Correndo para frear a ansiedade

Como a corrida mudou a vida de Renata Andrés e se tornou sua principal aliada no controle da ansiedade.

Rebeca Selpis

Renata Andrés, 32 anos, é aquele tipo de pessoa que sempre teve facilidade de se conectar a diferentes tribos. Questionadora e boa de papo, Renata adora dançar, o que facilita sua passagem por diversos ambientes. Desde adolescente, sempre se interessou por idiomas e já estudou inglês, espanhol, francês e mandarim. Seus principais hobbies atuais são a leitura e a música, o qual se diz apaixonada por um estilo musical conhecido por pouca gente: o Trip Hop. “É um som bem relaxante, com uma batida mais lenta, é o contrassenso de quem eu sou, então isso me ajuda”. Ela também adora viajar.

Formada em História na Unesp Assis, Renata atuou como professora durante dois anos. Na mesma época, trabalhou em uma empresa com certificação, meio ambiente e gestão da qualidade, o que a levou a fazer uma pós-graduação em Gestão Integrada, Qualidade, Meio Ambiente, Saúde e Segurança no Trabalho e Responsabilidade Social. Ao concluir a pós, Renata sentiu falta de mais base na Administração, iniciando uma graduação na área, a qual termina no final desse ano. Atualmente, Renata é Coordenadora de Qualidade de Vida do Sesi Botucatu, onde atua com a Educação e na gestão dos serviços de saúde, qualidade, segurança do trabalho, cultura, responsabilidade social e esporte.
CORRIDA
O contato de Renata com os esportes é antigo: na adolescência jogou vôlei e handebol, mas só começou a correr em 2012 por uma orientação do médico e do psicólogo. Na época, Renata fazia tratamento para a ansiedade e esses profissionais a aconselharam a gastar energia com caminhadas. “Mas uma pessoa ansiosa não consegue só caminhar. Foi aí que eu comecei a correr”. Com duas outras amigas, Renata começou a treinar no Lageado.

Renata fez sua primeira prova de corrida ainda em 2012. Ao constatar que não tinha ido tão mal, passou a treinar mais. Em 2013, começou a namorar Fernando Yoshida, também esportista que a ajudou a se preparar para as próximas competições. No mesmo ano, Renata aumentou a distância dos treinos e, em 2014, participou do seu primeiro circuito de corrida, alcançando um bom desempenho. A partir daí, iniciou o treinamento funcional e logo veio o primeiro pódio em uma corrida.

Após um ano e meio de tratamento, à medida que ia controlando a ansiedade, as idas aos consultórios diminuíram. “Fui me dando alta e os especialistas também”. Porém, no começo de 2016, Renata teve uma crise de ansiedade durante uma prova, não conseguindo terminá-la e contando com a ajuda de um treinador que a acompanhou até um posto de atendimento. “Ele parou a prova dele para me acompanhar porque entendeu o que aquilo significava. Mas quantas pessoas entendem? É raríssimo”.

A CORRIDA NO CONTROLE DA ANSIEDADE

Inicialmente, foi difícil para Renata entender que precisava de ajuda. “Quando eu tive crise, eu mesma nem sabia o que estava tendo. Só sabia que eu estava me sentindo mal, mas não sabia que aquilo era uma crise de ansiedade. Depois que soube, foi um processo longo para eu encarar novamente as coisas como elas são. Quando voltei, eu já tinha uma consciência muito maior por estar medicada e contar com o apoio da família”. Sua mãe é psicóloga, então a corredora teve um suporte familiar que nem todo mundo tem. O diagnóstico veio em agosto de 2011 e o tratamento durou um ano e meio. Por volta de fevereiro de 2012, Renata começou a correr por recomendação dos especialistas.

Renata acha que ainda existe muita falta de informação em relação a esse transtorno e diz já ter sido atingida por isso. “As pessoas acham que a ansiedade é frescura, ou não é tão importante, ou não pode te impactar tanto quando você está falando, que não é possível que te cause isso. E causa. A ansiedade pode, inclusive, fazer você não fazer nada. Ela é tão grande que não te deixa se movimentar, seja fisicamente ou mentalmente. Ela te paralisa. Então quando você fala que está em uma crise de ansiedade, é difícil a pessoa entender o que aquilo significa de verdade e tudo que está passando na sua cabeça naquele momento”.

Após quase dois meses afastada do esporte, Renata voltou a correr. Desde então, nunca mais teve crise: “A corrida é um remédio constante”. Atualmente, a esportista tenta participar de todas as competições em Botucatu pois acha muito importante valorizar o que acontece na cidade. Sobre a principal corrida da sua vida, Renata é direta: “A mais importante foi a primeira, que foi o difusor de águas que me fez decidir participar de outras provas”. Essa foi uma corrida de 5 quilômetros que aconteceu em Botucatu em 2012, onde Renata pode ver a energia das famílias e de seu pai, já falecido, que estava lá a apoiando.

Já sua prova mais difícil foi a Indomit, realizada em São Bento de Sapucaí em 2016, uma meia maratona na montanha com uma altimetria bem elevada e com um grande desafio mental. “O desafio era terminar a prova. Quando terminei, comecei a chorar”. Para sua surpresa, Renata conseguiu pódio: “É uma prova difícil, concorrida e, para mim, foi um desafio pessoal, pois era uma distância que eu nunca tinha feito. Essa foi uma prova que me marcou muito”.

Renata também participou de todos as provas do Brasil Ride que tiveram em Botucatu desde 2015, competição na qual ela se apaixonou pela corrida na montanha: “Quando você está correndo nessa modalidade, é uma solidão acompanhada. Porque você está sozinha, mas está no meio da natureza, então você sabe que tem muita vida ao redor”. Para esse ano, a meta da esportista é correr 32 quilômetros solo na mesma competição.

Sobre suas premiações, Renata esclarece que todo participante que se inscreve e termina uma prova ganha uma medalha e os troféus são quando se alcança uma classificação no pódio. Então, no total Renata conquistou 42 medalhas e 18 troféus, entre competições de corrida de rua, corrida trail, trekking e corrida de aventura (multiesportes). Na sua casa, ela diz ter um cantinho especial onde guarda tudo: “Como a corrida mudou a minha vida, são coisas que eu guardo como uma lembrança. Pois eu quero sempre olhar para aquilo e falar: olha, isso mudou a tua vida, isso te fez uma pessoa mais feliz”.

Por fim, questionada sobre o que o esporte significa na sua vida atualmente, Renata é enfática: “Hoje, a corrida é um modo de vida para mim. Eu falo para a minha mãe que eu nunca mais vou parar de correr, eu vou ser uma eterna corredora. A corrida faz bem para a minha cabeça, para o meu corpo, para a minha vida social, então por que eu vou parar? Ela só me traz coisas boas”.

 

 

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