QUAL ERA O MOTIVO, QUANDO BOTUCATU ‘DECLAROU’ A SUA 1ª GRANDE GUERRA…?!

"A Câmara de Botucatu já declarou “guerra” à Inglaterra. Trata-se de um manifesto de apoio dos vereadores da cidade às represálias nacionais na histórica questão “Christie”, em 1863, durante a Guerra do Paraguai."

Arquivo DB
Figueiroa, o historiador: alguns momentos conturbados fazem parte da história de Botucatu

1 – Quem mandava no Brasil em 1.863?
– O Brasil era um Império, governado por Dom Pedro II, filho e sucessor de Dom Pedro I, que declarou a Independência do Brasil em 1.822. A República só foi proclamada em 1.889, quando o país deixou de ter imperadores (o poder passava de pai para filho) e passou a ter presidentes, caminhando rumo à Democracia Representativa.

2 – Site oficial do Poder Legislativo destaca o fato.
Veja o que diz a página oficial da Câmara Municipal de Botucatu sobre o rumoroso caso, que faz parte das boas histórias que quem vive em Botucatu gosta de contar para os amigos, para mostrar que a cidade gosta de ser protagonista de causas importantes:
“PITORESCO – A Câmara de Botucatu já declarou “guerra” à Inglaterra. Trata-se de um manifesto de apoio dos vereadores da cidade às represálias nacionais na histórica questão “Christie”, em 1863, durante a Guerra do Paraguai. A questão se resolveu diplomaticamente a nível nacional, mas o manifesto da Câmara foi recebido pelo Imperador e obteve até resposta.”

3 – o Historiador João Carlos Figueiroa explica:

De acordo com o historiador botucatuense João Carlos Figueiroa, “O que houve foi uma carta de apoio ao imperador Dom Pedro II, para que ele tomasse uma atitude altiva diante do embaixador inglês no Rio de Janeiro, que vinha exigindo dele (e ameaçando com represálias) a soltura de alguns marinheiros ingleses, presos por embriaguez nas noites do Rio. O Imperador agradeceu”, conta o historiador João Carlos Figueroa.

O historiador relatou, em entrevista recente ao Jornal da Cidade (Bauru-SP), que abordou o tema recentemente, em matéria assinada pelo jornalista Davi Venturino, que Legislativo de Botucatu passou por vários períodos conturbados no que diz respeito à legitimidade do poder, no tempo em que a cidade ainda não havia se emancipado (era uma Vila). Como exemplo, ele cita que, após promulgada a Constituição de 1934, e realizadas as eleições previstas, a nova Câmara que assumiu ficou pouco tempo no poder.

“Assumiu em maio de 1936 e ficou até 10 de novembro do ano seguinte, quando, por força da instituição do Estado Novo, todas as câmaras foram dissolvidas. Daí em diante, apenas um prefeito, nomeado pelo departamento das municipalidades, administrou o município, até que, depois da Constituição de 1946 foram eleitos – separadamente – novos vereadores e prefeito. E aí, então, ingressamos no período democrático, com posse no início de 1948”, relembrou João Carlos Figueroa ao comentar o fato, que agora tem até “marchinha” de carnaval para se perpetuar no imaginário popular.

 

A “VERDADE” DOS FATOS:
BOTUCATU NÃO DECLAROU GUERRA REVELA A “TRANSCRIÇÃO DA CARTA AO IMPERADOR”
Artigo publicado originalmente na Revista Boca de Cena, editada no início dos anos 90 pelo ativista cultural Jaime Sanchez.

“Botucatu declarou Guerra à Inglaterra???”

Virou folclore! A provinciana Botucatu teria declarado guerra ao império Britânico. Essa versão tem-se tornado tão disseminada que vale a pena retornar ao ocorrido. As razões para isso talvez estejam no desconhecimento dos antecedentes históricos.

Foi em 1863, século XIX: a Câmara de Botucatu reúne-se extraordinariamente e aprova, numa tumultuada sessão, um documento, dirigindo-o ao Imperador Pedro II.

Para entender tanta indignação mostrada no documento n. 53 dos arquivos locais, será preciso revisitar os acontecimentos dos meses anteriores, verificados na Corte imperial brasileira, instalada no Rio de Janeiro. Vivia alí um embaixador britânico, William Dougal Christie, com larga autonomia para cuidar dos negócios e interesses ingleses, junto à corte de D. Pedro II.

Chamado na ocasião de ministro plenipotenciário, ele tinha autonomia grande e podia tomar decisões sem consultas prévias, como hoje é recomendado aos embaixadores. Podia ser considerado mais que um embaixador. Ocorre que (ele) era o que se chama hoje de “estopim curto” e suas relações com o império brasileiro começaram a azedar quando os navios ingleses começaram a patrulhar as águas do Atlântico na repressão ao comércio de escravos da África para o Brasil.

Questões aqui, divergências ali, uma série de fatos culminaram com a prisão de oficiais ingleses embriagados, em 17 de junho de 1862, pela polícia encarregada de manter a ordem na cidade do Rio. Christie protestou energicamente junto ao Imperador exigindo uma retratação das autoridades brasileiras.

