Made in Botucatu

Ator, diretor, roteirista, produtor e modelo, Domingos Meira fala sobre seus trabalhos, Botucatu e a família.

Rebeca Selpis
Por Lana Salvador

“Made in Botucatu”. É assim que Domingos Meira, 39 anos, se define logo no início da entrevista. Filho temporão, foi o único dos irmãos nascido em Botucatu, onde viveu intensamente e ainda cultiva grandes amizades. Para o artista, Botucatu é uma cidade que respira cultura e ecoturismo.

Domingos começou a atuar aos 10 anos em um filme local chamado Não Funciona, do cunhado Guilherme Vasconcelos. Anos depois, para viabilizar seu trabalho como ator na cidade, começou a fazer os próprios filmes para atuar, inclusive o longa No Coração do Gigante (1998) que o ator considera um marco na sua carreira de cinema raiz: “Foi quando as pessoas começaram a levar meu trabalho a sério. Foi fazendo esse filme que eu decidi o que eu queria fazer a minha vida inteira”.

Domingos estudou Artes Cênicas na USP, onde não chegou a se formar, e lá teve contato com o teatro universitário. Apesar do teatro ter sido uma experiência importante, o artista admite não ser a sua praia. “Sempre preferi cortes do que aplausos. Sempre preferi ajustar as coisas para as lentes, eu acho mais controlado o ambiente”. Em São Paulo, começou a trabalhar como modelo para se sustentar durante a faculdade. Por ser uma área que não lhe encantava, logo focou nos trabalhos publicitários.

Não demorou muito para o ator conquistar seu primeiro papel na TV, na novela Metamorfose da Rede Record. Dali, foi convidado para atuar no SBT na novela Esmeralda. A Rede Globo veio logo em seguida, onde fez seu primeiro teste com o diretor Denis Carvalho: “Acabei a cena e ele disse: você tá com a gente. Ator pra mim é isso, você nem vê que tá atuando”. Foi assim que Domingos conquistou o personagem na minissérie JK, do também botucatuense autor Alcides Nogueira. “Nós não nos conhecíamos, esse que é o engraçado de tudo! Quando ele soube que um conterrâneo estava escalado para um papel menor, ele deve ter resolvido me dar uma chance por já conhecer meu trabalho”. E foi como o fotógrafo presidencial Sérgio Sá que o artista viveu a melhor fase da sua carreira na TV. Após o sucesso de JK, o ator atuou na minissérie Queridos Amigos. No mesmo ano, foi escalado para a novela Ciranda de Pedras a convite de Alcides Nogueira. “Ele já conhecia o meu trabalho, confiava em mim”. O sucesso era certo.

Apesar de considerar única a experiência como ator na televisão, o artista confessa que durante as filmagens se imaginava exercendo outras funções dentro do set do que simplesmente atuar, o que de certo forma o limitava. “Não dá para chamar de ator uma pessoa que não se satisfaz somente atuando”. Após cinco anos na Rede Globo, Domingos passou um longo período escrevendo roteiros para séries e longas metragens e então resolveu se dedicar à área que mais ama no mundo das artes: o cinema.

Domingos Meira fez mais de 30 filmes, incluindo Três Pedras (2008) que foi selecionado para participar do Festival Internacional de Cinema de Gramado. O botucatuense também atua e assina como produtor executivo de Fica Mais Escuro Antes do Amanhecer, filme financiado pela ProAC, gravado no rigoroso inverno da Patagônia e lançado ano passado na Mostra Internacional de São Paulo. A meta agora é colocá-lo em cartaz na capital. Recentemente, Domingos protagonizou o longa metragem Estranhas Cotoveladas, do diretor Reinaldo Volpato. As filmagens aconteceram em Botucatu, Pardinho e outras cidades do interior de São Paulo e tem estreia prevista para 2018.

BOTUCATU E A FAMÍLIA

“Eu amo Botucatu. Hometown Glory, sabe?”, citando a música da cantora Adele que homenageia sua cidade natal Londres. Depois que a mãe faleceu em janeiro de 2016, Domingos passou a vir menos pra cá. Mas o Natal na cidade é garantido por ser uma tradição de família.

