Do palco botucatuense para a dramaturgia em Paris

Conheça Sheyla Coelho, importante nome do teatro de Botucatu.

Redação Diário | Diário Botucatu
Por Lana Salvador

 Quem gosta de teatro conhece muito bem Sheyla Coelho, 30 anos, uma das fundadoras da companhia Notívagos Burlescos. Nascida em São Paulo, mudou-se ainda criança para Botucatu e divide com o irmão Robert Coelho – que também já passou pelo Em Cantos – a paixão pelo teatro. Já morando em Paris, gravamos essa entrevista durante os poucos dias que a artista ficou em Botucatu antes de decolar.

INICIAÇÃO NOS PALCOS

Sheyla Coelho começou a fazer teatro aos 11 anos na escola Santa Marcelina. Mas o contato com os palcos vinha desde antes, acompanhando o irmão e diretor teatral nos ensaios desde os 4 anos de idade. O incentivo para começar a atuar veio da mãe, que a considerava uma criança muito bagunceira e achou que essa prática seria uma boa ideia para desacelerá-la. Não demorou muito para a paulistana se apaixonar por essa arte. Desde então, nunca mais parou de atuar.

A artista ajudou a criar o grupo Notívagos Burlescos com 16 anos, junto com Robert e o amigo Érick. Baseada em um texto do alemão Franz Xaver Kroetz, a peça inaugural Um Dia de Semana Qualquer foi apresentada no Cine Nelli no dia 23 de setembro de 2002 e mostrava a noite de uma solitária mulher em seu apartamento no centro de uma grande cidade, onde pouco a pouco tinha seus sonhos engolidos pelas angústias da sociedade moderna. Quinze anos depois, no final de agosto de 2017 a peça retornou ao mesmo teatro revisitada, revista e descontruída.

Sheyla lembra que na primeira versão, ao se apresentar em um festival, teve um jurado que dormiu durante a apresentação. “A gente fez essa peça para causar mesmo 15 anos atrás. O espetáculo era bem diferente, mas causava a mesma coisa.  Muitas pessoas não entendem o que é teatro sem falar, porque para elas o teatro está ligado à fala. Eu não acredito nisso, acho que teatro é ação e o gesto é uma ação, assim como a fala. Existem muitas formas de fazer teatro”.

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A VIDA EM SP

Em 2005, Sheyla voltou para São Paulo para fazer um curso técnico de teatro focado em interpretação. Lá, teve aulas com grandes nomes do teatro nacional, como Flávia Pucci e Marco Antonio Braz, e se deparou com um teatro mais ligado à forma e com uma contemplação estética mais apurada, completamente diferente do que estava acostumada em Botucatu onde tinha contato com uma linguagem mais ligada ao teatro do oprimido. Foi também nesse curso onde Sheyla se interessou pela dança-teatro e conheceu uma bailarina com quem fez um espetáculo sobre a pintora mexicana Frida Kahlo. “Eu aprendi muito. Era uma formação oposta ao que eu tinha e isso me enriqueceu bastante”.

Na TV, a paulistana fez alguns programas na TV Cultura, como: Direções, programa de teatro na TV; O Discreto Charme das Partículas, programa sobre Física Quântica que fazia com Marcelo Tas; a minissérie Unidos do Livramento da obra de Machado de Assis; e também programas apresentados durante os intervalos. “Foi uma experiência boa. A TV Cultura é um canal diferente dos outros, mas também me deu um spoiler que o ambiente da televisão não me agrada muito. Na TV você ganha dinheiro e exposição. Mas, ao mesmo tempo, a questão da criação para o ator é muito momentânea: você tem que decorar texto e fazer, e eu gosto de preparar as coisas, pensar, gosto de participar do processo de criação ”. A artista cita também o desgaste emocional e físico que a TV provoca, porque são muitas gravações por dia e as pessoas esperam que você esteja pronto e que acerte tudo. “Cada vez que você errar um negócio, alguém ali vai ficar muito bravo. Então é muita pressão e muita cobrança de todos os lados: cobrança de que você esteja bem, de que esteja linda. Agora eu estou procurando um outro caminho que eu ainda não sei direito e que eu ainda estou deslumbrando”.

Sheyla também acabou de atuar no filme Bandida, onde gravou uma cena com Zé Celso, uma das pessoas mais importantes ligadas ao teatro brasileiro. É um filme que fala sobre a condição da mulher na boca do lixo.

 

“O teatro é um lugar onde eu posso expressar como eu me sinto e o espaço onde eu vivo. Eu discordo de muitas coisas e concordo com várias outras. Então estar aqui é às vezes dizer com o que eu concordo, às vezes com o que eu discordo. E dessa forma tentar, pela minha arte, acessar as pessoas. Tanto emocionalmente como conscientemente e ideologicamente. Trazer a discussão que seja e levantar um tema. Porque eu não acredito que o teatro mude o mundo, o teatro muda as pessoas. Se eu fizer uma peça para 500 pessoas e pelo menos uma delas sair dali tocada e pelo menos pensar sobre esse assunto, eu já vou ajudar alguém a transformar o mundo”.

UNIVERSIDADE DE SORBONNE (Paris)

Sheyla diz que depois que entrou no curso de Letras da USP, em 2011, parou de ir atrás dos trabalhos na TV: “Se você quer fazer essas coisas, você tem que estar com o corpo preparado do jeito que eles querem, estar com o cabelo arrumado, enfim… porque você vai fazer testes. É um outro tipo de preparação, diferente de quando você vai fazer uma peça e prepara o corpo com aquecimento, ioga. A preparação para o teatro não é a preparação do mercado pra alcançar um padrão físico, é a preparação pro seu corpo conseguir fazer determinado movimento e ter precisão”.

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Aliás, o interesse pelo curso de Letras surgiu através da Dramaturgia. Sheyla estava com 24 anos, viajando pelo Sesi com uma peça e sentiu a necessidade de um coletivo para aprender. Literatura sempre foi a matéria que ela mais gostava no colégio e o curso de Letras sempre foi sua segunda opção. “Eu não fazia ideia do que eu ia encontrar lá, mas eu sabia que eu podia direcionar meu curso para a Dramaturgia, porque o curso de Letras tem uma infinidade de possibilidades para você trabalhar, uma infinidade de professores de línguas, de matérias. É só você ter interesse e montar sua grade de acordo com o que você quer”. Na USP, a artista fez matérias de teatro russo, teatro japonês e teatro inglês e também teve a oportunidade de aprender francês.

Recentemente, Sheyla conseguiu uma bolsa de estudos do governo francês e vai ficar um ano em Paris. Seu mestrado será sobre a obra Um murro em Ponta de Faca, de Augusto Boal. Durante a escrita do projeto, Sheyla descobriu que a peça foi montada na França e tinha uma versão francesa feita por Boal durante o exílio. E então a paulistana se propôs a estudar um épico contemporâneo, que é um teatro político que fala sobre exílio. “É uma peça muito pessoal porque ela é autobiográfica e conta a história do Boal. Então eu quero estudar como é o teatro político de agora e estou voltando um pouco no tempo para conseguir entender isso. Eu vou parar de produzir para estudar agora no mestrado e depois volto ao Brasil para fazer teatro”.

 

 

 

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