Instruído por seu governo a ser enérgico, a 5 de dezembro daquele ano deu um ultimato ao governo brasileiro, terminando por ameaçar com retaliações concretas, caso não fossem atendidas suas exigências: indenização, punição dos policiais e censura ao chefe da polícia.

Irritado, o imperador Dom Pedro II disse que “perderia a coroa, mas não se humilharia  estrangeiro”. Ele autorizou seu ministro, Marquês de Abranches a tratar diretamente com o governo inglês, deixando de lado Christie.

Furioso o ministro inglês no Brasil ameaçou com a esquadra naval britânica e como não fosse atendido, no dia 31 de dezembro a flotilha inglesa zarpou para o alto mar e apreendeu os primeiros 5 vapores brasileiros de navegação costeira que encontrou.

Imaginando dobrar o imperador, Christie enganou-se. A população do Rio de Janeiro foi para as ruas em maciças e violentas manifestações de indignação com o governo inglês.

Perdida no sertão de S. Paulo, Botucatu seguia sua calma vida de província… até que os primeiros jornais chegassem do Rio. Ou antes, se os mascates e viajantes – ou então os carteiros – viessem com notícias.

Até que não chegaram atrasados, mas essas notícias alvoroçaram o cotidiano da pequena cidade. Seus moradores correram para as ruas e exigiram uma posição da Câmara, mas os vereadores eram todos agricultores e não podiam vir logo para a sede do município.

Foi só mesmo em 9 de fevereiro, com a Câmara lotada é que os camaristas deram vaza à indignação dos nossos conterrâneos e fizeram redigir uma felicitação ao imperador…nada mais que isso, pela atitude de altivez diante do Império Britânico e seu ministro atrabiliário.

VEJA VOCÊ MESMO A “CARTA OFICIAL” QUE VIROU ‘DECLARAÇÃO DE GUERRA’:
Transcrição original da carta da Câmara Municipal da Villa de Botucatu (1.863) ao Imperador Dom Pedro II, com a grafia utilizada na época:

Senhor – A Câmara Municipal da Villa de Botucatu, fiel interprete dos sentimentos de ‘seo’ Município, soube neste ‘certão’ da Província de São Paulo, com a mais profunda magoa e indignação a cruel e injusta agressão, que os nossos ‘fóros’ de Nação livre e independente dirigio o governo Inglez, já aprisionando em plena paz os nossos Navios Mercante, e já por meio das Notas do seo Ministro Plenipotenciário na Capital do Império.

Porém Senhor, á tão duro e justo sentimento succedeo a de gratidão para com A Sagrada Pessoa D’Vossa Magestade Imperial, Nosso Deffensor Perpetuo, por ver esta Camara a Dellicadeza e Firmesa de Vossa Magestade em sustentar os nosso fóros, como fez no Conselho Déstado. E foi no meio da ansiedade geral que desprehendendo-se do coração Magnanimo e Brasileiro de Vossa Magestade húa corrente elletrica inflamou o Conselho D’Éstado passou ao Governo do Paiz, e delle ao bom povo fluminense e a todos os povos do Brasil.

Sim, Senhor, Vossa Magestade Forte com o appoio da Nação, e a Nação tão bem forte, em quanto tiver a dita que lhe obtorgou a Divina Providência de possuir á Vossa Magestade como seo Deffensor Perpetuo, há de repellir toda a injusta agressão do extrangeiro audaz e ambicioso, e o seo Imperio Será sempre um soberano e independente.

Ah Senhor, sob o Governo Auspicioso de Vossa Magestade Imperial dos Brasileiros se mostrarão sempre os descendentes e successores dos Vieiras, Camarões, e dos Henriques Dias, e mal dicto seja o Brasileiro que não ouvir a vós da Patria, que he a voz de Vossa Magestade Imperial.

Taes Senhor, são os sentimentos desta Camara, e tambem os do Povo de Botucatu, que ella se ufana representar e depor aos pés do Trono Augusto de Vossa Magestade Deos fellicita e prospere os dias de Vossa Magestade Imperial, como havemos de mister. Paço da Camara Municipal da Villa de Botucatu, em sessão extraordinaria de 9 de fevereiro de 1863.

(Assinado)
Antonio Galvão Severino – presidente, e vereadores Salvador Bueno dos Santos Mello, Bernardino Dutra Pereira, José Francisco Corrêa da Silva, Brás Bernardo da Cunha, Caitano Ferreira Godinho, Antonio Pedro Ribeiro e Manoel Joaquim Bueno-secretário.”.

Depois de ter chegado até aqui, você ainda acha que Botucatu declarou guerra à Inglaterra?
Nota do Editor – Sem comentários 

Reprodução
William Dougal Christie (1816-1874) foi embaixador britânico creditado no Brasil entre os anos de 1859 e 1863. Ficou conhecido pela sua atuação inábil durante uma série de incidentes ocorridos entre o Brasil e o Reino Unido, que acabou culminando no rompimento de relações diplomáticas entre os dois países, em 1863.
Reprodução
DOM PEDRO II
O Imperador do Brasil agradeceu a “carta de apoio” no enfrentamento aos ingleses, enviada pela Câmara Municipal da Villa de Botucatu em 1.863. O fato aconteceu antes da cidade virar município, o que aconteceu somente em 1.855.

 

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