Coluna Mestra: Filho bicho

Jorge Bispo/ divulgação

Ou, talvez, quem sabe, um dia, voltariam Gilberto Gil e Dick Farney a cantar “O Rio de Janeiro continua lindo”, “Copacabana Princesinha do Mar”, e tornar de novo verdadeiras nas ruas as doces palavras de “Cidade Maravilhosa…”

-Humberto Migiolaro –
Colaborador DB

É crescente e alarmante a escala da criminalidade em nosso país. As estatísticas exibem números assustadores comparáveis a países em guerra declarada do oriente médio. O fenômeno atinge praticamente todo o território nacional, mas devido à concentração humana e a mais intensa repercussão social, as grandes capitais dos estados são aquelas onde os seres humanos mais se sentem desprotegidos. Os números são eloqüentes e sua escala ascendente é indisfarçável e apavorante. Sim, o fenômeno é apavorante porque alem das perdas materiais e humanas correm paralelos a sensação de insegurança, o pavor, o medo, a paranóia da violência.

O fato não é prerrogativa da nação brasileira, existe uma linha ascendente nas estatísticas de ocorrência de fenômenos violentos humanos. A concentração, entretanto é mais notável nos países menos desenvolvidos, onde a ignorância, a miséria, a doença e a inoperância do estado são fatores incontestes. A Venezuela, por exemplo, é um caldeirão de crimes, Caracas, o centro da violência individual e coletiva, onde se misturam todos os fatores citados, somados à insegurança política e econômica. O caos impera na capital venezuelana, e seu governo caótico devolve a insegurança das ruas com absurdas medidas que provocam reação paradoxal do aumento gradativo da violência e anarquia. O chavismo conseguiu a glória de destruir todo o potencial político, cultural, social e humano de um dos países que ocupava especial destaque nesses capítulos, em anos anteriores. Mas, a Venezuela tem motivações especiais para o estabelecimento da baderna, da criminalidade e do risco social. Tem um governo fraco que tende à extinção, sugerindo, dizem os empolgados, provável final trágico ao estilo Muamar Kadafi na Líbia. É o espelho e imagem que parcela idiota, irresponsável, criminosa e assassina de nossa política prega para nossa pátria.

A Venezuela é a Venezuela, a Síria é a Síria, o Iraque é o Iraque. Mas e o Rio de Janeiro? Diria Gilberto Gil: “O Rio de Janeiro continua lindo…”. Não há guerras declaradas por estas bandas, não há ditadores sanguinários em nosso governo, não há fome grassando pelas ruas e morros. Não há sede compulsória de grana e o sexo não constitui exatamente motivo de ansiedade e carência para todos os gêneros. Há sim uma infeliz coincidência de determinantes deploráveis, que, cada um deles isoladamente, já seria suficiente para promover o fim do viver normal dentro do cenário de sonho. A violência grassa como erva daninha em todo nosso território, mas seria hipocrisia ou coisa parecida não destacar o caldeirão de pólvora em que se transformou a cidade maravilhosa. A convivência aproximada da marginalidade dos morros que desembocam nas regiões mais nobres, o jeitão falsamente despretensioso e amistoso do carioca das praias, das esquinas e dos botecos projetaram o cenário de fundo para a tragédia bufa patrocinado pelos facínoras governantes locais e federais. No meio da miséria material, educacional, sanitária, e da falta de tudo para quase todos, a corja política sacramentou oportuna associação aos facínoras bandidos do trafico de drogas e da violência profissionalizada. A estatística incompleta dos meios oficiais escancaram à população a media de 16 assassinatos por dia na cidade maravilhosa. Semanalmente seriam mais de 130 mortes violentas, números que se aproximam de todos os mortos e desaparecidos no período do regime militar, em todo o país, pelo período de vinte e cinco anos de poder.

Não se prega o regime de exceção, os tempos são outros, as condições de vida, de meios e o próprio espírito da caserna não sugere tal intervenção pregada irresponsavelmente em redes sociais. É apenas cotejo estatístico, dados que saltam a nossa interpretação e que berram em nossos ouvidos: “Viver é perigoso”. Alem do perigo da violência, do assassinato do crime organizado, do banditismo correndo solto pelas ruas, praias e avenidas, acrescente-se nesse cenário deslumbrante e maluco as malucas balas perdidas. Materialmente nem sempre atingem o alvo. Moralmente ferem a alma do cidadão apavorado que se tranca, e mesmo trancado corre risco concreto.

O ser humano infelizmente degringola. Nessa loucura de descrença, morrem a confiança, o destemor, a amizade e o amor. Confiar em quem? Em quem depositar respeito? O ser humano, nessas condições, não necessita ser baleado ou violentado fisicamente. O pavor que invade seu interior faz o medo passar a elemento presente em todos os seus atos. Cada estranho que se aproxima, cada esbarrão na multidão, cada som de estampido ou soar de buzina aceleram o pulso do ser humano normal. Ele não vive mais em seu habitat natural, o homem reage como animal trancafiado em zoológico, arrancado de sua floresta Cada ruído dispara a adrenalina em descarga incontrolável. Os animais furtados das matas levam tempos e tempos para adaptação ao novo meio de isolamento. E o ser humano, algum dia se adaptará a esses hediondos tempos de trauma, violência e pavor? Ou, talvez, quem sabe, um dia, voltariam Gilberto Gil e Dick Farney a cantar “O Rio de Janeiro continua lindo”, “Copacabana Princesinha do Mar”, e tornar de novo verdadeiras nas ruas as doces palavras de “Cidade Maravilhosa…”

Não é a toa que o bicho gente assusta cada vez mais o cidadão. Como refugio do afeto, o amor sem perigos, o carinho do bem querer gratuito, em curva ascendente cresce a adoção de bichinhos domésticos como eleitos amigos. Os bichinhos animais não substituem o amor humano, acrescentariam lealdade e afetividade. Amigos, nesses tempos de riscos, desamor, agressões, mortes violentas, se expande no coração humano o espaço para  filho bicho.

Humberto Migiolaro

Medico, escritor, membro efetivo da ABL e colaborador do Diario Pocket

Redação Diário | Diário Botucatu

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