Filho de Domingos Alves Meira, médico infectologista e professor da UNESP falecido em 2012, e de Maria Sylvia Bueno, professora e fundadora do projeto Ação da Cidadania em Botucatu, Domingos Meira reflete sobre os pais: “A minha mãe me ensinou que eu não tinha limite, que eu podia ser e conseguir o que eu quisesse. Essa fé no impossível foi ela que me ensinou, de transformar o impossível em possível. Já a grande mensagem do meu pai sempre foi a mesma: estudar, estudar, estudar! Ele era um cientista, um grande médico, era o homem que mais sabia de malária no mundo. Ele estudou a vida inteira, morreu estudando. Então são dois exemplos que me deixaram grandes ensinamentos”.

Culturalmente, Domingos considera Botucatu um celeiro de talentos, observando que a cidade é diferente das outras da região por dois motivos: a vinda da Unesp pra cá em 1960, que trouxe pessoas formadores de opinião de todos os lugares do Brasil. E pela Demétria, colônia formada pelos alemães após a Segunda Guerra Mundial que trouxe erudição à cidade. “Essa peculiar mistura gerou uma população que tem características muito interessantes relacionadas à caráter, à interesse artístico e à capacidade de apreciar a boa arte: a arte de qualidade”.

Domingos também revela que prefere filmar no interior. “Aqui eu tenho acesso fácil às coisas e em cinco minutos eu resolvo qualquer problema porque a gente conhece todo mundo. Sem contar que a luz de Botucatu é diferenciada”. E será que Domingos pensa em voltar a morar aqui? “Penso, claro! Preciso ganhar um pouco mais de dinheiro antes para comprar um sítio e ficar escrevendo. Aí eu saio daqui só para filmar e volto. Minha esposa adora Botucatu!”, diz sobre a jornalista Mariana Lacreta Saraiva, com quem é casado há um ano.

ATUAIS PROJETOS

Atualmente, o artista tem se dedicado a atuação e a produção em 3D através da tecnologia motion caption, onde sensores magnéticos capturam e reconhecem os movimentos corporais e os transformam em realidade virtual. “É uma área nova no Brasil. Nos EUA, ela já está com tudo”.

Recentemente, Domingos produziu uma ação da Festa de São João, no Nordeste. A ideia era ressuscitar o cantor Luiz Gonzaga holograficamente e colocá-lo para cantar com Ivete Sangalo. O corpo é do cover Lino de França e a cabeça foi esculpida por Ricardo Garcia Marques – que também tem origens botucatuenses e participou da produção abaixo – a partir de retratos para ficar com a exata fisionomia do artista, que depois foi modelada em 3D. Já os movimentos faciais são do próprio Domingos, que foram incorporados ao rosto fabricado graças à computação gráfica. “Dá para dizer que eu dublei com a Ivete Sangalo”, brinca.

Domingos também acaba de produzir o videoclipe da música Vou Te Encontrar do ex-Titãs Paulo Miklos, onde o face mapping foi utilizado pela primeira vez no Brasil. Essa tecnologia consiste na projeção mapeada facial, ou seja, a projeção de imagens acompanha o movimento do rosto de Paulo Miklos e se ajusta à sua face.

CINEMA E AS LEIS DE INCENTIVO

No cinema, Domingos Meira tem projetos consistentes, incluindo a cidade de Botucatu. Com o sócio Thiago Luciano, o botucatuense tenta captar recursos para a produção de Enquanto Espero, filme que tem como tema a Legião Estrangeira e conta com nomes de peso no elenco como Lucy Ramos, Vera Holtz, Malvino Salvador e Maria Casadevall. “É muito difícil captar recursos com leis de incentivo, dá impressão que eu estou pedindo o dinheiro ao empresário. Mas captação com lei de incentivo é um dinheiro que já está dado, o dinheiro vai para o imposto”. Por isso, Domingos lamenta não conseguir o apoio das grandes empresas da cidade: “Não é questão de ouvir não, é questão dos empresários nem aceitarem me receber. Todas as grandes empresas de Botucatu fecharam as portas para mim”.

O artista conclui: “São artistas que tem milhões de seguidores no Instagram, que vão andar pelas ruas de Botucatu, vão comer nos restaurantes daqui, vão tirar fotos, conhecer a natureza e depois vão postar tudo isso. O fato de estar ambientando o filme aqui vai expor a região, mostrar o que Botucatu tem na tela do filme. Mas é muito mais do que isso, é um mês com a produção toda gastando aqui e dando retorno para a economia local, sem contar a divulgação da cidade por cada um desses integrantes, fazendo essa informação circular ainda mais”.

Como dizem por aí: fica a dica, empresários de Botucatu!

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