A ARTE DA COQUETELARIA

Mesclando a criatividade entre sabores e cores, Rodrigo Duarte de Lima faz da profissão sua principal diversão

Redação Diário | Diário Botucatu
Por Lana Salvador

“Escolha um trabalho que você ame e não terá que trabalhar um único dia em sua vida”. A frase do pensador Confúcio tem sido o mantra dos aspirantes a uma vida onde a fonte de renda seja também a fonte de satisfação pessoal. Mas na prática, será que isso é possível?

Rodrigo Duarte de Lima, 37 anos, prova que sim. Nascido em Campo Mourão – Paraná, ainda na infância mudou-se para Botucatu devido ao serviço do seu pai Odair, falecido em 2000. Já adulto, depois de uma temporada em São Paulo, voltou para o interior para viver com a mãe, dona Francisca. “Quando se perde alguém da família, a gente percebe que precisa ficar mais perto de quem ainda está vivo”.

Antes da coquetelaria, Rodrigo já trabalhou em outras áreas, desde entregador de jornal até eletricista, passando pela estamparia de camisetas. Mas quando percebeu que o seu ramo era mesmo o restaurante, voltou decidido a passar a vida mexendo com alimento, bebida e interagindo com as pessoas. E assim foi: atualmente, Rodrigo é um dos mais experientes bartenders da cidade.


OS PRIMEIROS PASSOS

Aos 14 anos, o paranaense começou a trabalhar no Hotel Chaillot, em Botucatu, lavando a pia da cozinha. Um dia, ao cobrir um garçom no buffet mesmo sem ter noção do serviço, Rodrigo começou a se interessar pelo serviço de restaurante. Aos 15 anos, foi promovido à choperia, onde lavava copos. Não demorou para que Rodrigo chegasse ao restaurante do hotel. Mais tarde, trabalhou no bar da boate Summer Club. Em São Paulo, Rodrigo passou por lugares que ele considera verdadeiras escolas: Pizzaria Piola, Hilton Hotel, Restaurante Canvas (5 estrelas) e também gerenciou a padaria francesa Sete Molinos.

Já com experiência no ramo, em 2003 Rodrigo fez o curso de garçom no Hotel Senac em Águas de São Pedro: “Como tive várias pessoas me ensinando na prática, eu decidi fazer esse curso para aprender exatamente como funciona um grande hotel na teoria e na prática e a experiência foi maravilhosa”. Lá, ele passou por outras áreas que tinha curiosidade de conhecer. Por isso, hoje Rodrigo trabalha em todos os setores dentro de um bar ou restaurante. “A gente não se limita a ficar ali só servindo coquetel. Para ter um bom trabalho, tem que ter noção de outros setores também, até para ajudar e respeitar o espaço do outro”.

Trabalhando em SP, o bartender sempre teve vontade de voltar ao interior. Mas como o ramo gastronômico em Botucatu era muito limitado, o salário baixo e os equipamentos ruins, as pessoas ainda não investiam nisso. Em 2012, de volta à cidade, assumiu a chefia de bar do Villa Blues, onde focou em difundir a cultura da coquetelaria. Atualmente, Rodrigo divide o comando de um bar na cidade.

E por que a coquetelaria? No começo, o bartender diz ter se interessado pela área por conta do convívio com as pessoas e pela necessidade de ter uma renda. “A hora que começaram os elogios e eu comecei a subir de cargo, percebi que aquilo me dava prazer, só que no começo o trabalho ainda era estressante porque eu estava imaturo”. Mas Rodrigo não desistiu: começou a estudar por conta própria e trabalhar com pessoas mais experientes para aprender: “Logo, o prazer começou a aumentar a cada dia. Toda vez que eu fazia uma coisa bacana, mais sintonia eu tinha com as pessoas, as horas se passavam rápido e menos o trabalho era estressante”.

Contudo, Rodrigo esclarece que tudo que fez até hoje não foi feito sozinho, contando com a ajuda de várias pessoas e ao mesmo tempo aprendendo muito com cada uma delas.

