembra ter se hospedado na casa de um americano casado com uma uruguaia. Lá, após trocarem pouquíssimas palavras, ele a todo momento a comparava com outro hóspede americano que iria chegar no dia seguinte. “É como se eu merecesse algo inferior ao americano, que ele nem conhecia: a cama era pro americano, o chuveiro quente também. Eu só poderia ficar uma noite, mesmo inicialmente tendo combinado duas”.

A mochileira também conta já ter sofrido assédio nas viagens. Ela não considera uma cantada um assédio, mas a insistência da cantada sim. E apesar disso ter acontecido poucas vezes, houve um caso extremo onde ela foi vítima de um assédio físico no Rio Grande do Sul, quando um homem a tocou e Rebecca teve que responder firme e deixar claro o absurdo da situação.

Por fim, Rebecca dá dicas para quem quer encarar um mochilão: “Trace o que você quer para a sua vida. O que você quer conhecer? Quais lugares? Pessoas vinculadas ao que? Quais são seus gostos? A partir daí, faça buscas na internet de lugares que possam te agradar pra você chegar na cidade e ter afinidade com o que você quer aprender e com quem quer estar perto. Busque os lugares e as pessoas que tem a ver com você, pra sua viagem ter mais propósito”.

E finaliza: “Hoje eu posso dizer com muita tranquilidade que se eu morrer amanhã ou daqui algumas horas, eu vou estar feliz e satisfeita com o que eu fiz da minha vida. Eu sei que eu gostaria de fazer muito mais, mas o que eu fiz já me deixa muito realizada”.

 

O QUE REBECCA LEVA NA BAGAGEM

A mochileira leva apenas três itens nas viagens:

 

1) Um plástico grande, onde vai todo o material de camping (isolante térmico e barraca)
2) Uma mochila mediana de costas, onde estão itens que ela precisa ter acesso mais rápido: pasta de dente, escova, placa de bruxismo e aparelho ortodôntico, material para consertar bicicleta, comida, faquinha, protetor solar, repelente, um manguito e um pernito (extensões de mangas e de pernas), uma bolsa que é um reservatório de água (utilizado somente em temperaturas mais quentes), garrafinha de água, absorvente, alguns eletrônicos (carregador de celular, adaptador de tomada universal, HD onde estão as fotos), um par de luvas e de meias mais grossas.

 

3) Duas mochilas que são conectadas entre si chamadas de alforge no ciclismo. Nelas, vai o grosso da viagem: 2 camisetas e 2 shorts (com forro) de bike, 1 calça jeans, outra calça que tanto serve pra dormir como pra sair, 1 short comum, 3 calcinhas, 3 meias, 3 sutiãs, 2 toalhas pequenas para o corpo, 3 camisetas de uso casual, 2 varais pequenos, desodorante caseiro, xampu, sabonete de coco, agulha com carretel de linha, saco de dormir, saco com ervas medicinais (usados tanto como medicamento, já que os de farmácia tem validade muito curta, como para fazer chás), 1 casaco, acendedor de fogo (pederneira), 1 saco pequeno com remédio convencional (pomada para queimadura, descongestionante nasal e merthiolate), alguns sacos plásticos soltos caso precise, 1 copa menstrual, kit de tesourinha/alicate/pinça/lixa de casca de peixe, depilador, máquina de cortar cabelo (para tornar o cabelo mais prático e economizar xampu), mosquiteiro de cabeça (útil em lugares com muito mosquito, como praias), 1 chinelo e 1 tênis (que ela reveza enquanto anda ou pedala) e 1 gorro quentinho que protege os ouvidos em lugares mais frios.

*A ciclista envolve todos os itens e as mochilas em sacos plásticos para evitar que se molhem durante o mau tempo.

 

 

 

PRINCIPAIS PONTOS DE APOIO NA INTERNET

 

Rebecca já utilizou:

 

Couchsurfing: site que serve para troca de várias formas de parceiras, como: hospedagens, fazer companhia durante o dia para viajantes ou acompanhá-los nos passeios, encontros eventuais ou frequentes entre os membros da comunidade nas cidades. E também há comunidades dentro do site para aprender línguas. Ultimamente, há limite de 10 solicitações semanais de mensagens para membros não pagantes, o que tem restringido suas funcionalidades.

 

Warmshowers: site específico para quem tem afinidade com ciclismo. Nesse site, não há limites de solicitações e no estado de São Paulo já é bem utilizado.

 

Facebook: grupos de Couchsurfing locais e também um grupo específico chamado Couchsurfing das Mina, a fim de garantir mais segurança e servir como uma rede de apoio entre as mulheres viajantes.

 

Rebecca soube por outros viajantes:

 

Wwoof ou Woofing: site onde você paga uma pequena taxa para participar e encontra ecovilas cadastradas onde a ideia aprender mais e compartilhar experiências relacionadas a tudo que envolve viver em comunidade de uma forma mais ecológica. Aceita hospedagens, que são sempre em roça ou no campo.

 

Airbnb: aluguel de casas ou apenas cômodos por curtos períodos.

 

Formas alternativas de alojamento: camping, pousadas, hostel (com quartos compartilhados ou privativo, é uma boa opção para conhecer  viajantes inclusive de outros países), casa de desconhecidos “que tenha algum chão com odor agradável e lugar seguro”. Nesse último caso, Rebecca diz que são pessoas recém-conhecidas ou casas que ela procura na roça ou no campo e pede para montar uma barraca no quintal. Essas hospedagens duram geralmente um único dia. A ciclista também diz receber muito apoio em bicicletarias.

 

 

 

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