Duelo entre tucanos e petistas: cenários bem parecidos em Botucatu e São Paulo

Editorial do Pedro Manhães sobre política

Da mesma forma que o PT nasceu em 1.982 tendo como berço a capital paulista e seu entorno, o PSDB nasceu com a mesma configuração, com uma única diferença: enquanto o sindicalismo forte do Grande ABC foi a segunda praça petista, para os tucanos foi no interior de São Paulo que encontraram a base político-eleitoral que se juntou ao prestígio de suas lideranças paulistanas. O ex-prefeito de Botucatu, Jamil Cury, fez parte desse seleto grupo de políticos do interior que engrossou as fileiras da fundação do primeiro partido social democrata brasileiro.

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Se na capital aconteceram os maiores derbys dessa disputa política, no interior aos poucos essa lógica também foi chegando. Em Botucatu, particularmente, desde 1.996 o PT se colocou como alternativa de poder. De 1993 a 2000 a cidade que teve de oito anos de governo tucano. O petismo emplacou mais oito na sequência com os dois mandatos de Mário Ielo. As eleições de 2008 colocaram a cidade de volta no ninho tucano com a eleição de João Cury, que vai fechar mais dois mandatos como prefeito no final deste ano.

O jogo está hoje com o seguinte placar: 16 a 8 para os tucanos. Jamil Cury (1993-1996), Pedro Losi (1997-2000) e os dois governos de João Cury (2009-2016) garantem a matemática tucanos. Os dois mandatos de Mário Ielo pelo PT somam os 8 pontos (anos) em que a cidade esteve sob a direção do partido da estrela.

E neste momento, com tudo completamente embaralhado, chegamos às eleições de 2016. Ielo não representa mais a bandeira do PT, mas quer ser herdeiro da história petista na cidade e disputa esse legado publicamente com Érick Facioli (candidato do PT), que se sente mais legítimo para representar essa herança.

Na salada eleitoral de Botucatu, Mário Ielo saiu do PT no meio do bombardeio contra o partido e foi para o PDT. Seu candidato a vice, que pouco apareceu durante a campanha, é um ex-tucano, o advogado Caco Colenci, ligado ao ex-governador Alberto Goldman, que até bem pouco tempo era homem de confiança do prefeito João Cury Neto (PSDB).

Na capital paulista, Marta (que carrega o nome do ex-marido Suplicy até hoje), saiu do PT e foi para o PMDB para tentar voltar à prefeitura paulistana. Seu vice também é um ex-tucano, o vereador Andrea Matarazzo, ligado ao grupo do ministro José Serra (como Goldman). É muita coincidência junto.

Outra coincidência entre Botucatu e São Paulo está na chapa majoritária do PSDB. Lá, o governador Geraldo Alckmin jogou todas as suas fichas no nome do empresário João Dória Júnior, um estreante em eleições. Aqui, o prefeito João Cury teve a mesma ideia. Foi buscar para representar como candidato a prefeito outro marinheiro de primeira viagem: o ex-superintendente da Sabesp Mário Pardini. Dória lidera lá, segundo o DataFolha. Aqui, ninguém sabe, já que não aconteceu nenhuma divulgação de pesquisas com credibilidade.

Da mesma forma que na capital, onde Fernando Haddad (PT) tenta ser empurrado nesta reta final para o segundo turno, o que ainda parece difícil segundo a última pesquisa do Datafolha, em Botucatu o petista Érick Facioli faz um esforço sobrenatural para tentar se posicionar como alternativa ao ex-prefeito Mário Ielo como candidatura legítima que representa o legado petista na cidade.

E aquela história. Se Ielo não é mais do PT, porque ainda carrega tanto prestígio entre o eleitorado tradicional do partido. Esse é o desafio do jornalista. O de Ielo é mostrar que com o apoio de vários partidos, tem tamanho para ser maior do que foi quando tinha apenas o PT e alguns partidos de esquerda como base de seu projeto político.

As semelhanças entre Botucatu e São Paulo não param por aí. Reinaldinho, candidato a prefeito de Botucatu pelo PR, seria uma espécie do que representa em São Paulo a candidatura de Celso Russomano (candidato a prefeito pelo PRB): é o cara do Legislativo tentando chegar no poder Executivo. Daniel Carvalho (PSOL) é a nossa Erundina. Aqui como lá, ambos fazem discurso duro, tem posições fortes e corajosas, e tentam se firmar como a nova alternativa da esquerda, depois que o PT perdeu parte do prestígio.

Sabe no que isso tudo vai dar? Não faço ideia. Mas estou bem curioso para saber como o eleitorado de Botucatu e de São Paulo vai se comportar nas eleições deste domingo. Em Botucatu, tudo se decide já. Em São Paulo, se ninguém tiver maioria, ainda vai ter segundo turno. Vou arriscar um palpite, que talvez seja até uma vontade. Em São Paulo, o melhor segundo turno seria entre Dória e Haddad. É clássico, do tipo que mobiliza multidões. Em Botucatu, bom, em Botucatu só tenho um prognóstico. Quem vencer nas urnas vai mostrar prestígio. Quem perder vai mostrar os dentes. #COMTODASASLETRAS