A CULTURA DA COQUETELARIA EM BOTUCATU

No começo, o bartender diz que as dificuldades foram muito grandes porque tanto os empresários como os clientes não davam atenção aos drinks, já que no interior se bebia mais cerveja ou caipirinha. Atualmente, Rodrigo se diz satisfeito com a visibilidade da profissão na cidade e explica que o conceito da coquetelaria que se aplica ao lugar agrega muito ao seu conceito também, pois o coquetel, além de ser bonito esteticamente e ser gostoso, é uma das coisas que mais dá lucro em um estabelecimento. Porém, ele admite que a matéria prima ainda é um dificultador: “No começo eu sentia dificuldade para difundir a cultura. Hoje em dia a dificuldade está na matéria prima”. Mas o barman acredita ser questão de tempo, pois Botucatu está crescendo e em breve terá um fornecimento melhor nesse sentido.

DIFERENCIAL NO TRABALHO

Sobre o processo de criação dos drinks e a precisão na mistura de sabores, Rodrigo conta que a inspiração vem do dia a dia, das coisas que vê pelas ruas, da convivência com as pessoas, dos estudos e também através de experimentações, tendo o bar como um laboratório e os parceiros de profissão como colaboradores: “Ao longo do tempo, eu percebi que tudo que você faz em coletividade é mais gostoso, essa felicidade é mais verdadeira”.

Rodrigo também é conhecido no ramo pela sua gentileza e pela sensibilidade com os clientes, por isso ele acredita que é preciso vender alimento e bebida em um ambiente prazeroso e cheio de fantasia. Dessa maneira, o bartender leva em conta a personalidade de cada pessoa e não se deixa afetar com o que está acontecendo com o cliente, servindo a melhor coisa para o momento e tentando entender como as pessoas estão naquele dia. “Por isso é preciso muita sensibilidade, porque o mundo é tão corrido e quando você perde isso, você esquece um pouco o que é o nosso ramo que não é só vender comida e bebida, mas sim cuidar da alma da pessoa também, não só do corpo”.

Sobre futuros projetos, Rodrigo diz gostar muito de Botucatu e por isso seu foco está aqui: “Logo está pintando um projeto bem bacana por aí. É um desafio bem grande”, adianta. Sobre o que se trata? Ele prefere esperar o projeto se concretizar para comentar, mas garante que da parte dele sempre vai ser algo com muita emoção, sabor, arte e cheio de gentileza.

Alguém duvida disso?

 

 

A COQUETELARIA COMO ARTE 

“Tem muita história envolvida com a coquetelaria. E quando o bartender descobre que pode trazer sentimentos e memórias às pessoas ou até uma forma de ativismo, deixa de ser só coquetelaria e caminha para um lado muito além. A coquetelaria não é só uma mistura de bebidas: quando mexe com o sentimento das pessoas, ela vira arte. Por isso, a minha profissão só me traz prazer, felicidade e é o melhor momento para eu cuidar do corpo e da alma de cada um. E o que eu recebo em troca não é só dinheiro. Eu recebo a própria felicidade compartilhada com as pessoas, a troca de energia, o brilho no olhar de cada um, o sorriso, a alegria, a gargalhada. Isso tudo é o melhor presente. Quando você acha o prazer no seu trabalho, você cresce profissionalmente e como ser humano. Mas é preciso demonstrar isso para a equipe também, porque quando todos sentem a mesma coisa, a troca de energia é maravilhosa. Quando se faz o que realmente gosta, você vira um motivador para todos que trabalham na área e os clientes sentem isso também. Aí a energia rola de um jeito maravilhoso e as horas passam rápidas demais. O dia de trabalho já não é mais aquele dia pesado, você não sente cansaço e mau humor, você só sente felicidade e ansiedade para chegar logo no trabalho e curtir. Hoje em dia eu não trabalho, eu me divirto. É simples!”

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