Camila Finn cresceu

E vive a melhor fase da sua vida: a maternidade.

REBECA SELPIS
Por Lana Salvador

Dia 16 de janeiro de 2005. Eu tinha 17 anos, era domingo e passava Fantástico na TV. Começou a matéria sobre a vencedora do concurso Ford Supermodel of the World, que acontecera na noite de quarta-feira (12): uma adolescente de 13 anos, brasileira e… botucatuense. Lembro bem do meu comentário: “Olha, mãe! Essa é aquelas pessoas que a gente nunca vai ter acesso na vida”. Doze anos depois, eu estava sentada no Jardim Botânico da UNESP Botucatu com a modelo internacional Camila Finn, 25 anos, e teria o prazer de dar à Botucatu a notícia sobre sua primeira gravidez.

acervo pessoal


UM SÁBADO ATÍPICO

Descoberta por uma agente aos 9 anos de idade enquanto passeava com a mãe na Rua Amando de Barros em um sábado de compras, Camila Finn mudou-se de Botucatu muito cedo. No começo, enfrentou resistência da mãe para investir na carreira de modelo, que achava a filha muito nova para o mundo da moda. Tempos depois, a adolescente armou com o pai e foi escondida à seletiva regional do Ford Supermodel, em Bauru.

Sem expectativa de chegar longe, Camila foi vencendo as etapas e, após conquistar o concurso nacional, aos 13 anos foi a Nova Iorque representar o Brasil na etapa internacional. Lá, achava impossível se consagrar vencedora, mas tinha como questão de honra conseguir o segundo lugar – colocação tradicional entre as brasileiras nas edições anteriores. Ao ser anunciado o terceiro lugar, a botucatuense respirou aliviada: “Sabia que eu não tinha feito feio. Não sendo a terceira, o segundo lugar estava mais perto. A primeira posição era impossível”. Próximo anúncio: segundo lugar. E nada. Descrente e chateada por voltar ao Brasil sem nenhuma colocação, Camila abaixou a cabeça tentando esconder a frustração. Foi quando anunciaram seu nome como a grande vencedora da noite, algo inédito para uma brasileira. “Fiquei estática, demorou para cair a ficha. Naquela foto do concurso acharam que eu estava emocionada, mas na verdade eu não estava entendendo nada”.

Naquele momento, a vida da botucatuense mudaria radicalmente.

Acervo pessoal
Camila e o pai em NY

NEW YORK CITY

Ao vencer o concurso internacional da Ford Models, a adolescente ainda insegura pediu à agência um período de três meses para ver se acostumava-se com o ritmo internacional. Imediatamente, mudou-se para Nova Iorque com o pai, Rogério Finn, e nesse período fez vários trabalhos no circuito NYC – Milão – Paris. Passado o período de adaptação, assinou contrato definitivo com a agência. A língua inglesa Camila aprendeu sozinha através de conversas e com músicas e filmes. E foi em NY que a botucatuense morou dos 13 aos 22 anos, por isso considera seu coração metade norte-americano e metade brasileiro.

Camila lembra que na infância não chamava atenção pela aparência e tinha um jeito bem moleca de ser. Ao começar a se maquiar para fotografar, percebeu algo interessante nela mesma e resolveu tentar a sorte como modelo. Mas demorou para a botucatuense se acostumar com as cobranças da sua nova realidade.

“Era meio chato, porque quando eu fui pra NYC com 13 anos eu era uma criança que vestia jeans, regata e all star. Só que lá meu agente disse que eu não podia ser assim porque eu não estava competindo com adolescentes, mas sim com mulheres. Tinha uma modelo brasileira que fazia desfile comigo e tinha 32 anos. Então no começo foi esquisita essa cobrança e na minha visão isso era totalmente errado. Cansado de ver minhas tentativas frustradas de ser um mulherão, esse agente foi comigo a uma loja da Zara comprar roupas novas e eu odiei todas. Hoje eu uso, mas na época eu achava horroroso, não combinava comigo. Aquela não era a Camila, mas eu tinha que usar. Usava obrigada. Em relação às medidas, às vezes a agência falava que eu tinha dado uma inchada no final de semana, daí eu ficava três dias comendo só melancia e emagrecia. Aí você faz 18 anos, seu corpo muda.  Hoje o Brasil dita o quadril 88cm. Eu tenho 90 e sei que para o meu corpo eu teria que me matar de exercício e ficar sem comer para alcançar esse padrão. Mas não vale a pena porque eu estaria colocando minha saúde em risco. Então você aprende a aceitar as limitações do seu corpo e vai da pessoa querer trabalhar com você ou não. Essas cobranças existem porque se você não está nos padrões que eles querem, outra garota estará”.

