A escritora prodígio de Botucatu

Conheça Ana Laura Marins, adolescente de 14 anos que finaliza seu terceiro livro e saiba como o apoio da família foi importante na realização desse sonho

Redação Diário | Diário Botucatu
Por Lana Salvador

Ana Laura Marins, 14 anos, é uma jovem escritora botucatuense que cursa o 9º ano do Ensino Fundamental. Segura nas respostas e nas argumentações, fala com convicção e já possui grande domínio da Língua Portuguesa, com uma escrita e uma oratória impressionantes. A meu pedido, a entrevista contou com a participação da mãe Adriana Soares Marins, empresária, e do pai Eduardo Marins, engenheiro, ambos com 44 anos.

A adolescente começou a escrever com 11 anos. Desde então, nunca mais parou e atualmente finaliza seu terceiro livro. Além do dom da escrita, a estudante dá palestras em eventos culturais. Outro ponto é o gosto da adolescente pela leitura, que lê em média 60 livros por ano. A jovem também ama piano, instrumento que toca desde os 4 anos, e na infância já fez aula de ballet, sapateado, hip hop, jazz, dança livre, artesanato, violão, bateria, canto e teatro. Acha que acabou? Não! Ana Laura também é fluente em inglês e já pensa em aprender um terceiro idioma: o francês. “Mas a minha paixão mesmo é a escrita”, confessa. E completa: “Pelo fato de eu já ter feito muitas coisas, talvez seja por isso que eu encontrei o que eu realmente gosto de fazer”.

O INÍCIO

Adriana conta que a filha sempre gostou de ler, mas foi com 10 anos que começou a perguntar muito como se fazia um livro, como uma história era contada e como um escritor fazia para ter tantas ideias. Foi quando os pais começaram a estimular para que ela colocasse as ideias em um papel. Eduardo lembra que quando eles contavam uma história, a filha prestava atenção de fato. E então um dia ela procurou a mãe dizendo que queria começar a escrever.

Por isso, ainda na infância os pais começaram a lhe dar muitos livros e levá-la em feiras culturais. Anos depois, Ana Laura começou a escrever pequenos contos. Mas a ideia ficou tão grande que, aos 11 anos, os contos viraram seu primeiro livro, Palácio de Prata, que conta a história de um grupo de amigos que estudam em uma escola antiga e tradicional onde se esconde um tesouro que precisa ser encontrado para que o colégio seja salvo. É aí que começa a aventura dentro de um palácio de prata.

O segundo livro, escrito aos 12 anos e que está sendo revisado, tem outra pegada e fala sobre uma menina que mora em um reino onde a vida é muito difícil. Então, ela descobre a passagem secreta para um mundo alternativo que está em perigo e fica encarregada de salvá-lo. Caso contrário, o planeta sofrerá graves consequências.

Já sua terceira obra, que está em processo de finalização, é sobre uma adolescente que vive em um lugar bem injusto onde o governo treina as crianças que irão comandar o país. Submetida a uma série de provas, a jovem inicia uma revolução para mudar esse sistema e tornar o país mais justo.

Pergunto à Ana Laura de onde vem as ideias para seus textos e livros e a adolescente diz que a inspiração vem do meio em que vive, do seu grupo de amigos e conclui: “A ideia também vem do nada: é um estalo que eu tenho ou uma pessoa que eu vejo na rua ou alguma situação que eu imagino que daria uma boa cena para o livro. A partir disso, as ideias simplesmente vêm na minha cabeça. Então eu paro onde eu estiver, pego um papel e anoto tudo. Daí eu deixo descansando e depois de um tempo eu começo a fazer o rascunho. A música também me dá muita inspiração: às vezes eu reparo na letra e penso que poderia dar um bom diálogo”.

PALESTRAS E BATE PAPOS

A primeira palestra que a adolescente fez foi aos 12 anos, quando o Sesi a convidou para falar com os alunos na Feira do Livro da escola. A proposta era que ela falasse sobre seu livro, contar sobre como foi o processo de escrevê-lo e como surgiu o gosto pela leitura. Ana Laura admite que inicialmente ficou apavorada, pois nunca tinha ficado na frente de um público tão grande – mais de 300 pessoas – e também estava preocupada com a recepção. “Mas foi incrível: subi no palco, comecei a falar e eles prestaram muita atenção. E depois também foi muito bom porque teve uma resposta, muitas pessoas me procuraram nas redes sociais elogiando meu livro ou falando que começaram a ler por minha causa. Então isso já valeu tudo, porque eu abri as portas da literatura pra alguém”, conta emocionada.

