A beleza do trabalho voluntário

Conheça Seu Benê, aposentado que há quatro anos leva música aos idosos do Centro de Convivência do Idoso “Aconchego”

Redação Diário | Diário Botucatu
Por Lana Salvador

Benedito Tavares, 76 anos, nasceu em Avaré, mas foi criado na região de Botucatu na beira do Rio Pardo. Perdeu a mãe aos 3 anos de idade e então foi criado pela vó, que faleceu pouco tempo depois, e pelo pai, empreiteiro da Sorocabana que plantava eucalipto na região. Mais tarde, Benê foi morar um tempo com a irmã e então decidiu ficar por conta do mundo. Por isso, passou muitos anos trabalhando e vivendo em fazendas. Aos 18 anos, ainda analfabeto, foi morar em São Paulo sem nunca ter frequentado uma escola. Lá, começou a estudar e aprendeu a escrever. O inglês Benê aprendeu sozinho. Já adulto, começou o curso de Administração, mas não concluiu. Durante sua estadia em Poços de Caldas/MG, conheceu Ana Conceição Figueiredo Tavares, com quem é casado há 42 anos. Após a união, Ana e Benedito foram morar em São Paulo, mas voltaram para Poços de Caldas onde viveram por mais de 25 anos. Tiveram um único filho, Leonardo, 35 anos, que atualmente mora em São Paulo.

Durante a vida inteira, Benê trabalhou na área de administração de materiais. Aposentou-se pela Alcoa Alumínio, onde trabalhou por 19 anos. Ele diz que gostava muito da profissão, mas a esposa entrega que o aposentado sempre gostou mais de tocar violão. “Uma amiga psicóloga dizia que trabalhar em uma multinacional exigente como a Alcoa com a sensibilidade que o Benê tem é muita responsabilidade. Porque ele sabia que a viola não sustentaria a família”

Benê sempre teve vontade de voltar pra Botucatu e jurou retornar assim que se aposentasse. A esposa mineira resistiu por 10 anos, mas em 2010 o casal mudou-se para Botucatu, onde vive atualmente.

 

A MÚSICA COMO COMBUSTÍVEL

Por que será que o aposentado queria tanto voltar para cá? “Porque meu coração é sertanejo”, afirma. Benê conheceu a música sertaneja através do pai, um violeiro antigo que tinha uma viola com 15 cordas. Seu irmão, o conhecido Tavares da Cohab I, também seguiu a tradição da família e abriu uma escola de viola na cidade.

Durante a juventude em São Paulo, Benê fez aulas de canto e violão com o maestro italiano Romulo Vanucci. O aposentado lembra que pegava dois ônibus circulares e um trem para conseguir chegar na escola, no Brás. A partir daí, Benê foi se aperfeiçoando sozinho na música. Começou tocando música popular, depois focou na internacional. Após se mudar pra Minas, passou a dominar o sertanejo. Tanto em Poços de Caldas como em Botucatu, teve algumas duplas sertanejas. “Eu gosto de todos os estilos, mas o que está no coração mesmo é o sertanejão. A música é o meu combustível”

O aposentado gosta muito de tocar em igrejas. Aliás, esse é o seu programa predileto: as missas, onde canta e toca toda quarta-feira, às 15h, na Igreja São Benedito e todo sábado, às 17h, no Curato São José. Além disso, também toca nas festinhas da família e nas casas das pessoas que estão com problemas de saúde: “Eu procuro sempre usar a música em prol de alguma coisa e alegrar as pessoas”

Em sua casa, o aposentado tem um quartinho que o casal usa para rezar e se recolher, e é lá que Benê admite que surge a inspiração para compor. Aliás, o aposentado até já gravou um CD, sendo as 12 composições próprias. “De vez em quando, ele entra no quartinho e sai com uma música pronta”, conta Ana. “Eu falo que aquele quarto é o meu estúdio”, revela Benê.

 

ACONCHEGO E O VOLUNTARIADO

Benedito começou a participar de trabalhos voluntários ainda em Poços de Caldas, onde tocava toda quarta-feira para o grupo “Bem Viver”, um coral formado por 36 idosas. Nele, chegou a compor uma música para elas.

Já em Botucatu, o aposentado conheceu o Centro de Convivência do Idoso “Aconchego” em 2013, local que recebe idosos semi-dependentes, com limitações físicas e/ou cognitivas. A convite de um amigo na época presidente do projeto, Benê foi visitar e tocar no local. Desde então, toca lá toda segunda-feira, das 15h30 às 17h.

Sobre o que aprendeu nesses anos todos com o trabalho voluntário, o idoso diz que quando alguém se propõe a alegrar as pessoas, o maior beneficiado é aquela pessoa mesmo, pela felicidade que a iniciativa causa nela. “É um trabalho que traz uma realização espiritual pra gente. Isso me preenche: o trabalho humanitário. Então pra mim o voluntariado é uma realização pessoal”.

Emocionado, Benê lembra de um paciente com o Alzheimer em um estágio já bem avançado que gostava muito da música Chico Mineiro, da dupla sertaneja Tonico e Tinoco, e que a repetia incessantemente nas apresentações. Após piorar o quadro clínico, o senhor continuou o tratamento em casa. Em uma das visitas, os profissionais do Aconchego constataram que o idoso não reconhecia mais nem a própria esposa, mas perguntou “E o violeiro, tá lá ainda?”. Benê fala com os olhos marejados: “Essa me marcou, viu!”.

No fim da entrevista, Benê nos dá dois CDs seus, um para a equipe do Diário Botucatu e outro ele pede gentilmente: “Vocês podem entregar pro Tiago, da dupla Hugo e Tiago?. É meu sonho tocar com ele”.

Deixa com a gente, Seu Benê!

 

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