Ainda nos primeiros anos como modelo, para vencer a timidez e tornar-se mais desenvolta – a pedido da própria agência – Camila voltou à Botucatu para fazer teatro, o que mudou totalmente sua postura na carreira. Pergunto à botucatuense se ela acha que perdeu sua adolescência ou deixou de viver períodos importantes por causa da profissão e ela diz que não. “Eu não sinto que perdi nada. Apesar de não participar da formatura, festinha de amigas, eu ganhei muito em cultura e em experiência. Minha cabeça é totalmente diferente, eu amadureci muito rápido. Se eu não tivesse passado por tudo isso, eu seria outra pessoa. Teria gostos diferentes, ouviria músicas diferentes, enfim. Ter morado fora abriu a minha cabeça e me tornou quem eu sou hoje”.

Sobre assédio sexual e propostas de book rosa, a modelo afirma nunca ter passado por isso, até mesmo porque o pai a acompanhava em todos os trabalhos. Porém, Camila lembra de um fotógrafo francês que se aproveitou da situação quando a brasileira se mostrou interessada em aprender seu idioma e maliciosamente disse que poderia ensiná-la.

Por fim, apesar de afirmar que morar longe não foi difícil por tentar levar uma vida como se ainda estivesse no Brasil, Camila confessa que era complicado quando voltava à Botucatu: “Era mais difícil o adeus do que a vida em si fora, porque lá eu tinha minha rotina, acordava cedo, ia pros trabalhos e voltava pra casa. Eu tentava viver lá como se aquilo fosse realmente a minha vida e meu pai estava comigo o tempo todo”.

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DE VOLTA AO BRASIL

As coisas aconteceram muito rápido na vida de Camila, assim é fácil entender porque a brasileira abriu mão da vida de top model internacional em NYC e voltou ao Brasil para se casar aos 22 anos de idade.

A modelo conheceu seu marido Anibal Mutt, na época estudante de Medicina, na Unesp Botucatu através de sua irmã que trabalha na universidade. Apaixonados, o ponto de encontro do casal era uma árvore em frente ao Jardim Botânico, onde se encontravam sempre. Camila e Anibal namoraram dois anos, mas terminaram por causa da distância. Três anos depois, reataram a relação e decidiram viver juntos. Após se planejarem, Camila avisou a agência que passaria uns meses no Brasil para ver como seria. “E deu super certo: mudei pra SP, trabalhei bastante e então decidimos nos casar. Eu voltei só por causa dele”. O pedido de casamento foi feito pelo médico na árvore do Jardim Botânico, onde gravamos a entrevista. Na mesma noite, foi a vez de Camila oficializar publicamente o pedido em um restaurante. “Ele é muito tímido. Peguei o microfone para falar e ele ficou morrendo de vergonha”, lembra aos risos.

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Camila e o marido

Camila Finn casou-se com o médico oftalmologista em Las Vegas. Tempos depois, fizeram uma festa no Brasil para comemorar. O casal ainda mora em São Paulo, onde ambos trabalham. Recentemente, descobriram a gravidez: “Não foi algo premeditado. Eu tomava anticoncepcional, mas um remédio que eu uso no controle da enxaqueca cortou o efeito do contraceptivo”. E como o casal está lidando com a novidade? “Estamos muito felizes e bem empolgados. Vai ser uma menina”, conta empolgada. A previsão para o nascimento do bebê é em janeiro.

Já totalmente escuro e iluminadas somente pela lanterna do celular no deserto Jardim Botânico, mando a saideira pra futura mamãe: Pra você, o que significa ter chegado lá? “Missão cumprida”, responde humildemente Camila com o mesmo tom usado durante as quase três horas de papo.

Que mulherão!

 

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