Depois dessa primeira experiência, Ana Laura ganhou mais segurança para falar em público. Uma iniciativa que ela diz ter gostado muito de ter participado foi um bate papo com mais ou menos 50 alunos da Escola IPE, em 2016. No Lageado, foi feita uma roda onde a adolescente contou suas experiências e tirou dúvidas dos participantes. “Nesse encontro, eu aprendi e ensinei muito”. Tempos depois, Ana Laura participou da Feira do Livro de Lençóis Paulista, onde falou para crianças entre 9 a 11 anos e discutiu questões sobre o seu primeiro livro. “Cada uma teve uma proposta diferente. Mas depois da primeira do Sesi, sempre que surge a oportunidade de falar, eu faço de tudo para ir, porque é uma coisa que eu consigo passar às outras pessoas e que eu amo fazer”.

ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS

Bisneta do grande escritor Francisco Marins, Ana Laura e os pais visitaram a Academia Paulista de Letras em 2016, que o bisavô ajudou a fundar e onde permaneceu por mais de 60 anos. Lá, a adolescente diz ter se emocionado muito: “Eu fui apresentada como a bisneta do Francisco Marins. Os imortais falavam dele com muito carinho e me perguntaram se eu queria falar alguma coisa. Daí eu falei que gostava muito de escrever, que meu bisavô também

tinha muito carinho por eles. Foi quando o Eros Grau do nada virou pra mim e disse: “Nós não estamos em 2016, nós estamos no futuro. E eu consigo ver essa menina sentada em uma dessas cadeiras. Então quando você estiver aqui, sorria pra mim, por mais que eu não esteja mais aqui”. Ele ficou emocionado e até chorou, eu também me emocionei. É uma sensação que não dá pra descrever”.

CLUBE DE LEITURA

A ideia surgiu durante a visita à Academia através de uma dica do neto de Graciliano Ramos, que administra o Clube de Leitura da APL. Chegando em Botucatu, Ana Laura procurou a amiga Marina que também gosta muito de ler, que trouxe outras pessoas para a iniciativa. “Eu conheci muita gente nesse Clube, pessoas de outras escolas que ficaram sabendo, me contataram e pediram para participar”. A ideia do Clube é discutir um livro por mês, que é escolhido por sorteio com indicações de todos os participantes e as reuniões são realizadas na casa de Ana Laura. “É muito legal porque eu falo com pessoas que gostam da mesma coisa que eu. E o livro não é igual pra ninguém, você que vai fazer o livro, então ouvir as outras interpretações é numa troca muito legal”.

ARTE COMO REFÚGIO

“Desde que eu comecei a escrever até agora, eu não consigo me imaginar sem a leitura e sem a escrita. Porque eu não quero escrever, eu simplesmente preciso escrever. Então acho que eu ficaria louca se eu não conseguisse colocar tudo que eu sinto em um papel. Então é um refúgio pra mim, eu consigo deixar meus pensamentos mais claros, criar mundos diferentes. Quando eu estou com algum problema, eu escrevo e às vezes eu vejo que o problema nem é tão grande assim. Muitas coisas na minha vida eu resolvi depois de escrever. E a leitura é a mesma coisa: é como se fosse um amigo ali, então eu sei que eu nunca vou estar sozinha!”.

Por fim, Ana Laura diz que o seu principal sonho é conseguir de alguma forma mudar a vida de alguém com um livro. “Ótimo se eu conseguir alcançar bastante gente e conseguir tocar a vida de várias pessoas. Mas se eu conseguir fazer por uma pessoa a mesma coisa que os livros fizeram por mim, eu vou ter realizado o maior sonho da minha vida”.

TECNOLOGIA, ESTUDOS E PROFISSÃO

Sobre o excesso de tecnologia nos dias atuais, a escritora admite que é algo que pode sim atrapalhar o seu desempenho intelectual e artístico. Por isso, Ana Laura admite ficar longe do celular quando está escrevendo ou lendo, porque se o celular está ao seu lado e toca, ela vai olhar e se desconcentrar. E depois quando volta à atividade, não sabe mais onde estava. “Eu acredito que a tecnologia atrapalha muito. Lá tem muita coisa boa em relação à informação, que chega muito rápido. Mas tem que saber usar moderadamente também”. A mãe Adriana completa: “É o que a gente sempre fala: tem que usar, faz parte, mas tudo na vida é um equilíbrio. Se você fica demais no celular, falta tempo para fazer outras coisas. Então tem que priorizar o que é importante e usar a tecnologia sem exagero”.

Em relação aos estudos, Adriana acha que tanto a leitura como a escrita contribuem na formação da filha. Porque além da desenvoltura adquirida, esses hábitos ajudam também no seu desempenho escolar, fazendo a adolescente aprender com mais facilidade, desenvolvendo o senso crítico, estimulando a sensibilidade e a criatividade. “Eu acho a Ana uma menina muito madura para a idade dela, porque ela realmente desenvolveu isso mais rápido por ler bastante”. Ana Laura completa dizendo que quando se pensa em leitura relacionada à escola, já se pensa na parte de produção de texto, gramática, mas não é só isso. É nítida a diferença de quem lê: em qualquer matéria você tem um texto, você tem que interpretar desde o enunciado até o que a pergunta pede. Além disso, ela defende que quem lê tem maior facilidade para captar o conteúdo, porque quando se estimula o cérebro todo dia, você lembra da história que está lendo e com o livro é mais fácil entender o conteúdo.

