“UMA CIDADE SEM TEATRO É UMA CIDADE SEM ALMA”

Consagrado diretor fala sobre seus projetos e a importância do teatro para a cidade

Rebeca Selpis
Por Lana Salvador

Sério, olhar fixo para o palco e seguro na argumentação, Robert Coelho parece criar uma nova peça enquanto é entrevistado no Teatro Cine Nelli. Daquele tipo de pessoa que prende sua atenção e transforma cada resposta em uma reflexão, o artista não poupa palavras quando o assunto é Arte, Cultura e Teatro, sua principal paixão. Nascido em São Paulo, aos 10 anos de idade mudou-se para Botucatu com a família. Não demorou para Robert amar a vida no interior e considerar Botucatu a cidade do seu coração. Mesmo assim, atualmente o artista tem planos de voltar para São Paulo. Sua iniciação no mundo artístico foi ainda criança, criando histórias de quadrinho em casa e escrevendo narrativas na sua máquina datilográfica. Na adolescência, atuou no teatro e escreveu seu primeiro texto teatral. Já na juventude, Robert concluiu o curso de formação de atores no Conservatório de Tatuí, onde teve contato com todas as áreas do teatro, apaixonando-se pela direção. Foi em Tatuí, também, onde conheceu o professor Carlos Ribeiro, morto em 2016, o qual virou grande amigo e uma das principais influências para as futuras produções de Robert.

Em 2002, fundou o grupo teatral botucatuense Notívagos Burlescos, cujo espetáculo inicial foi a adaptação de um texto alemão sem falas com o polêmico tema do suicídio. Várias produções se seguiram e importantes prêmios foram conquistados pela companhia. Aliás, no que diz respeito à polêmica, Robert sente-se satisfeito com a ideia de incomodar o público no espetáculo. O artista entende que o papel da arte é preencher os vazios existenciais e tirar as pessoas da zona de conforto. Assim, como principal motivação para produzir as peças, tem em mente o que é urgente para ser dito. Para ele, viver da arte e da cultura é uma urgência necessária: “Não adianta tentar mudar o mundo pela timeline do Facebook”. Por isso, considera que uma cidade sem teatro é uma cidade sem alma, e que uma cidade sem alma se corrói por vários caminhos. Outro ponto que atrai Robert para o palco é enxergar o teatro como uma linguagem ilimitada, onde há a possibilidade de contar qualquer história a respeito de qualquer coisa de qualquer época.

Quando questionado sobre a produção que mais se orgulha, Robert não hesita em citar o projeto social sobre as famílias migrantes de Botucatu residentes em bairros periféricos da cidade, realizado em parceria com a Oficina da Dança e a antiga agência Torta Digital e que contou com a participação de aproximadamente 50 crianças e adolescentes atuando na peça. Sobre os atuais projetos, Robert está focado no espetáculo Tríptico, que se baseia no teatro de improviso através de elementos sugeridos pela plateia, e também outros dois espetáculos estão sendo montados e tem estreia prevista para o segundo semestre do ano: A Espera e Mariposas Não Sobrevoam Lâmpadas Alógenas. O diretor também pretende retomar os espetáculos para festas com duração de 20 minutos sobre a história do aniversariante. Robert segue também com o projeto Joga Cuesta, que envolve jogos de raciocínio para diferentes idades. Por fim, um jogo de cartas autoral será lançado também no segundo semestre, inspirado no universo de Shakespeare.

A respeito do atual cenário artístico e cultural da cidade, Robert é otimista e defende que existe um olhar para Botucatu que está muito à frente de outras cidades da região. “Botucatu está bem culturalmente, mas isso não significa que estamos no ponto ideal. Nós ainda podemos crescer bastante nesse sentido”. Por isso, Robert participa do Fórum de Artes Cênicas e do Conselho de Cultura de Botucatu, importantes iniciativas que buscam caminhos para que esse ideal seja alcançado.

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