POR FAVOR. NÃO CULPEM APENAS OS HOMENS PELO MACHISMO REINANTE

Para dialogar com um mundo feminino empoderado, nada mais adequado que o derretimento machista. O convite é para o encontro

 

Redação Diário | Diário Botucatu
Redação Diário | Diário Botucatu

Dentro de casa. O lugar onde se mata 70% das mulheres brasileiras não é uma questão de segurança pública. Não é uma questão de Estado. É uma questão de Família. Nenhum de nós, leitores de jornal, tem o direito de ser omisso.

Muitos dos que fazem parte dessa espécie de “algozes íntimos” também são vítimas de uma espécie de analfabetismo, aquele que faz com que príncipes se transformem em ratos, no decorrer da vida. Apenas casos graves – mas tratáveis – quando diagnosticados em sua fase inicial. O momento em que o tumor emocional e físico – dos vários tipos de câncer cultural no comportamento familiar – ainda está com os nervos no caule da flor da pele.

O primeiro “tapa” forte que alguém tomou na vida.

E não importa de que mãos tenham vindo. Mesmo que tenha sido apenas um tapinha de amor, daqueles que dizem – ou fingem – que não dói. Mas também tem seus adeptos culturais, não apenas comportamentais, um exercício refletido em busca de um prazer imaginado, não é uma epidemia degenerativa, como é o caso da violência doméstica.

O problema da sociedade machista é que ela criou homens e mulheres que defendem a ideia de que os tapas e as surras que tomaram na vida é que serviram para transformá-las nas pessoas “de bem”, “honestas” e “cidadãs”: em gente boa, com um nome a zelar, aquilo que a gente aprendeu culturalmente a chamar “de família boa”, em todas as suas traduções e tradições sobre a expressão em toda a diversidade dos usos e costumes nas mais variadas regiões brasileiras.

Existem – hoje participando do debate público – pessoas que cultivam a ideia de que a violência conserta o mundo. É uma ideologia, presente dentro de todas as outras.

70% das mulheres assassinadas possuem em comum o cenário do crime: a própria casa. Um dia precisamos conversar com as crianças sobre isso. Garantir que não sejamos para sempre os mesmos, que continuam vivendo como viviam seus antepassados. Uma ideia que a voz de Elis Regina começou a berrar em 1.976, naquele álbum incrível chamado “Falso Brilhante”.

Se as nossas crianças aprenderem conversando – ou mesmo ouvindo belas histórias de ninar, daquelas que constroem valores e princípios sábios – o diálogo conserta esse nosso mundinho familiar, escolar e comunitário.

Mas isso não é assunto pra jornal nem pra internet. Isso é apenas uma “questão de família”, que por causa da nossa omissão, se transformou a violência num tema amparado e defendido, de forma legítima e democrática, por alguns setores da nossa sociedade.

Uma sociedade que, felizmente, no campo das ideologias, não se divide mais com a mesma cultura de antigamente. Aquela que só nos faziamos ter uma escolha o tempo todo na vida. Ser de esquerda ou de direita. Ser doutor ou ser artista. Aquilo que todos nós consideramos como sendo o reconhecimento da moral da nossa própria história. Um exercício individual, de cada um com os seus, de cada um com a sua roda.

Não faz mais sentido o bullying político nos encontros de militância aguerrida dos anos 60, 70 e 80, um processo que se consolidou – envelhecendo e definhando em termos de valores e princípios – nos anos 90, quando o pragmatismo voltou a tomar conta da política brasileira e de suas principais instituições dos setores público e privado.

O que essas gerações talvez não tenham descoberto, é que aprenderam refletindo distorcidamente sobre o erro que cometeram; que a “salvação” as protegeu das coisas más que poderiam fazer pela frente na trajetória humana foi exatamente a provocada pelas dores que carregam na alma, em qualquer lado da vida que causa o incômodo, a frustração, a perda do sentido de algumas pessoas, coisas e atividades que faziam tão bem à própria vida.

Uma doença bem comum que reproduz de geração em geração, enquanto ficamos discutindo “questões” individuais: que nos separam entre bons e maus, entre certos e errados, entre adeptos e contrários, entre crentes e pecadores, entre homens e mulheres, entre ricos e pobres, entre casados e divorciados, entre nativos e forasteiros, entre pessoas que amam de um jeito e entre pessoas que amam de outro.

Tenha um bom dia.

Independente do tapa que te fez acordar para o diálogo franco sobre não ser omisso. E seja muito bem vindo a essa conversa. Uma conversa que começa pelo respeito à individualidade do outro. Inclusive fisicamente. Isso qualquer pessoa pode aprender dentro de casa. De uma forma ou de outra. Mas é como enxugar gelo. Tem que ir até o fim para derreter o machismo até o nível de copo meio cheio. Pra que a outra metade possa respirar melhor e viver a vida na plenitude do possível, dentro das escolhas feitas pelo improvável. Cada um com a sua fé e cada homem e cada mulher com seu jeito de ser feliz. O Centenário da Semana de Arte Moderna de 1.922-2022 pode marcar o final desse grande diálogo entre as famílias brasileiras, enraizando uma nova forma de aceitar as famílias tortas que temos hoje, as instituições cambaleantes que produzimos, os valores frágeis que nos moveram nas últimas décadas como sociedade. Até porque não existe nada mais gostoso que um almoço de domingo, um bom debate entre amigos, uma boa partida de futebol ou uma simples festa de aniversário: quando todo mundo vai embora com vontade de matar saudade, porque as feridas já estão devidamente derretidas. E tem uma nova geração chegando aos 30 anos e aos mesmos dilemas de sempre: “ser ou não ser dono do próprio nariz”, eis a questão. #comtodasasletras

Pedro Manhães, 50 anos,

é Editor de Conteúdo da PM&A,

rede associativista que atua na área de comunicação, marketing e entretenimento.

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