RATOS DE GABINETE

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Quem não se lembra da velha piada? O sujeito, na roda do boteco, vira um copo de cerveja e entrando no assunto que rola diz bem alto pra todos ouvirem:

                                   – Todas as noites quando chego em casa dou uma surra em minha mulher. O espanto é geral, o amigo ao lado contesta e pergunta:

                                   – Que violência, cara! Afinal, porque bate tanto em sua mulher? A resposta do sujeito é imediata:

                                   – Eu não sei por que bato, mas ela sabe por que apanha!

 

Assim é o novo Brasil das altas rodas políticas e empresariais, assim roda o novo papo das estrelas no jet set do circuito Elizabeth Arden, Valentino, Victor Hugo, Armani. Tiffany, Complexo do Alemão, Morro do Jacaré, High Society e Funk de Periferia. A roda da cachaça se mistura ao champanhe francês, feijão preto, farofa e “foie gras”. Vez em quando dança do guardanapo, Vivara, Sertanejo, Anitas provocantes, HStern, brincos iguais ao colar. A farra gorda valeu para todos os gêneros, arco Iris afora. O romântico sol da alvorada dos Alpes de repente se tocou e ficou quadrado. Recordar é viver, sobram ainda nas caixas de papelão queijos flamengos recolhidos na baixada fluminense. Nem Vasco da Gama ou Cabrais descobririam o caminho das pedras: Bota fogo no arquivo gritava ao secretario que abriria o bico. Mas, diria Nelson Ned, tudo passa, tudo passará. Nelsinho passou, pequenino como um garotinho, deixou saudades, Rosinha se juntou a Adriana, nem lembrança ficou.

O novo Brasil, quem diria, assim tão cedo? Ora direis, ouvir estrelas? Quem dá mais? O leilão na banca de oferta, cada dia a fila engrossa. Vai faltar algema e camburão. Onde foram parar os pés de chinelo deslocados para acomodar a nova safra de celebridades? O tráfego congestionado na escolta de segurança, protegendo o lado errado da coisa, como sempre. A Assembléia desafia o Supremo, como no velho filme “Imitação da Vida”. No dia seguinte se faz de esquerdo, era brincadeira, estava só passando pra deixar um abraço, e, de volta para o futuro, portas abertas no retorno ao xilindró. È preciso ter paciência, um belo dia tudo se acaba, se desperta do pesadelo, bocejando preguiçoso nos braços de um belo “Habeas Corpus”. Se não for assim tão de repente, um tantinho de paciência, como caldo de galinha se acomodam os sapos engolidos. Primário, bom comportamento, horário de trabalho na saleta de biblioteca, um sexto da pena, como abracadabra as portas da esperança de novo se abrem. Nem tudo são flores, tem dia de inspeção, câmeras de TV, promotor aparecendo na capa, mas compensações são sempre bem vindas. Não se precisa de SPA, a silhueta se acomoda ao novo regime, banho de sol com hora marcada, o longo corredor do papo de aranha. Diria o poetinha: Foi bom e eterno enquanto durou. Amanhã? Ora bolas, amanhã é outro dia. Diria o argentino, italiano metido a inglês chorando as vidas do submarino: “Tomorrow is another Day”. As lágrimas lavam o sorriso, deixando limpinha a cara de pau ao molho madeira, vai mudar, a escola passará, de pai pra filho em cadeia de Bangu.

É o nosso Brasil: Presidente processado vendendo a alma se safando da revanche. No Congresso a maioria roendo parmesão de rabo preso e de olho no lance. O passado não perdoa, insiste em assombrar o futuro que a Deus pertence. Três ex-presidentes dançando na roda bamba da fortuna dos processos. Instancia após instancia, des-pa-ci-to, logo os eleitores se esquecem e, repetindo distraídos, os chamam de volta. Quem tiver Bic que escreva, quem não souber, que use o celular mesmo. No Rio falta cela pra ex-governador e deputado, mas isso se supera, tem gravata sobrando nas bancas das instancias seletas.

Sempre se inovando a nova pátria dos tribunais entrincheirados contra o exercito parlamentar, forte como o de Brancaleone, declara guerra à América de mentirinha. Essa batalha ninguém perde, todos ganham, vencidos, vencedores, remidos e contemporizados. Nova casta se apresenta na roda da fortuna que contempla novos atores. Viram milionários da calada da noite para o dia que insiste em amanhecer e mostrar temporários refrescos. Quem não se encheu o saco de ouvir as ladainhas sem graça do espigado defensor aparecido do ex-presidente?

Repete-se a piada do machão. Eles não sabem por que pedem tanta grana, mas a clientela sabe por que paga. A roda da fortuna roda em novos impulsos. A bufunfa corre grossa pra todo lado. Entretanto, amigo desinformado, a empolgação não cabe nesta hora. As leis, os recursos, as chicanas estão em todas as prateleiras, em todos os códigos, em todas as livrarias. Sem ofender, o monte é o mesmo, mudam as moscas. Melhor tirar o cavalinho da chuva, caro acadêmico das arcadas, os ingressos para a nova temporada nem com cambista de copa do mundo se conseguem. È jogo de cartas marcadas. Filho de peixe, amigo do amigo, companheiro das rodas, das Comissões e das seletas turmas dos tribunais insondáveis. O espaço é restrito, nem jogo de cadeira existe mais. Todas as poltronas estão tomadas pela galera da primeira classe. Se quiser tentar lamento o desestimulo. Já não tem mais pano pra manga, as suítes estão todas tomadas pelos

 

RATOS DE GABINETE

È jogo de cartas marcadas. Filho de peixe, amigo do amigo, companheiro das rodas, das Comissões e das seletas turmas dos tribunais insondáveis.

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Humberto Migiolaro

COLUNA MESTRA   – Diário Botucatu
Humberto Migiolaro
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