Sobre os limites dados à filha, o pai Eduardo esclarece: “A regra aqui em casa sempre foi deixar a corda solta. Enquanto a Ana estiver puxando, nós vamos soltando. E se ela estiver muito forte, a gente segura um pouco. Mas a arte, no caso, se não é a principal, sempre vai ser a secundaria que suporta a principal em qualquer coisa. Não dá pra viver sem arte. A Ana Laura gosta e entende isso, não só a arte musical, literária, mas que nem uma língua. O inglês é quase uma obrigação hoje em dia no trabalho, seja qual for o foco e também desenvolve a inteligência. Então a Laura sempre foi muito incentivada a fazer outras atividades”.

Por fim, sobre o futuro acadêmico da adolescente, esse ano a escritora começou a participar de visitas às profissões que ela tem interesse. Começaram pela sua primeira opção, a Medicina, quando a família foi visitar um amigo médico em Votuporanga e lá descobriram que os melhores profissionais da área são aqueles que também têm outras atividades, principalmente relacionadas à arte. “Então isso mostra que a arte ou qualquer outro tipo de atividade só reforça a qualidade do profissional de outra área”, diz Eduardo. A mãe Adriana explica que em algumas faculdades de Medicina do Brasil já foi introduzida Literatura na grade obrigatória curricular. “Então, na verdade, a arte em seus diversos modos só vem a contribuir e humaniza o médico”, completa. Ana Laura diz ainda ter dúvidas sobre a carreira a seguir e pretende conhecer profissionais de outras áreas que já passaram na sua cabeça. “Eu fico dividida, porque eu amo a Medicina, mas também gosto muito da escrita. E o médico Vagner disse isso pra mim: uma nunca vai excluir a outra. Pelo contrário, uma ajuda na outra profissão”.

 

“Se você tem mais livros do que sapatos, pode ter certeza que você vai muito mais longe!”.

“A dica de ouro que eu dou é sempre acreditar no seu potencial. Todo mundo começou pequeno um dia e os desafios foram fazendo com que você crescesse. Então vão ter momentos que você vai se sentir pra baixo ou que acha que não vai conseguir chegar lá, mas sempre acredite no seu potencial porque se você não acreditar, outra pessoa não vai fazer isso. Primeiro você tem que acreditar que você consegue, acreditar no seu sonho e saber que você vai falhar muitas vezes. Isso serve pra você se fortalecer e não é sobre onde você vai chegar: é o caminho que você vai percorrer que vai te transformar em uma pessoa mais forte através dos aprendizados. Muitos pais acham que têm que incentivar os filhos a lerem os clássicos e não lerem qualquer livro. Eu acho super importante os clássicos, afinal são clássicos. Mas comece lendo o que você tem interesse, qualquer livro que você acha que vai gostar, não se prender só ao que você que tem a obrigação de ler. E começar aos poucos, não se preocupar se a outra pessoa lê mais rápido ou que você não está entendendo. Não é do dia pra noite que você vai conseguir captar todas as mensagens do livro e amá-lo. Você tem que insistir e saber que isso vai trazer uma coisa muito boa pra você. Sempre persistir e procurar saber mais, ter curiosidade, procurar novos títulos. Aprender a escolher livro também é com a prática. Se precisar, pega indicações com outras pessoas, mas sempre persiste e tenta melhorar”.

Ana Laura Marins, escritora

“Tem que estudar bastante! Eu brinco que tenho que andar com um Google do lado porque a nossa filha faz cada pergunta que eu falo: deixa eu pesquisar pra te responder. Eu acho que a gente incentiva muito também porque isso não é uma obrigação pra ela nem uma imposição nossa, é algo que acabou despertando nela esse prazer. As pessoas têm que se lembrar disso: acima de tudo, ler é um prazer porque muitos assimilam que é uma obrigação. E quando você descobre isso, tudo flui melhor. A Ana Laura é um orgulho pra gente: é uma menina que tem foco, dedicada e faz aquilo que gosta. “Eu costumo dizer que ela é a minha escritora favorita e ela sabe disso”.

Adriana Marins, mãe

“Falar de orgulho não precisa: isso a gente tem demais. Mas a alegria que a Ana Laura tem na vida nos empolga: ela é uma menina alegre, carinhosa e ninguém ensinou ela a ser assim. Ela é assim naturalmente. Os livros e essa parte literária fazem com que a nossa filha seja uma menina cada vez mais interessada e interessante. Um recado que a gente gostaria de deixar aos pais é que eles incentivem a criança a ler. E se ela não está interessada, conta história. Porque a Ana Laura escritora nasceu da mãe contadora de histórias. O nosso papel é sempre apoiá-la no que for preciso. A gente costuma falar que pra tudo aqui em casa a gente faz conta, como toda família. Mas uma coisa que é ilimitado e nunca cortamos é o gasto com os livros”.

Eduardo Marins, pai

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