Falar é prata, calar é ouro

Redação Diário | Diário Botucatu
Por Audrey Sabbatini –
Colaboradora DB –

Um dos grandes segredos da Comunicação é o saber ouvir. O ouvir, no caso da Comunicação, não significa somente decodificar as palavras ditas; trata-se da amplitude que se inicia com a codificação do signo linguístico, isto é, entender a mensagem evidenciada pelas palavras proferidas até observar a direção do olhar, o movimento das mãos, o jeito de sentar, a vestimenta; enfim, o ato de ouvir vai muito além de simplesmente de entender a mensagem dada pela verbalização, seja ela oral ou escrita.

No mundo atual, principalmente no mundo corporativo, as pessoas querem falar, expor seus projetos, dar diretrizes, mostrar caminhos, emoldurar soluções; há muito ruído que, na maioria dos casos, apresenta-se altissonante e pouco eficaz, pois é como pôr fogo em papel, apaga-se rapidamente. O mundo está carente de ouvir, de saber ouvir, de ser ouvido. Numa sociedade em que o saber falar é algo procurado, treinado e exercitado, esquece-se de que, para se conduzir um bom discurso, deve-se se conhecer a plateia.

Assim, é preciso treinar o ouvir, o que não é uma tarefa fácil.

Há duas formas de ouvir, conforme ensina Richard Greene[2], professor e pesquisador da área de Comunicação que avaliou a postura comunicativa do ex-presidente Barack Obama.

De acordo com Greene, uma das formas de audição é o Pronto para Retorquir (PPR), ou seja, enquanto você ouve o outro, fica pensando na resposta que dará. Esse modo não remete a uma audição de respeito ao outro, nesse ato auditivo, o outro não é importante, pois o ouvinte está concentrado nele mesmo, no que ele pretende responder e não na mensagem que o falante quer comunicar. Há, portanto um excesso de egocentrismo, um dizer indireto que privilegia não o emissor, e, sim o receptor; que mostra ao outro – de maneira peculiar – que o ele disse não foi validado, não tem importância; melhor ainda, não foi ouvido.

Já, ao treinar o ouvido para escutar, ou seja, ouvir como uma Tábula Rasa, ou uma Lousa Apagada, prestando legítima atenção nas palavras, nos gestos, no olhar e, assim incorporando o dito, refletindo sobre ele, dá-se total atenção ao que se ouviu e se pode compactuar com o outro de maneira a interagir não somente a partir das palavras ditas, mas como o que verdadeiramente se quis transmitir.

Ao se talhar o ouvido para ouvir como uma Tábula Rasa, uma Lousa Apagada, passa-se a respeitar o falante em sua totalidade, pois nesse ato, conhece-se muito mais do que as palavras queriam transmitir, pode-se verificar a segurança sobre o que foi dito; observar a paixão pela mensagem evidenciada; a importância dada ao falante pelo que a expôs. Palavras não dizem tudo. Fala-se também com os olhos; já houve que dissesse que “um olhar vale mais que mil palavras”[3].

No universo corporativo o saber ouvir é uma ferramenta ímpar para o gestor. Pois, é no momento em que ouve seus colaboradores, sua equipe, seu cliente que surge a possibilidade de se colher interessantes indícios sobre o que realmente é importante para àqueles com quem a empresa interage, ou pretende interagir.

Ao ouvir o outro, o gestor mostra-lhe que suas ideais, seus objetivos e suas metas são importantes. Dessa forma, acolhe-o, de maneira a dizer “você é importante para mim”, “o que você pensa é algo muito precioso”; transformando o emissor/falante em um ser único.

Essa ideia de fazer o outro se sentir importante a partir da audição mostra a ele, o que, no íntimo, todos querem, serem reconhecidos.

Analisa-se esse preceito a partir de atos cotidianos, por exemplo, quando se acena para o outro que passa e esse não corresponde ao aceno; fica-se totalmente sem ação frente àquela recepção negativada. Quem nunca quis chacoalhar o outro e indagar “você está ouvindo?”

Falar é importante, saber falar mais importante ainda; mas saber a hora de falar e como falar é essencial; porém saber ouvir é excomunal; pois é a partir do ato de ouvir que se aprende o que falar, quando falar, por que falar, para que falar e, acima de tudo, a quem e com quem falar.

Desenvolve-se com esse ato, o servir, um dos pilares da liderança, que, de acordo com o livro “O Monge e o Executivo” de James Hunter, levará o outro fazer aquilo que você quer de bom grado; pois será importante agir junto e ou conforme aquele que se importou, que lhe deu importância.

Logo, no mundo das palavras quem sabe ouvir é rei.

 

Audrey do Nascimento Sabbatini Martins é formada em Letras pela Universidade do Sagrado Coração e mestre em Comunicação Midiática pela Universidade de Marília. Atua como professora no Centro Universitário de Bauru – ITE e na Faculdade Iteana de Botucatu e no Ensino Fundamental II e Médio, na cidade de Duartina (SP), na Escola Estadual Benedito Gebara e na Sociedade Educativa Equilíbrio – Objetivo.E-mail: aysabbatini@msn.com

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[1] Referência a um dito popular que enaltece o ato de silenciar, muito usado no interior.

[2] Referência a um vídeo trainee da empresa SIAMAR – Educação e Treinamento que traz o filme “Os cinco segredos da Comunicação que levaram Obama à presidência”.

[3] Referência feita a autora Adriana Matheus, em seu livro intitulado “Um olhar vale mais que mil palavras”. Expressão usada metafórica analisada por diversos autores e muito usada pela cultura popular.

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